Opinião

O PS tem uma visão aristocrática da democracia

Enquanto tentam impor o PS como partido-charneira do regime, Costa, César e companhia estão a promover uma cultura de castas debaixo do nosso nariz, e perante a passividade geral.

Catarina Martins decidiu falar no fim-de-semana sobre o excesso de relações familiares no Governo, aconselhando o Partido Socialista a uma “reflexão sobre essa matéria”, para que “os cargos públicos não sejam ocupados tendencialmente por um grupo de pessoas com muitas afinidades”, pois “a democracia precisa de mais espaço para respirar”. Quem pode discordar de uma coisas destas? Resposta: Carlos César, o homem que tem toda a família directa em cargos políticos ou de escolha política, e que após ser confrontado com as declarações de Catarina Martins concluiu, em diálogo com o seu próprio reflexo: “Espelho meu, espelho meu, haverá pessoa mais indicada para responder a isto do que eu?”

O espelho achou que não. Vai daí, Carlos César surgiu a galope na comunicação social, espadeirando contra Luís Marques Mendes, que também se atrevera a criticar na SIC o governo doméstico de António Costa – lembrou Carlos César que o pai de Luís (o advogado António Marques Mendes) já havia sido deputado, e que a irmã de Luís (a advogada Clara Marques Mendes) é actualmente deputada do PSD –, e trinchando Catarina Martins com o golpe Mortágua, ao declarar “que o Bloco de Esquerda é um partido onde, no seu próprio grupo parlamentar, são abundantes e directas as relações familiares”.

Tem ou não tem graça ser Carlos César a vir para a praça pública dizer uma coisa destas? Tem muita graça. Recupero uma notícia com três anos da revista Sábado: “São cinco: além do líder parlamentar socialista, Carlos César, há outros quatro ‘césares’ na administração pública e em cargos públicos. Aliás, toda a família: a mulher foi nomeada pelo Governo regional, o filho foi eleito pelo PS regional, a nora nomeada por uma secretária do governo regional, o irmão escolhido pelo ex-ministro da Cultura do actual Governo.” Em bom rigor, hoje já não seriam cinco, mas seis: a sobrinha de Carlos César, Inês César, foi contratada em 2017 pela Gebalis (a empresa municipal que gere os bairros sociais de Lisboa), depois de já ter sido assessora na junta de freguesia de Alcântara, liderada pelo PS.

Acerca de tudo isto, Carlos César – justiça lhe seja feita – fala com grande naturalidade, porque para ele é perfeitamente “natural” que “em determinadas famílias” onde existe “vocação” política e “proximidade”, os cargos de nomeação se multipliquem, pois as pessoas têm “um empenhamento cívico similar”. A verdade é que Carlos César acredita mesmo no que está a dizer, e com ele António Costa. Neste ponto, não vale a pena sermos cínicos: este governo está cheio de familiares porque os socialistas não vêem mal nenhum nisso. Mais: tendo em conta o resultado lastimável da única vez que o PS foi parar às mãos de um militante sem pedigree, talvez Costa se tenha convencido que mais vale as velhas famílias republicanas de Lisboa e dos Açores do que os jovens turcos das Beiras e de Trás-os-Montes. 

Não sou eu que o irei desmentir quanto a isso – mas é manifestamente curto como ambição política e muito paradoxal num partido que enche a boca com a palavra “socialismo”. É que não há aqui qualquer socialismo. O que há, pelo contrário, é uma visão profundamente aristocrática da sociedade. O PS não recebeu bula papal, mas está convencido que recebeu uma bula democrática para pastorear o país. Enquanto tentam impor o PS como partido-charneira do regime, Costa, César e companhia estão a promover uma cultura de castas debaixo do nosso nariz, e perante a passividade geral.