“O assunto é sério, precisaremos de ajuda até Março de 2020”, dizem em Búzi

O PÚBLICO esteve na vila de Búzi, em Moçambique, uma das zonas mais afectadas pelo ciclone Idai, onde 16 mil pessoas continuam isoladas a depender do que lhes chegam rio acima.

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À chegada Daniel Rocha/PÚBLICO
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Por todo o lado se vêem os sinais das vagas de lama Daniel Rocha/PÚBLICO
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Todas as 16 mil pessoas de 4090 famílias foram atingidas Daniel Rocha/PÚBLICO
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“A água está a baixar, mas ainda estamos isolados", dizem num local mais isolado Daniel Rocha/PÚBLICO

No dia do ciclone Idai, Luísa Américo Jovo assistiu a um parto no Hospital de Búzi. E esse nem sequer foi o momento mais marcante dos últimos tempos. Quando veio a enchente, foram duas as mulheres que entraram em trabalho de parto e lá fora, entre a sala de partos e o local onde armazenavam os remédios, havia um rio correntoso que lhe chegava bem alto no peito.

“Tinha de ter coragem e consegui”, afirmou Luísa Jovo, que exerce a enfermagem na maternidade há quase 33 anos. E conseguiu também por sorte. “Graças a um moço que me chegou uma mão, porque viu que eu estava a ser arrastada pela corrente”, conta.

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O aspecto desolado do Hospital de Búzi é uma continuação do estado de uma vila invadida pelas águas e deixada isolada do mundo exterior. As marcas da lama estão por todos os lados – visíveis nas paredes, nos caminhos lamacentos, nas pessoas que dormem debaixo dos alpendres dos edifícios, nos colchões e roupas estendidas ao sol. Tal como o arroz, precisam de secar.

Búzi continua isolada pelas cheias, mas a ajuda alimentar, pelo menos, já chega, depois de a vila ter passado três dias sem comida e sem água potável. O PÚBLICO só conseguiu alcançar a vila com ajuda dos fuzileiros portugueses que foram entregar medicamentos e água potável rio acima, desde a cidade da Beira.

Na avenida que vai dar à doca, o comércio já retomou a actividade, mesmo com a lama negra como pano de fundo. Já se vendem até pequenos peixinhos fritos estendidos num pano. Filipe Joaquim lê a Bíblia “para acalmar o coração” junto à Banca Jesus Salva.

Joaquim João Navana passeia o seu corpo enfezado pelas ruas com uma coroa de cartão na cabeça e um calção nitidamente maior que ele como única vestimenta. Tem 11 anos, mas não parece. Além da timidez, não percebe português, daí que a comunicação com tal monarca se mostre impossível.

Toda a vila sede do distrito foi afectada pelas inundações. Sem excepção, todas as 16 mil pessoas de 4090 famílias foram atingidas. No distrito inteiro, onde vivem 177 mil pessoas, só escapou com estragos menores Chissinguana. “Quase a totalidade das pessoas ficaram afectados com o ciclone. Com as inundações foi a sede de distrito, Inharongué, Grudja, Estaquinha, Bandua e Guaguara”, disse ao PÚBLICO o director de Agricultura de Búzi, Miguel Rabeca.

“O nosso objectivo é reerguer as famílias”, refere Rabeca. Os responsáveis do distrito querem agora, assim que as águas baixarem, começar o cultivo de segunda época – milhos, leguminosas e hortícolas que possam minimizar em parte a ausência completa de alimento.

Uma semana sem comida

“O assunto é sério. Nós vamos precisar de ajuda até à próxima campanha de 2019/2020. Só em Março de 2020 podemos sentir-nos sustentáveis. A segunda época não vai cobrir muito as necessidades do distrito. Para ter uma ideia, em anos normais, a segunda época era só em 10% das terras aráveis”, explicou Rabeca.

Alguns quilómetros rio Búzi abaixo, num braço escondido do rio, as correntes fortes de um afluente cheio deixam descobrir toda uma comunidade isolada que, desde as inundações, se mantém nesta língua de terra sem comida, nem água potável.

Em Muxenessa, onde os fuzileiros deixaram comida e água, uma centena de pessoas passou uma semana sem comida, nem água potável, à espera de ajuda que tarda em chegar. Ao pé de um açude para alimentar o gado, agora aberto para passar uma água revolta que provoca um forte remoinho de líquido barrento, Manasser Arveneco, de 20 anos, ajuda a descarregar algum do auxílio que precisavam. “A água está a baixar, mas ainda estamos isolados,” diz num clima de entusiasmo entre aquelas pessoas que se julgaram abandonadas durante tanto tempo.