Trás-os-Montes à espera que as carências se transformem em oportunidades

Cerca de 400 empresários transmontanos reuniram-se ontem em Vila Real numa sessão do ciclo “Encontros Fora da Caixa”, promovida pela CGD em parceria com o PÚBLICO. Sem esquecer os problemas, a região mostra um discurso de confiança impossível há duas décadas.

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Perto de 400 empresários participaram no encontro, uma iniciativa da CGD com o apoio do PÚBLICO Adriano Miranda

Perguntar ao empresário Horácio Negrão se a região de Trás-os-Montes e Alto Douro tem potencial desata uma resposta rápida e fácil: “É a região do país com mais potencial”, afirma sem hesitar. Porquê? “Porque está tudo por fazer.” À primeira vista, tanta facilidade pode traduzir uma visão pessimista sobre o atraso de Trás-os-Montes e do Douro, mas não é essa percepção que motiva a expectativa do empresário que participou nesta terça-feira, em Vila Real, na 26.ª sessão dos “Encontros Fora da Caixa”, organizados pela Caixa Geral de Depósitos numa parceria com o PÚBLICO. O “estar tudo por fazer” responde antes a tendências de procura de produtos de qualidade, de vinhos de qualidade, de mão-de-obra especializada para indústrias do futuro, como a da informação, ou para o turismo, sector no qual, e ainda de acordo com o dono da Vilas Alto do Lago, a região acusa uma carência de pelo menos oito hotéis de quatro estrelas.

Auscultar os empresários transmontanos ou os que, como o algarvio Horácio Negrão, escolheram a região para investir está muito longe de dar origem a uma história cor-de-rosa. Os indicadores demográficos são negros e dão origem a dificuldades na contratação de mão-de-obra, como notaram Paul Symington, chairman de um dos principais grupos do sector do vinho do Porto, João Daniel Carvalho, da Carvalho e Maia, uma empresa da metalomecânica, ou Francisco Mourão Vieira, da cooperativa de olivicultores de Valpaços. Nos dois painéis que reuniram especialistas como Daniel Bessa, conhecedores da região como o embaixador Francisco Seixas da Costa ou dirigentes empresariais como Luís Miguel Ribeiro, esses problemas não deixaram de ser abundantemente referidos. Mas, sinal da mudança dos tempos, a procura de respostas para os problemas deixou de ter o Estado ou os subsídios como destinatários.

Quando a crise financeira chegou ao sector da construção civil, a empresa de João Daniel Carvalho teve de optar entre despedir trabalhadores e reduzir a produção ou procurar novos negócios fora de Portugal. Escolheu a segunda opção e hoje coloca no estrangeiro cerca de um terço do que produz. Quando o vinho do Porto começou a seguir o destino dos vinhos fortificados (mais alcoólicos) no mundo, empresários como Paul Symington ajustaram as suas estratégias e abriram portas aos vinhos do Douro e, ainda mais recentemente, ao turismo. Hoje, diz Paul Symington, “os jovens que são da região e falam uma língua estrangeira encontram com facilidade emprego no Douro”, diz. Da mesma forma, jovens engenheiros ou programadores deixaram de ter a migração para o Porto ou a emigração para o estrangeiro como destino obrigatório: em Vila Real está a nascer um pólo da Critical Software que augura uma nova possibilidade para Trás-os-Montes.

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A conferência decorreu numa tenda montada na Praça do Município de Vila Real

Saber se a informática ou a cibersegurança, que habitualmente se associam às grandes cidades, são uma expectativa real para o desenvolvimento da região é crucial. A universidade da região, a UTAD, está a ajustar a sua oferta de cursos à nova procura, sem deixar de se centrar na formação de enólogos e de viticultores com competências que levam Paul Symington a acreditar que, um dia, pode fazer parte das quatro mais relevantes universidades de enologia do mundo. Daniel Bessa nota que esse futuro vai implicar mudanças no perfil urbano da região. Francisco Seixas da Costa não vê alternativa: regiões como a de Trás-os-Montes “ou se qualificam em áreas tecnológicas avançadas ou desaparecem”.

Resistir e diversificar

Resistir e crescer através da diversificação parece ser o destino mais ambicionado. Mas essa atitude implica uma dura competição com as restantes regiões do país e até do estrangeiro. Luís Miguel Ribeiro, director do Instituto Empresarial do Tâmega, lembra que neste novo quadro “a dicotomia litoral/interior é redutora”. Porque a procura de talento e de trabalhadores qualificados é “transversal ao país”. Vai ganhar quem for capaz de “criar condições para fixar pessoas”. À primeira vista, cidades médias como Vila Real ou Chaves ou vilas com razoável qualidade de vida urbana como Vila Pouca de Aguiar ou Murça poderiam competir com a saturação das grandes cidades, onde o custo de vida é mais alto e as condições de vida mais exigentes. Não é isso que acontece na realidade.

Em primeiro lugar porque, lembra Francisco Mourão Vieira, uma cooperativa que no ano passado ganhou 44 prémios internacionais pela qualidade do seu azeite “teria de pagar mais do que no litoral se quisesse contratar um bom vendedor ou um técnico de marketing”. João Daniel Carvalho concorda. Anda há semanas a publicar anúncios na Voz de Trás-os-Montes para contratar um soldador e até hoje apenas obteve uma resposta. O Douro (ou o Alentejo, ou a serra da Estrela) são marcas associadas a valores de sustentabilidade ambiental ou de produção de qualidade, como lembrou Daniel Bessa, mas continuam sem ser capazes de atrair gente de fora. Sem gente, tudo fica mais difícil.

Até para as produções tradicionais. Não se pode dizer que hoje em dia o vinho do Douro e do Porto não vivam um momento fulgurante, merecedor de destaque na imprensa internacional e capaz de alimentar uma vaga de crescimento sustentado das exportações. Mas, neste sector, e apesar de haver constrangimentos como o que resulta do facto de “a região continuar a ser regida por leis de 1933”, como criticou Paul Symington, há empresas e saber fazer. No azeite, nos frutos secos, nos enchidos ou nos queijos continua a faltar capacidade comercial, como Daniel Bessa anda a notar desde que em 2003 fez um estudo sobre as áreas deprimidas de Portugal.

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Segundo Paulo Macedo, a Caixa atribuiu créditos de 513 milhões de euros no último ano na região

Sair da “irrelevância"

Mexe-se essa realidade com apoios públicos? Ninguém nega que uma discriminação fiscal positiva para as empresas ou reduções no IRS para os moradores poderia ajudar. De resto, Francisco Cary, administrador da Caixa Geral de Depósitos, nota que ajudas ao investimento a fundo perdido dinamizam a procura dos empresários. Falta, na opinião de Francisco Seixas da Costa, “uma política voluntarista para o interior”, o que o leva a mover-se hoje em dia para o campo dos que defendem a regionalização política e administrativa do país. Definir essa “política voluntarista” promete mais polémica. “O Estado deve ficar fora dos negócios”, diz Paul Symington. Tanto que Horácio Negrão nem sequer quer ouvir falar de “secretários de Estado” – embora seja defensor de políticas fiscais mais amigáveis para o interior.

Ficando como está, Trás-os-Montes compara bem com as restantes regiões do país em termos de investimento e de dinâmica empresarial, nota Francisco Cary. Se nos últimos 12 meses em Portugal se abriram 2,5 empresas por cada uma que encerrou, esse valor está acima de três na região transmontana. No discurso de encerramento desta sessão dos “Encontros Fora da Caixa”, Paulo Macedo, presidente da Comissão Executiva da CGD, revelou números que servem para confirmar o que poderá ser a reversão de uma tendência: a Caixa atribuiu créditos de 513 milhões de euros e as suas dependências acolhem 1680 milhões de euros em depósitos.

Para sair da “irrelevância” que, lembrou o também administrador da Caixa, José João Guilherme, é um dos principais “desafios das comunidades locais”, Trás-os-Montes e o Alto Douro vão ter de vencer os seus problemas e a dura competição do exterior em relação ao recurso mais precioso da economia actual: os recursos humanos. Se nada mudar, o desafio será duro de vencer. A menos que os empresários locais e de fora ouçam o apelo do presidente da Câmara de Vila Real, Rui Santos, que, dirigindo-se aos cerca de 400 participantes no “Fora da Caixa”, lembrou: “É preciso ver além do óbvio, ver nas carências oportunidades.”