De Castle a Absentia: “É chocante dizer que é incomum ter uma mulher neste tipo de papel”

A actriz Stana Katic esteve em Lisboa para falar da estreia da 2.ª temporada de Absentia no AXN. Passou parte da carreira entre crimes e thrillers e agora também é produtora executiva — para evitar "um ponto de vista objectificador".

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Tem o seu próprio exército informal de fãs e um nome menos conhecido do que o seu rosto inconfundível para quem durante anos seguiu a série Castle – a actriz Stana Katic passou a carreira entre espiões e forças de segurança e agora está em digressão para lembrar que a segunda temporada de Absentia está aí. Num mundo cheio de séries, protagoniza uma história de crime num thriller que ajuda a escrever e a moldar. “Há actores que são exclusivamente actores. A sua zona de conforto é à frente das câmaras. E há alguns actores que são, na verdade, contadores de histórias”, diz ao PÚBLICO em Lisboa.

Horas antes de se encontrar com alguns membros do seu grupo de fãs, que a certa altura se auto-intitularam como “Stanatics”, Katic está numa sala sem janelas de um hotel de luxo lisboeta. Longe vão os anos em que era a detective que fazia par com Nathan Fillion em Castle e que foi dispensada da série pouco antes de esta ser cancelada. Era uma comédia criminal, no extremo oposto da experiência de Absentia, um thriller psicológico que a actriz quer inscrever na genealogia dos anti-heróis de há uma década televisiva, de Tony Soprano a Walter White. Ainda sem a ressonância de prestígio de Os Sopranos ou Breaking Bad, essas séries surgem à mesma na conversa sobre Absentia.

“A história de Absentia sempre me pareceu uma novela gráfica”, reflecte. A sua personagem, a agente do FBI desaparecida durante seis anos enquanto perseguia um assassino em série. Declarada morta in absentia, ou seja na ausência de corpo, Emily Byrne reaparece depois de ter sido torturada e mudado para sempre. “Ela tem uma qualidade de anti-heroína, uma espécie de ‘dark knight’”, diz, fazendo as suas próprias aspas evocativas da novela gráfica de Frank Miller sobre Batman, “mas a sua tenacidade e perseverança é heróica. Nem sempre cai do lado certo do nosso suposto código moral, mas isso também é interessante porque Tony Soprano também não o fazia”, ri-se.

Mais à frente, outro super-herói cruza-se com outro anti-herói da televisão. Por que é que gostamos tanto de histórias de crime, de thrillers e séries como as que fez em Heroes, no filme 007 Quantum of Solace ou em 24, que os canais não param de produzir e os espectadores de ver? “Já amadurecemos como público e já não estamos no espaço em que esperamos e aceitamos o Super-Homem. O Super-Homem é correcto. É bom. O seu código moral é inquestionável. [Mas] o público mudou, desde a era Nixon nos EUA, dos anos do Vietname, na forma como reconhecemos que o mundo lá fora, e cá dentro, tem luz e sombra. É interessante ver pessoas como em Breaking Baduma pessoa que desenterrou o seu lado negro. As pessoas agora conseguem identificar-se com isso.”

Ao longo da curta conversa, Stana Katic repete a distinção: a sua personagem, a protagonista, é “um ser humano que por acaso é uma mulher”. Mas ao sentar-se à mesa dos argumentistas, depois de anos em que diz que sempre se aproximou de realizadores e guionistas para ver o seu trabalho e colaborar activamente no processo de filmagem e desenvolvimento de histórias, dá um passo específico para as mulheres. “Sempre fui mais uma contadora de histórias do que só uma actriz”, refere, e em Absentia ocupou desde logo o cargo de produtora executiva, que lhe dá uma palavra na história como um todo. Uma história centrada numa agente do FBI que foi vítima e que o trauma tornou também agressora, que luta para ter uma relação com o filho, que não é uma narradora 100% fiável.

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“E além disso, esta é uma história com uma protagonista feminina. Para mim é mais interessante dizer ‘um ser humano’. Contudo, tenho noção de que algumas destas histórias ainda são incomuns. É chocante dizer que é incomum ter uma personagem feminina neste tipo de papel, que ainda é [algo] fresco e novo para os contadores de histórias no cinema e na televisão”, constata. “Algumas vezes não nos apercebemos que enquanto contadores de histórias estamos a afastar a câmara e a criar um olhar que não é verdadeiro sobre a experiência de um ser humano real, que por acaso é uma mulher. Um ponto de vista objectificador. Como a pessoa que está a representar esta personagem posso dar esse ponto de vista, de dentro, e garantir que a mantemos o mais real e empática possível.”

Stana Katic sabe bem o que quer dizer e o que não quer mencionar – como Castle, a série que lhe deu a fama que tem mas de onde saiu da pior forma, ou a vontade de associar Absentia ao que de melhor a televisão americana fez nos últimos 20 anos. A experiência do que é ser fã é outro garante da televisão, actual ou passada, mas agora com novas formas de expressão. A referência aos “Stanatics”, que se vão manifestando em hashtags e em páginas de fãs do Facebook, não a faz perder o fio à meada. “Quando comecei, ficava confusa com o conceito de alguém ser fã. Não fazia sentido, sou muito normal e muito enfadonha”, comenta.

“Li um livro de Sophia Loren e ela falava do seu público, de como o respeitava e estava grata por ele – grata por estarem interessados no que tinha feito e no que iria fazer. No fim de contas, que honra é entreter pessoas e, talvez, espero, dar-lhes um momento de alívio das suas vidas e em que se possam encontrar numa personagem. E, rezo, [dar-nos] um momento de transcendência em que possamos fazer escolhas melhores no futuro. Fazer histórias que reverberam na nossa mente é um privilégio. Não há como não estar grata.” Ao final do dia, terminou a estadia no Auditório da Fundação Champalimaud com os espectadores de Absentia, um dos títulos mais celebrados do canal AXN - o segundo mais visto, no campo das séries, em Portugal.