A arte de manipular professores

Em Nunca para Pior, a escritora dá a conhecer o ambiente de uma escola, num retrato vivo e certeiro dos alunos, dos professores e das relações entre ambos. Preconceitos, equívocos e manipulação andam por ali. Mistério e um gato também.

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Shane Rounce/Unsplash

Um novo aluno chega à escola depois das férias de Natal e é integrado numa turma que a maior parte dos professores acha sem graça: o 8.ºB. O de Ciências disse mesmo que aquele grupo estava a precisar “de um abanão, de uma sacudidela”. Mal poderia adivinhar que acabaria por fazer jus à frase “cuidado com o que desejas”.

Lúcio Ferro é o nome do novo rapaz. Nome não inocente, a lembrar Lúcifer, designação que usa no seu email, seguido de “inferno na terra” ([email protected]). Há uma aura de mistério em torno de Lúcio, que nos reenvia subtilmente para o universo de lobisomens, hoje tão apreciado pelos jovens.

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Começa por ser simpático com os colegas, conquistando-os de imediato, mas, a pouco e pouco, vai-se revelando como alguém de muito mau carácter. Insultos, bullying e manipulação fazem parte do seu comportamento pernicioso. Até na forma como trata o gato Gervásio, que foi adoptado por todos lá na escola.

Os professores, cegos pela cordialidade e conhecimentos de Lúcio, deixam-se levar… sendo igualmente manipulados. É assim que embarcam na ideia de deixar os alunos realizarem um espectáculo no Carnaval. Um desastre.

Ana Saldanha consegue mais uma vez recriar diálogos e situações verosímeis no universo da adolescência e juventude, mas sem perder o sentido literário do texto. Não se inibe de recorrer ao passado para munir os jovens leitores de referências culturais nacionais e do resto do mundo.

Tanto pode ser uma tia-avó (da Ana Margarida) que tem sempre um provérbio à mão para qualquer circunstância, “quem espera sempre alcança, quem porfia sempre se avia”; como uma professora a fazer lembrar uma actriz, “em nova achavam-na igualzinha à Vivian Leigh em E Tudo o Vento Levou, um filme dos anos trinta que, três décadas mais tarde, continuava a ser um grande sucesso todos os anos no cinema de Coimbra”.

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Fica-se ainda a saber que “morcão” (também) “é uma lagarta ou uma larva de insectos”.

A reunião de professores para avaliação tem tanto de divertida como de desconcertante, não só pela forma como os docentes se referem aos alunos, mas também pelo modo como se tratam e competem entre si. 

Ana Saldanha sabe do que fala, foi professora do ensino secundário, leccionou no Instituto Politécnico do Porto e foi leitora de Português em Inglaterra na Universidade de Birmingham e na Universidade de Glasgow (onde se doutorou). Nasceu no Porto, licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês), obteve mestrado em Literatura Inglesa pela Universidade de Birmingham e doutorou-se com uma tese sobre Rudyard Kipling e a sua obra infantil.

A frase escolhida para título, “nunca para pior”, há-de surgir no início e no desfecho da história, cruzando gerações e desejos. Variação possível e igualmente válida: “Para pior já basta assim.”

Título: Nunca para Pior
Autor: Ana Saldanha
Editor: Caminho
232 págs., 9,90€

‘Tás a ler? é uma rubrica (quase sempre) sobre livros para adolescentes e jovens adultos. Daremos preferência a autores portugueses. Porque sim.