Identificado marcador genético de prognóstico de cancro de pele

Estudo inédito associa mutações numa enzima a um mau prognóstico no carcinoma espinocelular, o segundo cancro de pele mais comum. O trabalho pode levar aos primeiros marcadores genéticos de prognóstico destes tumores.

Imagem de um carcinoma espinocelular invasor
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Imagem de um carcinoma espinocelular invasor DR

Uma equipa de investigadores portugueses publicou um estudo que demonstra, pela primeira vez, que as mutações de uma enzima estão associadas a um mau prognóstico no carcinoma espinocelular, o segundo cancro de pele mais comum. Depois da análise de 152 lesões de 122 doentes (a maior colecção de tumores deste tipo), os investigadores concluíram que os cancros com esta mutação têm um risco oito vezes superior de recidiva e 16 vezes superior de metástase ganglionar. O artigo, publicado na revista científica Journal of the American Academy of Dermatology, apresenta os primeiros marcadores genéticos para determinar a agressividade destes carcinomas e representam um importante trunfo no que se refere ao seu tratamento.

O carcinoma espinocelular não é o mais comum nem o mais agressivo dos cancros de pele. O mais comum é o basocelular e mais agressivo é o melanoma. Ainda assim, trata-se de um tumor bastante frequente nas pessoas acima dos 65 anos - já que é o resultado dos danos provocados por uma exposição solar cumulativa. Por outro lado, este tumor também está associado a uma grande mortalidade em caso de recidiva (reaparecimento do tumor após tratamento) ou metástases. Até agora, não havia nada que permitisse prever a agressividade do tumor. O dermatologista Manuel António Campos coordenou o trabalho orientado pelo investigadores Paula Soares e José Manuel Lopes, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), na Universidade do Porto, que pela primeira vez estabelece uma relação entre uma mutação genética e o prognóstico da doença.

O projecto, explicou Manuel António Campos ao PÚBLICO, abrange 122 doentes seguidos no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho que, ao longo de cinco anos, receberam um diagnóstico de carcinoma espinocelular. Os tumores foram removidos e as 152 lesões (os doentes podem ter mais do que uma lesão) foram alvo de uma análise minuciosa. “Apesar de já terem o diagnóstico de carcinoma espinocelular os blocos histológicos foram todos revistos. Tentámos ir além do que se faz na pratica clínica e descrever tudo do tumor, com todas as características”, explica.

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Investigador e dermatologista, Manuel António Campos DR

Entre outro tipo de análises, os cientistas extraíram ADN das amostras dos tumores que foram depois sequenciados para determinar a presença de uma mutação específica. Manuel António Campos já sabia o que procurar: uma mutação numa enzima (a telomerase) ligada ao envelhecimento e que já tinha sido identificada noutros tumores, apresentando-se como um marcador de mau prognóstico em vários cancros. Agora, era a vez de esclarecer se a mutação no promotor do gene da telomerase tinha algum papel no carcinoma espinocelular. “Vimos quais os tumores com a mutação e tentámos correlacionar essa circunstância com factores clínicos, histológicos e de prognóstico”, conta, acrescentando que foram pesquisadas “todas mutações clássicas já descritas noutros tumores”.

As análises foram feitas no tumor primário e os dados foram relacionados, mais tarde, com os casos que tinham recidivado e com os que tinham metastizado. “Doze em 17 dos casos com esta mutação recidivaram e todos os que tinham metastizado tinham esta mutação”, resume Manuel António Campos. O estudo, revela ainda num comunicado do I3S, “demonstrou que as mutações do promotor da telomerase estavam presentes em 31,6% dos casos, sendo a taxa de mutação superior em carcinomas invasores (34,7%) do que em carcinomas in situ (19,4%), e que os tumores que sofreram recidiva (76,5%) e/ou metástases (87,5%) eram mais frequentemente mutados”.

O trabalho confirmou uma suspeita provável, mas isso não trava o entusiasmo com a descoberta que foi tema do editorial da revista Journal of the American Academy of Dermatology. “A riqueza deste estudo não é só a parte genética. Este é o maior estudo realizado sobre o espinocelular, o segundo maior tem apenas 30 pacientes”, diz o investigador. Sim, é verdade que a mutação já tinha sido identificada e associada, noutros tumores, a um mau prognóstico. Por outro lado, também já tinham sido publicados estudos que confirmavam que a mutação estava presente nos carcinomas espinocelulares. Mas faltava ligar uma coisa à outra. “Mutações há muitas, mas será que essa mutação tem alguma coisa a ver com o facto de o doente ter mais complicações, recidiva, morte? Aí é que está a beleza desta descoberta. Estabelecemos, pela primeira vez, o peso dessa mutação no prognóstico”, diz Manuel António Campos.

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Imagem em dermatoscopia de um carcinoma espinocelular DR

A partir de agora e tal como aconteceu noutros modelos (por exemplo, melanoma, carcinomas da tiróide ou tumores do sistema nervoso central), “as mutações do promotor da telomerase poderão tornar-se no primeiro marcador genético de prognóstico e serem incluídas em guidelines internacionais para tratamento destes carcinomas”. Sobre o acesso dos doentes a esta informação sobre o tumor, o investigador refere que o resultado pode ser obtido com o método clássico de extracção do ADN, que demora alguns dias. Há também no I3S um teste (que está patenteado) que permite obter esse resultado em poucas horas. 

No caso do melanoma já foi feita antes uma associação entre a mesma enzima e um mau prognóstico, mas, apesar de serem dois tipos de tumores da pele, este cancro (que é em células diferentes) tem um comportamento diferente. Aliás, lembra o dermatologista, a linha de investigação dedicada ao papel da telomerase no cancro começou precisamente no melanoma. No caso do carcinoma basocelular, o cancro de pele mais frequente, esta relação ainda não foi provada. 

A equipa de investigadores vai continuar a dissecar a preciosa colecção de amostras de carcinomas espinocelulares. O objectivo é “caracterizar os genes que parecem ter um papel mais relevante nas diferentes fases do tumor”, desde a comum lesão pré-maligna da queratose actínica ("umas casquinhas escamativas e ásperas que aparecem nas zonas mais expostas ao sol das pessoas mais idosas") até à expressão mais agressiva e por vezes fatal deste tipo de cancro de pele. “A mesma colecção - que acaba por ser a maior neste tipo de tumor e que está muito bem caracterizada - está a servir para determinar a presença de outras mutações noutros genes (como, por exemplo, o P53 e o RAS, dois genes associados ao cancro) e para esclarecer a relação deste carcinoma com vírus, como o papiloma vírus humano”, adianta Manuel António Campos. “É um outro mundo.”