Opinião

A carta de Macron aos europeus

A carta aberta do Presidente Macron é um artigo de opinião importante em si mesmo, no propósito e na oportunidade, mas será também um nado-morto a muito curto prazo e logo que a saída do Reino Unido acelerar nos próximos dias.

O Presidente da República francesa dirigiu-se aos europeus num artigo publicado em vários jornais. Em Portugal o artigo foi um exclusivo do Diário de Notícias. Quanto à carta, podemos desde já adiantar que o autor foi fiel a si próprio. Uma retórica grandiloquente sobre a Europa e o Mundo, redigida ao estilo império, num momento em que a vida francesa ao quotidiano padece de uma profunda fadiga política e institucional, só pode acrescentar ainda mais embaraço ao profundo embaraço em que se encontra a política francesa e europeia.

Vejamos os principais aspetos desta carta, no preciso momento em que este apelo do Presidente francês ao renascimento da Europa não chega sequer a dividir o espaço público com os protestos de rua dos coletes amarelos.

  1. O propósito

O propósito da carta é muito louvável e a oportunidade não poderia ser melhor. Estamos a duas semanas do dia 29 de março (o “Brexit") e a dez semanas do dia 26 de maio (as eleições europeias). Usemos as próprias palavras da carta aos europeus:

  • Em nome da história e dos valores, da paz e reconciliação europeias
  • Em resposta ao apelo da urgência, as próximas eleições europeias
  • Contra o perigo da divisão interna e o “Brexit"
  • Contra a armadilha da resignação
  • Contra a armadilha nacionalista e suas manipulações
  • Pelo renascimento europeu, em nome da liberdade, a proteção e o progresso
  1. As ideias-força da carta

As ideias-força da carta estão distribuídas por três grandes áreas, a saber, defender a liberdade humana, proteger a Europa e resgatar o espírito de progresso. Usemos, mais uma vez, as palavras da carta no que diz respeito às propostas apresentadas em cada uma das áreas:

  • Uma Agência Europeia de Proteção das Democracias
  • Uma Polícia de Fronteira Comum
  • Um Serviço Europeu de Asilo
  • Um Conselho Europeu de Segurança Interna
  • Um Conselho Europeu de Segurança
  • Uma Preferência Europeia em matéria de concorrência
  • Um Salário Mínimo Europeu
  • Um Banco Europeu do Clima
  • Uma Força Sanitária Europeia
  • Uma Supervisão Europeia das Grandes Plataformas
  1. O renascimento europeu e a política ao quotidiano

A carta do Presidente Macron termina assim: Cidadãos da Europa, o impasse do ‘Brexit' é uma lição para todos. Devemos sair dessa armadilha e dar um sentido às eleições europeias e ao nosso projeto. Cabe-vos, a vós, decidir se a Europa e os seus valores de progresso devem ser mais do que um parêntese na história. Eis a escolha que vos proponho para traçarmos juntos o caminho rumo a um renascimento europeu.

Embora concordemos com o conteúdo, este é o tipo de proclamação política que não colhe junto de uma população que sofre de uma profunda desafeição político-emocional acerca dos assuntos europeus. Vejamos, então, alguns aspetos mais críticos da carta.

Em primeiro lugar, e como já dissemos, em Macron o estilo é o embaraço, pelo menos na atual conjuntura. Ao abrir tantas frentes de ataque ao problema europeu sem ter fechado as principais questões pendentes, a ideia europeia torna-se ainda mais difusa e a sua liderança política mais fragilizada.

Em segundo lugar, e apesar de ser uma carta aberta em véspera de eleições, não há sinal de qualquer consenso prévio ou coligação maioritária no plano europeu para esta nova agenda reformista.

Em terceiro lugar, não há qualquer sinal de que o diretório franco-alemão saia reforçado por esta proposta, ao contrário, a transição político-partidária na Alemanha não consente grandes floreados em direção a uma nova agenda de reformas.

Em quarto lugar, não há nenhuma referência aos recursos financeiros próprios para tão grande propósito, sendo certo que uma alusão ao reforço da fiscalidade europeia nesta altura teria repercussões eleitorais contraproducentes.

Em quinto lugar, e quanto ao processo e procedimento políticos, não creio que uma conferência europeia, uns painéis de peritos e um roteiro para a União Europeia até ao final do ano seja um guião convincente.

Em sexto lugar, e no plano interno, não creio que a política doméstica francesa tenha beneficiado, de qualquer maneira, desta proposta política de Macron.

Finalmente, e quanto às eleições europeias propriamente ditas, não há qualquer certeza de que esta proposta de Macron contribua para diminuir a taxa de abstenção em matéria de participação política dos cidadãos europeus ou, mesmo, para reverter a vaga nacionalista que hoje é uma imagem de marca da política europeia. Aliás, o centralismo federativo implícito nestas propostas será explorado para benefício próprio das correntes mais nacionalistas.

Nota Final

A carta aberta do Presidente Macron é um artigo de opinião importante em si mesmo, no propósito e na oportunidade, mas será também um nado-morto a muito curto prazo e logo que a saída do Reino Unido acelerar nos próximos dias. Ao fazer um contraponto amargo com a política ao quotidiano que, essa sim, interessa hoje aos cidadãos europeus, a carta do Presidente Macron erra o alvo e pode mesmo revelar efeitos não-intencionais e não-desejados. Será, então, um ato falhado e um ato imediatamente esquecido.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico