Crónica

Do domingo à tarde ao underground: Jean-Pierre Mocky

Há este statement num filme de Jean-Pierre Mocky: “Je préfère être moi même pendant dix minutes que quelqu’un d’autre pendant une vie”. Primo da nouvelle-vague, depois cineasta de domingo à tarde, é agora um tipo do underground. Não é um herói indie?

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Cínico mas, finalmente, romântico, Jean-Pierre Mocky, realizador... aliás, tal como Vincent Cabral, o ladrão que interpreta em Solo (1970). Numa conversa com uma revolucionária que anda a dar cabo da burguesia, Vincent/Mocky atira no filme: “Tu queres salvar a sociedade, eu exploro-a. Há sempre mulheres belas e diamantes”. Mas Vincent já está, por essa altura, a querer resgatar o irmão, líder da luta armada, do comboio da violência. O thriller à americana encontra em Paris a irrisão e a imposição do contramito à la western spaghetti. O romantismo é incendiado pelos cantos dos partisans gregos recriados por Georges Moustaki. O impulso anarca arrisca o grotesco. No final Vincent dá-se mal (como Mocky no final de L’Albatros, thriller político, de 1971, com canção de Léo Ferré) e a densidade dos planos do comboio da luta armada em movimento imparável não é para brincadeiras. Solo começou a existir quando Mocky ouviu num café de Paris, “no dia 10 de Maio” de 1968, uma conversa entre dois jovens: a revolução ameaçava terminar, era preciso agir...Um sucesso comercial, o filme estrear-se-ia em Cannes 1970 numa sessão à meia noite que criou tumulto: por esses dias aprendia-se a dizer Baader-Meinhof...

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Jean Michel Frodom, no volume da Histoire du Cinéma Français dedicado à Idade Moderna, referencia Solo como “único filme de grande público directamente consagrado ao Maio de 68 e suas sequelas de que foi capaz o cinema francês mantendo-se fiel ao seu espírito” e refere-se a Mocky, e à sua conivência com o espírito de Maio e à sua energia crítica generosamente direccionada às instituições, como um dos provocadores solitários do cinema francês. Um “franco-atirador”: foi assim baptizado na retrospectiva que a Cinemateca Francesa lhe dedicou em 2014, ponto de chegada de um tipo que começara como actor (I Vinti, de Antonioni, Gli sbandati, de Franceso Maselli, como conde italiano incapaz de se libertar dos compromissos da família com o ocupante alemão, ou Senso, de Visconti...) mas que se fartara desse rosto: não tinha aquilo que, segundo ele, um actor precisa (um rasgão, uma cicatriz, uma deformidade...). Por isso decidira realizar filmes.

Quando começou começava a nouvelle vague mas Mocky era, em Les Dragueurs (1959) e Les Vièrges (1962), parente distanciado dessa vaga: aquele apego à ferocidade do material humano era mais próximo da “comédia à italiana”. Esses títulos do início — um colocou no ecrã os jogos de Mocky & amigos, que concorriam para ver quem apanhava mais raparigas nos passeios dos cafés dos Campos Elíseos (assim nasceu “engatar”); o outro filmava um argumento a partir das respostas de um inquérito sobre “como perdeu a virgindade” — são documentos preciosos sobre uma era e seus costumes: a França não respirava. Mocky far-se-ia depois realizador do centro e de vedetas (espreitem os esplêndidos filmes de domigo à tarde que são Un Drôle de Paroissien, 1963, ou La grande lessive, 1968, com Bourvil) até, com Solo, e depois de Delon, Belmondo e Trintignant terem recusado o papel, incorporar a irrisão e o júbilo da loucura das personagens. Esse comboio de uma solidão povoada vem atravessando o cinema francês há seis décadas: aos 85 anos, o homem, nascido em Nice, pai aos 13 anos, que chegou a comprar salas de cinema para exibir os seus filmes e que tanto trata por “tu” Welles como Schwarzenegger, tornou-se polemista conhecido de todos por causa da televisão mas como cineasta manobra no underground: dois ou três filmes por ano à beira da invisibilidade. Há este statement num filme dele, e ele é um herói independente: “Je préfère être moi même pendant dix minutes que quelqu’un d’autre pendant une vie”.