Opinião

Viseu, Braga e Guimarães: o mundo, aqui

No fim de contas, os jardins podem ser efémeros ou perdurarem no tempo. Depende da maneira como cuidarmos deles.

É inegável. Nos últimos anos uma série de cidades médias portuguesas foi inscrevendo o seu nome no panorama dos acontecimentos artísticos e culturais mais relevantes do país. Às vezes por existir uma política cultural local sustentada. Outras vezes por acontecimentos isolados. E também por haver pessoas que programam com qualidade como Sandra Oliveira, dos Jardins Efémeros de Viseu, Luís Fernandes, do espaço GNRation de Braga e do festival Semibreve da mesma cidade, Rui Torrinha, do Centro Cultural Vila Flor de Guimarães e do Westway Lab, Jesse James e Sofia Carolina Botelho, do Walk&Talk de Ponta Delgada, ou António Pedro Lopes e Luís Banrezes, do festival Tremor, na mesma ilha de São Miguel, nos Açores.

Outros exemplos, cidades e programadores haverá, decerto. Mas estes são relevantes, até em comparação com o que se passa em Lisboa e Porto, pela abertura. Sempre me causou perplexidade que gente das artes contemporâneas que faz questão de dizer que nunca vai a concertos de música. Gente da música que faz questão de dizer que nunca vai ao teatro ou dança. Ou do cinema que diz que tem mais do que fazer do que ler poesia. Gente que se deveria guiar pela curiosidade, mas encerrada no seu casulo. Nestas pessoas que nomeei não reconheço isso. Existe não só um entendimento profundo das mais diversas realidades artísticas, como um conhecimento e uma inteligência afectiva, de fazer participar nelas as mais distintas pessoas, do habitante local ao visitante mais cosmopolita.

Fazem-no sem prescindirem do desafio, do rigor e exigência. Numa altura em que tanto se fala de turismo cultural, a eles se deve a descoberta para tantos de nós das cidades onde operam. Os centros históricos, os monumentos ou edifícios abandonados que por uns dias se abrem à arte, as pessoas ou a comida local, são-nos devolvidos pelo meio da partilha de projectos e práticas artísticas ousadas ou inesperadas, por artistas nacionais e internacionais. É como se as cidades se transformassem numa sala de espectáculos com concertos, filmes, performances ou intervenções artísticas, numa lógica participativa, onde existe lugar para todos.

Tudo isto a propósito do cancelamento da 9.ª edição do festival multidisciplinar Jardins Efémeros de Viseu, como foi noticiado na última quinta-feira, por “falta de financiamento suficiente”. Sempre o dinheiro. É imprescindível. Mas muitas vezes o que se deveria discutir são as opções. Curiosamente nesse dia celebrava-se o Dia Mundial da Poesia, essa forma de arte que não contribui certamente grande coisa para o PIB e, no entanto, tantas vidas tem enriquecido. Tudo isto, numa cidade, Viseu, que há anos, depois de um inquérito da DECO, segurava com orgulho a bandeira da cidade portuguesa com melhor qualidade de vida, por causa da gestão municipal, do planeamento ou das infra-estruturas rodoviárias.

Tudo coisas boas. Mas é preciso mais. Em todas essas cidades haverá acontecimentos que congregam mais pessoas. Todos os formatos são válidos. Mas poucos conseguirão apresentar uma programação tão inovadora, incentivando o espírito crítico, reflectindo realidades globais e impulsionando a transformação local, não existindo numa redoma, com um impacto que se mede para além dos dias em que acontecem, naquilo que fica da filosofia, do conhecimento que veiculam e da criatividade que favorecem. No fim de contas, os jardins podem ser efémeros ou perdurarem no tempo. Depende da maneira como cuidarmos deles.