Ainda há 12 portugueses na Beira que o consulado não consegue contactar

Seis emigrantes que este domingo foram repatriados a seu pedido falam de uma noite de pânico em que os tectos levantavam voo.

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O Governo português recebeu o pedido de localização de 93 cidadãos portugueses em Moçambique depois do ciclone Idai, que causou a morte a pelo menos 447 pessoas na região centro do país, de acordo com os dados actualizados este domingo, mas até agora só conseguiu falar com 81 pessoas dessa lista. De acordo com a informação avançada ao PÚBLICO pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, “faltou contactar até este momento 12 cidadãos”.

O “esforço diário de contactar porta-a-porta continua”, “muitos dos cidadãos foram viver para casa de familiares ou de amigos porque ficaram com as casas danificadas” e isso dificulta o esforço de localização. Mesmo assim, José Luís Carneiro prefere usar o termo “incontactados”, para que não haja “a ideia de que estão desaparecidos”.

Questionado sobre se se confirma que não há portugueses entre os mortos, nem entre os resgatados nas operações de busca e salvamento, o secretário de Estado refere que a última informação do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades moçambicano diz que não há estrangeiros entre os resgatados, nem na lista dos mortos. “Mas, como é evidente, as operações estão em curso”.

A noite de 14 de Março e, sobretudo, a madrugada do dia 15 deixaram marcas de medo entre a comunidade portuguesa. Mas foram poucos os que aceitaram a oferta de repatriamento sem custos oferecida pelo Executivo português. Dos 5591 inscritos no consulado da Beira, que cobre um território vasto do tamanho da Península Ibérica, apenas seis aceitaram ser repatriados.

Saíram neste domingo do aeroporto da capital da província de Sofala em direcção a Lisboa no voo oferecido pela Euroatlantic – cujo dono, Tomaz Metelo, nasceu na Beira – para transportar uma equipa da Autoridade Nacional da Protecção Civil desde Lisboa para Moçambique.

O regresso é um alívio para quem perdeu muito nessas noites de ciclone, como a família Lopes que viu o tecto de casa ser arrancado e voar, inteiro, até cair sobre um tanque.

Eduardo Lopes, de 71 anos, Maria Albertina Lopes, de 72, e o neto Diogo Lopes, de 15, completam metade do contingente de repatriados que embarcou para Lisboa. Reformados, viviam na Beira desde 2013 para poderem estar mais perto do filho. Cláudio Lopes, esse, fica, porque ainda tem “algum património” e porque formou uma nova família em Moçambique (mulher e uma filha pequena). “Não quero voltar a trocar de país. Se vir que não dá e estiver a passar por muitas necessidades, volto. Até lá, vou lutar”, diz.

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Cláudio Lopes tinha concretizado o sonho de abrir uma oficina automóvel e o ciclone levou-lhe pelo menos um milhão de meticais (14 mil euros) de investimento só em infra-estruturas. Falta saber o que aconteceu ao equipamento importado. 

“Não dá para recordar, quero é esquecer o mais possível”, desabafa Albertina Lopes. “O meu neto disse-me ‘vó, se a gente contar ninguém vai acreditar no que passámos’”, conta. Diogo, ao lado, garante que agora quer é esquecer: “Já passou, passou, fazer o quê?”.

Avós e neto refugiaram-se na cozinha anexa à casa naquela noite. O avô, bate-chapa reformado que manteve uma oficina no Laranjeiro durante 40 anos, segurava-se à janela para que o vento não entrasse e levasse o telhado, o neto empurrava como podia a mesa contra a porta, a avó ia tirando a água que entrava empurrada pelo vento.

Sobreviveram a beber água da chuva, a comer arroz, salsichas, molhados até aos ossos – “O que nos aqueceu foi o cházinho que fazíamos”.

Albertina lembra o som das vigas do telhado a partir e o das árvores: “O barulho das árvores era tão grande. Não desejo a ninguém o que nós passámos”.

Com a família Lopes seguem o militar reformado Carlos Trindade, de 65 anos. Há oito anos que estava em Moçambique, depois de nos anos 1990 ter passado pelo país numa missão da ONU. Veio com a ideia de criar um restaurante, mas faltou-lhe dinheiro e abriu uma mercearia. Como o negócio andava fraco, mudou-se para o Dondo, região de Sofala.

Os problemas de Carlos Trindade não foi o ciclone, foram as condições de insegurança. “Fui assaltado, deram-me na cabeça e fiquei sem nada”, conta antes de embarcar. Passou dez dias internados e gastou o resto das economias: “O que tenho é uma mochila com meia dúzia de T-shirts”.

A insegurança motivou um dos momentos mais tensos dos encontros com os portugueses de José Luís Carneiro, o secretário de Estado das Comunidades que este domingo deixou a Beira – é substituído a partir de segunda-feira pelo secretário de Estado da Protecção Civil, Artur Neves. Numa carta que lhe foi entregue à chegada, na quarta-feira da semana passada, pediram-lhe que Portugal enviasse uma força militar para garantir o bem-estar dos portugueses.

Carneiro empenhou-se em tentar melhorar a imagem do consulado na cidade. Acelerou as autorizações para o financiamento dos estragos no telhado do edifício e garantiu a reposição da energia eléctrica e da Internet para pelo menos o rés-do-chão do edifício do consulado que tem mais dois andares.

Aumentou provisoriamente o pessoal do consulado com mais seis pessoas e procurou acelerar a reposição da rede informática do Ministério dos Negócios Estrangeiros para permitir a emissão de documentos que passarão a ser gratuitos. “Qualquer acto consular, tanto na Beira como em Maputo, não tem qualquer tipo de pagamentos”, medida em em vigor por 90 dias, prorrogáveis “se for julgado necessário”.

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Decisões que permitiram que os seis portugueses pudessem embarcar ainda este domingo para Lisboa, mesmo que alguns tivessem os documentos caducados - Diogo Lopes nem sequer tivesse registo de nascimento.

Fernando Mendes, de 61 anos, um luso-guineense cuja família mora na Amadora, estava há quase 20 anos em Moçambique. Chegou em 1999, trabalhou na agricultura, na indústria florestal, e volta sem nada: “Perdi tudo.”

“O pouco que tinha ganho em oito anos de vida ficou aqui em Moçambique”, conta Carlos Jorge, de 61 anos. Mestre-de-obras, era emigrante em Andorra antes de vir trabalhar num dos hotéis da cidade. “Escolhi aqui para acabar”, ou seja era em Moçambique que queria morrer, mas as circunstâncias mudaram. Desempregado há quatro meses, estava a tratar da nacionalidade das filhas para regressar a Portugal. Como o dinheiro não chegava, o processo atrasou-se.

“Há muito trabalho, mas a cabeça não dá”, desabafa. Aproveitou esta oportunidade para partir, deixando em Moçambique a mulher e as três filhas menores, esperando tratar das legalizações em Portugal. “Vou viver com os irmãos e arranjar trabalho. Uma pessoa quando tem trabalho tem esperança.”

Para Carlos Miroto, de 71 anos, que vive desde 1964 em Moçambique, a decisão de partir, além da saúde (tem um problema cardíaco) é simples: “Estou velho. Não é que em Portugal tenha condições. Não tenho condições absolutamente nenhumas, mas aqui está a ficar impossível. Talvez esta tenha sido a gota de água”.

Empresário da área das madeiras há 45 anos, tinha uma serração e uma carpintaria cuja gestão já passou aos filhos. “Ficou tudo destruído. Até uma quinta que era o meu passatempo. Comprei umas vacas, uns perus, umas galinhas e criei umas lagoas... Só ficaram as lagoas. Fiquei sem nada. Zero. Restaram as chapas espalhadas pelo campo”.

Do património acumulado em mais de 50 anos ficaram cinco dos seis camiões da empresa. Vai para Lisboa tentar melhorar o coração que bate pouco. Mas ele que conhece Moçambique de Norte a Sul, que passou a infância em Milange, na Zambézia, acrescenta: “Não lhe garanto que daqui a três ou quatro meses não esteja de volta”.