Crítica

PlayStation Now, uma nuvem na sala de estar

Com mais de 600 obras PS2, PS3 e PS4, o serviço chegou recentemente a Portugal. Abrange todos os géneros e qualidades, mas será que a massificação da oferta tornará a busca enfadonha?

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Reuters/KAI PFAFFENBACH

A dica está no nome: o PlayStation Now quer disponibilizar o videojogo no momento, removendo da equação o objecto. Aposta da Sony é um serviço que permite aos jogadores acederem a obras para PlayStation 2, PlayStation 3 e PlayStation 4 mediante o pagamento de uma mensalidade ou de uma anuidade. Não é uma novidade no mundo dos videojogos, mas é uma novidade em Portugal.

Chegar ao catálogo do PlayStation Now faz lembrar o primeiro início de sessão no Netflix ou na HBO Portugal. Como a proverbial criança na loja de doces, mais do que jogar ou ver, as primeiras horas são passadas entre perguntas como “será que tem isto?” e apontamentos tanto de regozijo, “vou poder jogar outra vez isto”, ou de desilusão: “Como é possível este jogo não estar disponível”.

Quando a poeira assenta e a acalmia traz mais a vontade de jogar do que de consultar, fica também a constatação da imensidão que são mais de seiscentos jogos. Obviamente que nem todos são bons, havendo claros candidatos a fazer apenas número, mas há também vários clássicos da era moderna prontos a serem finalmente descobertos ou relembrados. Além do catálogo disponível neste momento, há novidades adicionadas mensalmente numa tentativa de evitar a estagnação e a conseguir fidelizar o jogador.

Na PlayStation 4, o serviço permite jogar qualquer título em streaming, sendo também possível instalar no disco da consola os jogos PlayStation 4 e PlayStation 2, opção que não está disponível para as obras do catálogo PlayStation 3.

 A instalação tem a contrapartida de ocupar espaço no disco, algo que se pode tornar um problema num disco com 500GB de capacidade, mas permite jogar sem ligação à Internet, com som 5.1 surround e com a resolução original das obras (que pode chegar a 4K no caso da PlayStation 4 Pro). Ou seja, é a forma que mais se aproxima a experimentarem o jogo como se o tivessem comprado em formato físico ou separadamente na PlayStation Store.

A versão Windows funciona graças ao download de uma aplicação e ao uso de um comando – a minha experimentação foi com um DualShock 4 e o adaptador sem fios oficial e não tive qualquer problema de latência, ficando com a estranha sensação de que o meu portátil tinha uma PlayStation ligada directamente. 

O progresso que fizerem em qualquer uma das plataformas é emparelhado graças à sincronização na nuvem. Mas não é possível correr o PlayStation Now em simultâneo no PC e na PlayStation 4.

Como os jogos não estão a ser executados localmente no computador, mais do que o poder computacional, a necessidade maior é uma ligação estável. A ligação mínima recomendada pela Sony é de 5 Mbps, com a recomendação de RAM a ser 2GB. No que a processadores diz respeito, a empresa recomenda um Intel Core i3 ou um AMD A10 no mínimo. Em 2019, não são requisitos proibitivos, ainda que valha a pena mencionar que os meus testes foram feitos num portátil com um Intel Core i7, 16GB de RAM e uma ligação de 1 Gbps.

Neste ambiente, o PlayStation Now portou-se bem, ainda que com alguns asteriscos. Sobre os jogos instalados localmente não há nada a dizer, pois funcionam como uma compra feita na PlayStation Store. Já no que ao streaming diz respeito, sente-se que há sempre algum tempo destinado à preparação do jogo – que pode chegar a quase um minuto, mais o carregamento feito pelo próprio jogo – e que houve uma vez em que Mafia II, obra PlayStation 3 a correr em streaming no PC, encravou e fez-me reiniciar a aplicação, perdendo durante o processo uma parte do progresso feito. São detalhes, claro, mas que servem para relembrar que é uma tecnologia sempre dependente do fluxo da ligação.

Ocasionalmente, pode-se ficar em lista de espera, o que me aconteceu algumas vezes. Segundo palavras oficiais da Sony, “ao jogar um título no PlayStation Now, está a ocupar um lugar disponível num dos servidores. Se houver muitos jogadores a entrar ao mesmo tempo, o espaço livre nesses servidores pode esgotar-se rapidamente”. Este tempo de espera não é, no entanto, específico de certos jogos, ou seja, não afecta apenas os títulos mais populares. A Sony menciona que é uma situação que ocorre “apenas nas horas de pico” e que a espera normalmente não dura mais do que alguns minutos. Na minha experiência, a espera nunca foi superior a dois ou três minutos. 

Depois destes passos e considerações iniciais, podem-se passar horas a jogar em que, pelo menos nas condições em que experimentei o serviço, há uma jogabilidade ininterrupta, com o cérebro praticamente a esquecer-se de que está a experimentar algo alojado a largos quilómetros de distância, focando-se sobretudo no videojogo. Caso existam problemas na ligação, o serviço mostra uma indicação e como precaução devem gravar o progresso feito com a finalidade de evitar dissabores e repetições de trechos já conquistados.

Se a pedra basilar que é a infraestrutura técnica funciona, a segunda camada, ou seja, os jogos em oferta, conta com alguns destaques e outras omissões. Para que fique claro, há aqui excelentes jogos que todos os fãs devem experimentar, como The Last of Us (e o DLC Left Behind), Bloodborne, Until dawn, mas também a trilogia de títulos desenvolvidos pela Quantic Dream, nomeadamente, Beyond: Duas Almas, Heavy Rain e Detroit: Become Human.

A principal qualidade do catálogo no estado em que se encontra à data de publicação deste artigo é que aborda praticamente todos os géneros. Desde títulos independentes, como Abzû, a obras mais afastadas das luzes da ribalta, como Primal, Forbidden Siren, Rogue Galaxy, Dark Chronicle e Dark Cloud, a verdadeiros colossos, como a trilogia BioShock, seis títulos da saga God of War, ou Fallout 3 e Fallout New Vegas, bem como várias propostas F1 desenvolvidas pela Codemasters e a vários jogos Batman Arkham.

Por muitos – e são mesmo muitos – jogos que estejam incluídos, não deixa de ser algo estranho que títulos como Uncharted 4 não marquem presença, e que não haja uma aposta ainda maior nos jogos exclusivos da Sony. Claro que o catálogo podia ter o dobro dos jogos e alguns jogadores continuariam insatisfeitos, mas trata-se-ia de dar uma montra maior dos exclusivos, até porque a vasta maioria são propostas que primam pela qualidade.

Ainda assim, é bom ver que Ico e Shadow of the Colossus, por exemplo, estão disponíveis, ficando a faltar apenas o excelente The Last Guardian para completar a tareia emocional. Outro jogo obrigatório é Red Dead Redemption, o western que voltou a ser mencionado recentemente com a chegada da sequela, oito anos depois. Infelizmente, não se pode dizer que as obras da Rockstar Games abundem no serviço. E por falar em sorvedouros de horas, Yakuza 4 e Yakuza 5 estão disponíveis, pelo que só aqui têm dezenas de horas que vos levarão por cenários nipónicos atmosféricos e inesquecíveis.

Os jogadores que estão no universo PlayStation desde que a caixa cinzenta chegou ao mercado já terão tido oportunidade de experimentar muitas destas propostas obrigatórias. Caso tenham comprado máquinas de outras empresas ao longo dos tempos, então têm aqui uma lição intensa em parte da história moderna dos videojogos. Podem facilmente passar meio ano a jogar aquilo que vos passou ao lado, sem contar com as novidades que continuarão a ser adicionadas.

É impossível falar do PlayStation Now sem mencionar a concorrência, o Xbox Game Pass, mesmo que os moldes não sejam os mesmos. Não há tantos jogos para serem experimentados, com a Microsoft a mencionar “apenas” mais de 100 títulos. Porém, sente-se aqui o esforço em colocar no serviço jogos publicados há menos tempo e, por exemplo, todos os exclusivos Windows/Xbox One no dia em que são publicados. São menos, mas acabam por ser títulos adicionados mais próximos do seu pico de relevância. Os jogos do Xbox Game Pass, contudo, não podem ser experimentados em streaming, ou seja, assentam nos moldes do download tradicional.

A Microsoft deverá mostrar mais de Project xCloud, a sua aposta no streaming, na E3 deste ano e e importa não esquecer que o Google entrou na arena com o seu Stadia, que também funcionará através do streaming de conteúdo. Ainda é cedo para declarar que será este modelo o futuro dos videojogos, mas seria viver de e para o passado se este crescimento e aposta de empresas com bolsos fundos fosse descartado como apenas mais uma tendência.

Com a revelação do Stadia, muitos terão pensado que o Google ia ferir de morte a Sony e a Microsoft. Mesmo que o projecto seja um sucesso, convém não esquecer que aquelas duas empresas – e a Nintendo – podem adaptar-se a um novo modelo de negócio. Além disso, mesmo com o Google a anunciar um estúdio encabeçado por Jade Raymond, as restantes três empresas há muito que desenvolvem obras exclusivas.

Uma mensalidade de PlayStation Now custa 14,99 euros e o valor a pagar pela anuidade é de 99,99 euros. Antes, têm sete dias para experimentar o serviço sem qualquer custo, caso sejam novos utilizadores. O Xbox Game Pass tem uma mensalidade de 9,99 euros, com os novos subscritores a terem direito ao primeiro mês por um euro. 

Além disso, e no lado completamente oposto, ou seja, na elevação do objecto videojogo a algo ainda mais belo e valioso, temos empresas como a Limited Run, que edição após edição vai colocando no mercado itens quase artesanais que normalmente esgotam minutos após serem disponibilizados. 

O meio dos videojogos é suficientemente grande para albergar propostas para as diferentes necessidades de jogadores, que estão a crescer juntamente com a indústria de que tanto gostam.