Milhares de professores saíram à rua, agora ameaçam fazer greve

Muitos dos que se manifestaram ontem deixaram apelos ao Parlamento para que se conte todo o tempo de serviço congelado. Querem que os partidos cheguem a uma solução semelhante à da Madeira.

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“Adoro a minha profissão. Não esperava este desrespeito”, disse Renata Cruz. É do Porto, tem 60 anos é educadora de infância no há 36 anos e meio. Está no 7.º escalão (em dez) e se nada mudar reforma-se sem chegar ao topo da carreira. Num dos lados da cara tem escrito os números que os professores não se cansam de gritar: nove anos, quatro meses e dois dias. Foi esse o período da carreira que esteve congelado (entre 2005 e 2007 e entre 2011 e 2017) e que reclamam do Governo, que não quis dar mais de dois anos, nove meses e 18 dias.

De olhos postos na apreciação parlamentar ao decreto-lei do Governo, marcada para dia 16 de Abril, dez estruturas sindicais juntaram ontem, em Lisboa, milhares de docentes que praticamente encheram o Terreiro do Paço. A PSP não apresentou estimativas, mas os sindicatos apontaram para “perto de 80 mil”.

“Está na hora da Assembleia da República exercer o seu poder fiscalizador e legislador”, disse Fátima Palmeiro, da Associação Sindical de Professores Licenciados. Recado reforçado por João Dias da Silva, da Federação Nacional de Educação: “Os partidos devem respeitar os professores.” Respeito que dizem que “o Governo não teve”. Por isso carregaram em braços um boneco, uma caricatura do primeiro-ministro.

Mário Nogueira, da Federação Nacional de Professores (Fenprof) deixou um apelo: que os deputados da Assembleia da República “convirjam numa solução que reponha a legalidade”. Pediu uma solução semelhante à que foi encontrada na Madeira: a recuperação de todo o tempo de serviço, de forma faseada, até 2025.

Ameaça de greve às avaliações

No final, os sindicatos deixaram marcadas novas formas de luta: “Uma greve às avaliações a partir de 6 de Junho”, caso o resultado da apreciação parlamentar não responda às reivindicações, uma manifestação nacional para 5 de Outubro, Dia Mundial do Professor, e avançar para os tribunais para que docentes com mais anos de carreira não sejam ultrapassados por outros com menos tempo.

Joana Lopes, professora de Matemática e de Ciências no Porto há 19 anos, está nessa situação. Está no 1.º escalão da carreira. Leva para casa limpos 1090 euros. Mãe solteira, conta com o apoio da família. “Do Estado não tenho apoio nenhum. Se não fosse o congelamento estaria no 5º escalão. Agora vou ser ultrapassada por aqueles que entraram na carreira em 2017.”

A liderar a marcha estiveram professores de máscara branca, vestindo t-shirts com os nomes dos partidos — Verdes, PCP, CDS, BE, PAN e PSD — “que já mostraram o seu apoio aos professores”, disse Mário Nogueira. As palavras de ordem marcaram todo o percurso: “Uma só solução, não ao apagão” e “não basta prometer, é preciso resolver”.

Compromisso da esquerda

A dirigente do BE, Catarina Martins, disse que a apreciação parlamentar “servirá para encontrar um modo de contar integralmente o tempo de serviço dos professores ainda que de forma faseada”. “Se os partidos da direita forem consequentes com aquilo que disseram, o problema fica resolvido no Parlamento”, afirmou.

Graça Dias, professora de Filosofia com 26 anos de serviço, faz todos os dias faz 140 quilómetros e gasta 20 euros entre Castelo Branco, onde mora, e Mação, onde trabalha. Deveria ganhar mais 300 euros não fosse a carreira congelada. “Espero que o PSD e o PS entendam a mensagem. Trabalhei nove anos, quatro meses e dois dias e ninguém assinou por mim”, disse.

Quando questionado sobre se a solução está nas mãos do PSD, que já disse que ia apresentar propostas, o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, declarou: “O PS tem uma palavra determinante. O PSD é uma incógnita no seu posicionamento e nas suas propostas. A questão central é que o PS tem de reconhecer que os professores têm razão.” Os deputados Heloísa Apolónia, dos Verdes, e o social-democrata Pedro Roque, também estiveram presentes.

No final, no Terreiro do Paço, Renata Cruz resumiu: “As pessoas aderiram à luta. Agora temos de ajustar contas com o senhor primeiro-ministro e com o senhor Centeno. Não pedimos retroactivos, só queremos o que nos devem: nove anos, quatro meses e dois dias.”