Fadista Patrícia Costa estreia ao vivo novo disco no Porto, em Coimbra e em Lisboa

Depois de dois álbuns, um EP com seis fados inéditos, para “dar espaço aos temas” e aos autores e chegar melhor às pessoas. Patrícia Costa, fadista nortenha, estreia-o ao vivo, a começar no Porto, este sábado.

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Patrícia Costa PAULO PIMENTA
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Patrícia Costa, num ensaio fotográfico PAULO PIMENTA
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Patrícia Costa, num ensaio fotográfico PAULO PIMENTA
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Patrícia Costa em palco PAULO PIMENTA

Já tem dois álbuns gravados, nos mais de vinte anos que já leva no fado, mas agora Patrícia Costa resolveu lançar um EP, que se estreou nas plataformas digitais na quinta-feira e será apresentado ao vivo este sábado no Porto (no Plano B), domingo em Coimbra (no Salão Brazil) e dia 28 de Abril em Lisboa (no Teatro Ibérico). Todos estes espectáculos, onde haverá também temas não incluídos no EP, que ali serão apresentados em estreia absoluta, vão ser acompanhados pela “projecção de uma narrativa visual” da autoria de Paulo Pimenta, fotojornalista do PÚBLICO.

Nascida em 10 de Abril de 1983, em Guimarães, Patrícia Costa titulou o EP apenas com o seu nome. Antes, gravara Um Cantar Velado e Lento (2010) e Fados (2016). Razões para um EP, em vez de um novo álbum? Patrícia justifica-o deste modo: “Individualmente, eu queria dar espaço aos temas, por isso pensei que um formato mais pequeno seria a melhor forma, não só de fazer a música chegar às pessoas como de agradecer aos autores e compositores que mas ofereceram.”

E que fados? Seis, ao todo, de diversas autorias. Começa com Apartado, de Luca Argel, cantor e compositor brasileiro radicado no Porto, e continua com Erros meus, de Maria do Rosário Pedreira, no Fado Isabel (de Fontes Rocha); Fado da ilusão, com letra de Fernando Pinto do Amaral; Saudade, com poema de José Archer de Carvalho (1916-2012), com música da açoriana Ângela da Ponte; Vai que vai, de Pedro Fernandes Martins (que já compusera para ela o Fado da Cantareira, no disco anterior); e Fado Mudo, de Edu Mundo, num fado de Joaquim Pimentel.

O nome de José Archer de Carvalho, cantor e compositor nascido e celebrizado no Porto, surge no disco com uma composição que acabou por ser musicada por uma compositora dos Açores. “Ele era avô de uma amiga minha, mas não tive oportunidade de estar com ele”, diz Patrícia. “A família é muito gentil, o Gonçalo, um dos netos, é professor de piano na Valentim de Carvalho e a Maria Archer, outra das netas, canta nas Sopa de Pedra.” Já quanto à música, da autoria de Ângela da Ponte, Patrícia diz que “é claramente de uma compositora de música contemporânea. Fê-la com Viola da Terra e eu gravei-a com braguesa. Dois cordofones de arame, da mesma família.”

Uma família de músicos

Falando em famílias, a de Patrícia está desde há muito ligada à música. “Tem imensos músicos amadores, ligados sobretudo à música tradicional portuguesa. O meu pai cantava num grupo de música tradicional, a minha mãe na adolescência tinha sido cantadeira de um rancho folclórico e eu comecei a cantar em casa, a aprender com eles as canções. Há gravações minhas, áudio, a cantar com 2 anos. E a partir dos 3 já estava no palco, com o grupo do meu pai, a cantar canções infantis.” Depois vieram os serões, as festas e o fado. “O meu pai tinha um amigo que é construtor de cordofones tradicionais e também toca guitarra portuguesa, fazíamos muitos serões, o meu pai sempre teve jeito para cantar a puxar um bocadinho ao fado. E eu ouvia, adormecia, acordava, aprendia os fados assim.” Aos 5 anos começou a cantar em festas: de Natal, de empresa, etc. Nessa altura, “ouvia basicamente Amália, depois Fernando Farinha e Teresa Tarouca.”

Quando tinha 8, numa festa de São Martinho, pai convidou uma rapariga que cantava no grupo de música tradicionais e já estava a dar os primeiros passos no fado, com um grupo de guitarras de Guimarães. Fizemos uma tertúlia, eu cantei, o meu pai cantou e no final convidaram-me para ir a uma gala de variedades da rádio no teatro em Guimarães. Quando somos muito crianças não temos medo do palco, porque não temos noção da responsabilidade. Estava tudo escuro e só no final do primeiro tema é que eu percebi que era uma sala enorme, ao ouvir as palmas.”

No ano seguinte foi para o Conservatório. “O meu pai achava que eu tinha muito jeito para a música e devia aprender, porque nenhum deles tinha tido formação musical, e inscreveu-me. Comecei com piano, depois passei para guitarra clássica.” Isso em 1992. E aprendeu canto. Esteve lá quatro anos. “Durante vários anos não quis dizer no Conservatório que era fadista, tinha vergonha. Mas depois saiu uma notícia qualquer no jornal e tive de enfrentar o leão.”

Também tirou enfermagem porque “achava que era bonito”, mas não exerceu, exceptuando alguns domicílios depois de acabar o curso ou substituir uma amiga numa instituição geriátrica, quando essa amiga ia de férias. “Mas depois deixou de ser comportável, porque já cantava mais pelo Porto e comecei a trabalhar numa casa de fados.” Primeiro a fazer substituições e “noites aqui e acolá”, sobretudo no Mal Cozinhado e n’O Fado, onde ficou como fadista residente a partir de 2009.

“Feito com o coração”

O primeiro disco que gravou, acha-o agora talvez demasiado ambicioso para estreia. “Porque tinha um conceito muito sólido por trás, eram poemas de que eu já gostava há muitos anos, alguns eu já cantava e outros preparei-os para músicas novas ou fados tradicionais. Tem uma canção do José Mário Branco que eu tinha ouvido no espectáculo Porto a Oito vozes, Recado ao Porto, e fiz um arranjo para fado; uma música do Miguel Amaral para um poema da Sophia de Mello Breyner, com uma linguagem completamente contemporânea; e uma série de coisas que não estão dentro do que é a normalidade no fado. Mas ainda hoje me pedem que as cante, porque as palavras entram nas pessoas, elas retêm fragmentos de coisas que não ouvem em mais lado nenhum.”

Fados, o disco seguinte, foi, diz ela, “feito com o coração”: “Eu tinha uma série de pessoas à minha volta que me diziam: quando é que gravas este fado? E fui juntando fados de que gostava muito, sobretudo aqueles que me diziam que era incontornável gravar. Já tenho aqui um pezinho no folclore, que é uma paixão antiga minha, com A minha terra é Viana e o Chapéu preto.”

O EP Patrícia Costa, que agora lança, surge depois de ter sido convidada pela Livraria Lello a musicar, interpretar e gravar o Fado da Lello (já lançado em vinil pela própria livraria), com letra de Maria do Rosário Pedreira, a mesma que assina outro fado inédito neste seu novo disco.