Crítica

E assim o vimos... numa África do Sul que dança com armas

Uma peça que condensa num corpo afirmativo e feroz o encontro de duas gerações sul-africanas, a da coreógrafa Robyn Orlin e a do performer Albert Ibokwe Khoza, com um humor mordaz e uma assertividade crítica perante o presente.

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André Delhaye
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O jovem performer Albert Ibokwe Khoza André Delhaye
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Numa fricção entre tradição e modernidade, entre políticas identitárias e um neocolonialismo que encobre violência racializada e de género, mas também na procura de liberdade numa África do Sul com duas décadas pós-apartheid, a coreógrafa sul-africana branca e “enfant terrible” Robyn Orlin apresentou na passada terça-feira no auditório de Serralves o solo And so you see... (2016). Revelador do jovem performer Albert Ibokwe Khoza, bailarino e actor, “sangoma” (curandeiro tradicional) e universitário, cristão e homossexual, neste solo exuberante pela sua teatralidade, Orlin usa instrumentos coreográficos como a dança, o texto, a voz e um jogo de imagens vídeo que vai alternando papéis entre performer e público, colonizando o Requiem de Mozart como paisagem sonora para propor um olhar cáustico sobre o seu país de origem, com os sete pecados mortais – preguiça e orgulho, gula, luxúria e ganância, raiva e inveja – como substrato conceptual. Um país que embora progressivo na defesa da igualdade, permanece refém da construção de uma “identidade africana” associada a valores tradicionalistas, num conservadorismo que condiciona a alteridade, com consequências trágicas de discriminação, como as chamadas “violações correctivas” de lésbicas.

Um país e um continente onde se tecem intricadas relações geossociais entre o seu subsolo e um neoliberalismo global. Porque se nenhuma geologia é neutra, como referiu Kathryn Yusoff, tão-pouco o é o conceito de humanidade, nomeadamente o ocidental, predicado desde o colonialismo numa bifurcação entre o homem e o Outro, e na sua expropriação física e subjectiva pela escravatura, que esteve também na base de um sistema como o capitalismo, generalizado hoje à escala planetária. 

E assim o vimos… na escuridão do palco, um cadeirão de costas voltadas para a plateia, e nele uma massa corporal envolvida em tecido branco, cujos movimentos de respiração se adivinham na imagem em grande plano. Liberto do pano branco que o mumificava, mas envolto em celofane como uma crisálida antes do transformismo, Khoza movimenta o seu corpo exuberante e volumoso, entre o feminino e o masculino, evocando tanto a luxúria do prazer sexual, como a gula e a avareza ao comer com sofreguidão laranjas que descasca com uma faca de talhante, em imagens que evocam tanto o prazer como o perigo de mutilação.

Num desempenho excepcional que convoca o trágico, a raiva e a lamentação, no seu corpo eminentemente transgressivo e político ele condensa tanto o tirano, quando ordena arrogantemente a duas pessoas do público que limpem o seu corpo, como a beleza de uma “nubian queen”, quando se maquilha e se adorna de anéis dourados para o encontro com Putin a dançar numa imagem gif animada, e onde sarcasticamente promete trocar minérios e petróleo por armas nucleares e lixo tóxico.

Nesta dança que usa as armas da abundância e vestes de plumas de pavão, este “requiem para a humanidade”, como a ele se referiu Orlin, converte-se num ritual xamânico e de exorcismo, para um lamento final em forma de cântico, com o seu corpo agora frágil e pintado de azul, dançando lentamente com uma imagem de criança-soldado que desaparece em pano de fundo.

Uma peça que condensa num corpo afirmativo e feroz o encontro de duas gerações sul-africanas, a da coreógrafa e a do performer, com um humor mordaz e uma assertividade crítica perante o presente, anunciando os traços de uma revolução em progresso, e tecendo a apologia de uma insolente e magnífica liberdade a reclamar nesse território sul-africano.