Professores: como se prepara “uma grande manifestação”?

Sindicatos querem que manifestação de sábado seja grande, a fazer lembrar aquela que em 2008 encheu o Terreiro do Paço. Mário Nogueira não se compromete com números, mas garante que será “uma grande manifestação”.

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daniel rocha

Demora duas ou três horas a desfilar, mas muitas mais a montar. Vários dias de reuniões e de preparação antecedem uma manifestação nacional de professores.

A dois dias do protesto que os sindicatos querem grande e a fazer lembrar aquele que em 2008 encheu o Terreiro do Paço, não havia na quinta-feira, na sede do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) e da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), uma azáfama de professores e sindicalistas a ultimar cartazes, faixas ou bandeiras. Sinais dos tempos e da evolução da tecnologia: os materiais são pensados dentro do sindicato, mas produzidos maioritariamente fora, por empresas gráficas.

Nem a impressora de grandes dimensões, colocada na sala onde o departamento de informação dos sindicatos trabalha, e onde se imprimiam ainda na quinta-feira alguns cartazes, perturbava o ambiente de silêncio e tranquilidade reinante.

Só no sábado, dia da manifestação nacional convocada por dez estruturas sindicais, para mais um fôlego de reivindicação nas ruas, haverá maior movimentação e preparativos. O que se exige? A contagem integral do tempo de serviço da carreira que esteve congelado.

Isso não significa pouco trabalho, explica Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, garantindo que uma manifestação desta envergadura “demora muito tempo” a organizar.

Começa-se por definir “a oportunidade” do protesto, ou seja, é preciso garantir que ela acontece num momento em que pode provocar “um efeito, uma consequência”, que neste momento, mais do que protestar contra o Governo, é pressionar a Assembleia da República, na apreciação parlamentar agendada para 16 de Abril, para forçar uma revisão do decreto-lei do Governo que apenas conta parte do tempo congelado reivindicado pelos professores, sendo para isso necessário que uma maioria parlamentar se entenda nesse sentido.

É ainda preciso tempo para esclarecer os professores dos objectivos da manifestação, razão pela qual na última semana e meia os sindicatos se desdobraram em plenários por todo o país, para ouvir, mas também para explicar a razão da importância da manifestação e da participação dos docentes, que está longe de ser um dia de passeio, defendeu Mário Nogueira.

“Uma manifestação não é estala-se um dedo, vamos fazer uma manifestação e vamos passar um dia a Lisboa. Longe disso. Aliás, o sacrifício para muitos é muito grande. Há gente que vai sair de casa às 5h00 e chega a casa às 4h00 do dia seguinte, porque as viagens são longas. Vem gente de muito longe, vem gente de Sagres, Vila Real de Santo António até Vinhais, Bragança e Mirandela”, disse o líder da Fenprof.

Depois há “todo um trabalho preparatório”, que neste caso envolve 10 estruturas sindicais e canais de comunicação abertos em permanência, para se encontrarem consensos em aspectos como palavras de ordem, decidir qual o sindicato que vai à frente na manifestação, o que “às vezes dá uma discussão grande”, porque “as pessoas gostam de ir à frente e depois aborrecem-se porque se vão atrás quando chegam [ao término do desfile] até já acabaram as intervenções”, ou até a localização do palco para as intervenções.

“No Terreiro do Paço, a polícia sugeria que o palco ficasse do lado do Cais do Sodré, mas aí já temos uma experiência de 2008 em que as pessoas vêm da rua da Prata e chegam ali e empanca e, não só não enche a praça, como ainda por cima ficam parados pela rua fora. Vamos ter que ver com a polícia e negociar para pôr do outro lado de forma a que encha toda a praça”, disse Mário Nogueira.

Há ainda as faixas, o discurso, a mensagem inicial e os adereços, pensados para dar uma identidade e imagem de marca à manifestação que a diferenciem das anteriores e das que se lhe seguirem, a pensar na memória futura.

“Sabemos que as fotografias que a comunicação social vai tirar apanham a primeira faixa. A mensagem da primeira faixa é muito importante, independentemente das outras, aquela é que vai passar sempre. Depois, a própria imagem da manifestação. Nós iremos levar balões pretos, balões negros. Não é propriamente luto, mas da tristeza e indignação dos professores. E às vezes as pessoas lembram-se: olha, esta é a manifestação dos balões pretos. Tivemos a manifestação do emoji, tivemos o desfile dos “pai Natal”, o desfile das caixas do correio. Temos que encontrar a imagem de marca da manifestação, porque fica”, notou.

Há também a segurança e a comunicação no decurso da manifestação, decidindo os momentos adequados para passar a mensagem, “sem a veleidade dos partidos políticos”, que procuram abrir telejornais, mas tentando capitalizar directos nos canais de notícias no cabo. “Geralmente quando a comunicação social está mais connosco temos que mandar as mensagens que são as mais fortes. Isso é tudo previsto para que a manifestação não fique ali um mar de gente que esteve ali e não aconteceu mais nada”, explicou.

Sem pormenorizar, Mário Nogueira adiantou que é possível que na frente da manifestação de sábado exista “algo muito visível”, num “recado aos partidos” que “simbolize o que o Governo fez e que simbolize o que se espera dos partidos políticos na Assembleia da República”.

Mário Nogueira não se quis comprometer com números, mas garante que será “uma grande manifestação”, que terá o “duplo sentido de repúdio ao Governo, por não contar aos professores seis anos e meio de tempo de serviço, e de “expectativa, e até esperança” aos partidos políticos, dos quais esperam uma solução.

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