Transporte aéreo absorve maior parte das verbas da Cruz Vermelha para Moçambique

Especial complexidade do transporte para a Beira e condições do aeroporto local obrigam à fretagem de um Ilyushin-76 através da TAP, o que absorverá 70% do dinheiro doado à Cruz Vermelha para ajudar Moçambique.

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O transporte de ajude tem sido canalizado no porto de Maputo Daniel Rocha

As dificuldades de acesso à cidade da Beira, na zona mais atingida pelo ciclone Idai, obrigaram a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) a recorrer à fretagem de um avião de carga Ilyushin-76 através da TAP para transportar medicamentos e um hospital de campanha de Portugal para Moçambique. A operação absorverá cerca de 290 mil euros dos 400 mil angariados nos últimos dias para esta missão, ou mais de 70% das verbas.

“Todas as decisões foram tidas em conta para tentar levar a cabo uma mitigação de custos”, garante ao PÚBLICO Pedro Monjardim, responsável da Cruz Vermelha para as operações logísticas, que aponta para a grande complexidade técnica do transporte e os problemas operacionais do aeroporto da Beira, onde nem todas as aeronaves podem aterrar.

Esta sexta-feira, e com 35 toneladas de materiais e de bens de primeira necessidade a aguardar num armazém em Lisboa, a Cruz Vermelha travou uma luta contra o tempo para encontrar uma solução viável entre as apresentadas por três operadores nacionais, acabando por optar pela TAP. O avião de carga de grande porte, de fabrico russo, descolará do aeródromo militar de Figo Maduro, em Lisboa, na próxima segunda-feira, às 12h.

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As limitações impostas pelas condições do aeroporto daquela cidade moçambicana e pela escassez de equipamentos ao dispor da respectiva empresa de gestão aeroportuária (nomeadamente para a descarga do material transportado) representaram uma das maiores dores de cabeça para Pedro Monjardim, a quem coube o desafio de “saber que tipo de avião pode ser recebido na Beira”. Um desafio central, já que “o avião é a base do trabalho”, como explicou o responsável da CVP.

A opção pelo Ilyushin-76 é ainda justificada pelo facto de ser uma aeronave capaz de transportar combustível suficiente para o voo de regresso, já que o reabastecimento não está garantido na Beira.

Maputo não é opção

Ao PÚBLICO, o responsável foi peremptório ao defender que Maputo, onde outro tipos de aviões poderiam operar, “não é viável”, pois não há garantias de que a carga transportada possa ser movida da capital moçambicana até à Beira em tempo útil.

Monjardim admite que os valores envolvidos possam suscitar dúvidas, mas que se tratou de uma “decisão ponderada” e não de uma opção feita “em cima do joelho”. Em última instância, afirma o responsável, os custos deste transporte “poderão nem vir a ser suportados pela Cruz Vermelha”, esperando a possibilidade de apoios por parte de entidades públicas ou privadas.

No imediato, e perante a impossibilidade da cedência de um avião por parte do Estado português, a Cruz Vermelha diz estar empenhada em mostrar aos doadores “que a ajuda está a chegar”. A organização vai ser a primeira entidade internacional a colocar um avião daquele porte na Beira.

A bordo deste gigante aéreo seguirá um hospital de campanha com “capacidade para realizar pequenas cirurgias” e internar 24 pessoas, afirma Gonçalo Órfão, de 31 anos. O chefe de missão será acompanhado de 19 elementos da CVP, seis deles médicos, seis enfermeiros, dois psicólogos e dois elementos de coordenação. Na equipa estarão também presentes três elementos dos Médicos Sem Fronteiros, fruto do memorando de entendimento entre as duas entidades.

“Estamos perante uma catástrofe”, sublinha o médico, que aponta ainda para o transporte de medicamentos que a equipa fará para Moçambique, de modo a contribuir para a diminuição da proliferação de doenças e infecções. “Quando se fala de medicamentos para as pessoas afectadas, falamos de valores astronómicos”, nota o chefe de missão. 

“Não é um trabalho fácil. Queremos fazer a diferença, mas para isso temos de estar lá”, conclui.