Reportagem

Nas escolas da Beira, onde chegam os deslocados, falta espaço, falta comida, falta tudo

Quando chega o grande tacho, começa uma luta. Rapazes de dez, 11, 13 anos, disputam uma porção de arroz. Nas escolas da Beira, onde continuam a chegar os deslocados do ciclone Idai, falta espaço, falta comida, falta tudo.

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Daniel Rocha
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Primeiro aparece um corpo deitado no chão, encostado a uma parede. Está tapado, apesar do calor abafado da sala de aula da escola Eduardo Mondlane, na Beira. A escola está transformada num centro para os sinistrados dos bairros periféricos que viram as suas casas serem levadas pelos ventos ciclónicos do dia 14.

Depois o corpo ganha rosto, quando se encosta à parede, meio a custo. Anita destapa-se apenas até à altura do peito, como se o frio não lhe deixasse o corpo. Lá fora a chuva cai. Forte, mas felizmente acabou depressa.

A casa de Anita voou na madrugada em que os habitantes da Beira tiveram medo - a de 14 para 15 de Março. “Medo” é a palavra que usam para falar das horas em que o vento uivou como um bicho e as chapas voaram como um pássaro, deixando muita gente ferida. Uma mulher mostra o pé em carne viva, a marca que a chapa lhe deixou no corpo.

Os 18 anos de Anita parecem 14. Muito magra, os ossos do peito salientes, fala a custo, num tom de voz tão baixo que é preciso ouvir mais do que uma vez para entender. Não sabe muito bem do que sofre - “são alergias”. A voluntária da Cruz Vermelha na Eduardo Mondlane diz que é uma “patologia antiga que não teve acompanhamento”. Está assim há três meses. E é tão magra, frágil, com dores nos joelhos e chagas na cabeça. Garante que foi ao médico – “Até levei pica”.

A tragédia da Beira salvou-a. Há dois meses, a irmã que sustentava a família morreu e Anita ficou com a filha, Vânia, e a sobrinha, Alzira a cargo - ela que mal consegue valer-se a si própria, com as duas crianças que brincam no pátio da escola como se fosse um dia normal. Por agora, Anita está aqui, onde a tratam com o que podem. Mas quando a escola regressar às funções habituais?, pergunta a directora da Eduardo Mondlane, Anália Jorge Intala. Nesta sexta-feira haveria uma reunião para decidir a reabertura, “porque as crianças não podem estar sem escola”.

A escola Eduardo Mondlane, como outras da Beira, foi ocupada pelos deslocados do ciclone Idai, que matou 293 pessoas (número provisório) em Moçambique e pode ter deixado 400 mil desalojados. São os únicos abrigos para quem perdeu tudo. Aqui, quase todos são da Praia Nova, zona que começou por ser de barracas de pescadores de fim-de-semana e se alargou até se transformar num bairro da Beira, a segunda maior cidade moçambicana, que ficou destruída quase a 90%.

Dorme-se no chão, mulheres e crianças numas salas, homens nas outras. Ao todo são 251 famílias a viver em condições precárias. O espaço é pouco, não há mantas e a comida não abunda.

Beber água barrenta

Na hora do grande tacho com arroz estar pronto começa uma luta. A pressão obriga os que levam a panela a procurar refúgio numa das salas, empurrando a esforço os esfomeados, quase todos rapazes de dez, 12, 13 anos.

“Não temos comida suficiente”, diz a auxiliar, com uma desculpa em jeito de explicação para um comportamento que desaprova, mas compreende.

De falta de comida também se queixam os deslocados de Búzi, outra cidade de Sofala, a província mais afectada pelo Idai, que devastou uma área no centro de Moçambique equivalente a 40% de Portugal (Sofala, Manica, Tete, Zambézia). Mas estar vivo já é recompensa. Passaram uma semana isolados, sem comida, a beber água barrenta (que trará seguramente doenças, cólera, difteria). Chegaram à Beira depois de serem salvos por barcos e chatas.

“O sítio não é o adequado, não tem manta, as lonas, não tem para todos e a questão da alimentação também”, diz Joaquim Luís, o coordenador da escola Samora Machel, para onde estão a ser levados os deslocados de Búzi. Na quinta-feira chegaram 409 que se juntaram a 774 que já lá estavam. E continuaram a chegar esta sexta-feira. 

Na Samora Machel, até os pratos são insuficientes e as pessoas revezam-se a comer, para que o prato sirva diferentes bocas.

“Não tem iluminação, não conseguem cozinhar porque falta lenha para aquecer as panelas, que são grandes e de ferro”, acrescenta Joaquim Luís ao rol de problemas.

“Os de Búzi não têm onde ficar, não têm de comer. Onde vamos ficar? O Governo é que vai saber”. Rita Nhaumbe Mapié vai subindo o tom de voz, uma artimanha falhada para não chorar. Não consegue conter as lágrimas de raiva e tristeza: “Não houve chata, nem barco do Governo para salvar as pessoas”.

Os que tinham como pagar, conseguiram salvar-se usando o negócio montado pelos que se aproveitaram deles com uma chata ou um barco – 500 meticais (um pouco mais de sete euros) para salvar família nas chatas, 100 meticais (quase 1,50 euros) nas canoas.

Ninguém os avisou da água

“Eu não tenho dinheiro, nem casa, nem roupa. Estamos mal no Búzi”, desabafa Rita Mapié. A sua é uma história repetida por tantos outros finalmente resgatados dos lugares mais altos de Búzi. As autoridades tinham alertado para a ocorrência de ciclones, mas ninguém os informou da subida das águas que veio a seguir.

“Foi grave. De repente, sem nos apercebermos, veio aquela água. Ninguém sabia de onde estava a sair a água, mas estava por todo o lado. Tudo destruído”, conta Adélia Bernardo. “Foi muito rápido. Os que estavam a dormir, saíram a nadar. Quando saímos de casa, alguns morreram, porque a corrente era muito forte”.

“Não tinha pronto-socorro”, por isso, Adélia agarrou nos filhos e nadou, “pegando nas crianças com força”. “As pessoas que ficaram lá, não sei como sobreviveram, porque não havia nada”, acrescenta. João Gonela Machuli diz que a água subiu “sete metros” e ele só conseguiu sobreviver. “Não consegui salvar nada, nem o chinelo consegui levar”, desabafa enquanto olha triste para os pés nus.

Aos poucos começam a chegar ajudas. Uma tenda de campanha estava para ser montada no exterior, na altura que o PÚBLICO passou na Samora Machel. Lá dentro, penduravam-se redes mosquiteiras - uma necessidade essencial, porque o ginásio onde os deslocados pernoitam não tem vidros nas janelas e, lá fora, as águas estagnadas são um convite aos mosquitos.

Aqui também há falta de alimentos e de utensílios de cozinha. As crianças que antes brincavam de um lado para o outro catam agora os restos queimados do arroz que ficou no fundo da panela.

Houve críticas sobre a distribuição de ajuda por parte dos afectados da Beira. Disseram que a ajuda chegava aos “de fora”, que se sentiam deixados de parte. O Governo ouviu as críticas e pediu mudanças estratégicas na forma como a ajuda está a ser distribuída. A partir deste sábado, a prioridade é fazer um levantamento das necessidades mais urgentes da Beira, bairro a bairro, para conseguir reverter estar situação.

“Disseram agora que iam começar a fazer o registo casa a casa”, afirma Daniel Joaquim, condutor txopela (moto-táxi), que não tem muita esperança. “Temos um Governo complicado que não ajuda o povo”, acusa. Tem dois filhos, perdeu a sua casa na tragédia e não consegue fugir ao pessimismo: “A Beira acabou.”

A chapa do chinês

“A população sofreu muito”, diz um dos guardas à entrada do grande portão do centro comercial, supermercado e parque de diversões Golden Peacock, no caminho do aeroporto da Beira para a cidade. O telhado, de chapa pintada a imitar telha, foi arrancado pela força do vento, espalhando-se pelo parque de estacionamento. O dono, chinês, está tentar salvar alimentos para vender noutro supermercado que tem na cidade. Decidiu deixar as pessoas aproveitarem a chapa que se amontoa numa grande extensão.

O som da recolha de chapa é igual ao de um estaleiro gigante. Mulheres e adolescentes tentam aproveitar o máximo das chapas retorcidas, querem começar a refazer as casas e os negócios. 

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À entrada do Golden Peacock, Teresa Armando tem um ar triste. Só conseguiu duas chapas compridas que pouco irão ajudar na reconstrução da sua casa. E não tem como as transportar. “Não há coisa de começar, nem o quê”, lamenta. Mostra os pés descalços - os chinelos ficaram perdidos numa das muitas lagoas de água estagnada que as chuvas deixaram por ali. Tem quatro filhos, um deles dorme às suas costas embrulhado num pano. “Estava a chorar com fome”, diz outra mulher com o mesmo ar consternado.

Marta Lampo também só conseguiu duas chapas. As duas mulheres acusam os adolescentes de se valerem da sua energia para açambarcar chapas. António João Massembe garante que não, diz que também quer reconstruir a casa onde mora com a avó. “Ela está numa escola agora, eu em casa de uns amigos”, explica.

Passam adolescentes arrastando chapas pelo chão, numa chinfrineira que contrasta com o som martelado das catanas que as mulheres usam no corte das chapas para levar só o que é aproveitável. Muita coisa não se aproveita, e vai formando um tapete metálico no parque de estacionamento.

E vai-se levando também o que não se deve. A lona que antes era o letreiro gigante do centro comercial é rapidamente dobrada por um casal que corre com ela até se perder de vista. “Ser esperto é ter lume nos olhos”, diz o provérbio dos macuas de Moçambique.