Opinião

“Um tipo branco, normal”

O pior deste massacre é que o caldo de cultura em que o assassino cresceu é o mesmo em que vivemos quase todos no Ocidente.

Desta vez, o assassino tem mesmo razão: o australiano que matou a tiro 50 pessoas numa mesquita neozelandesa — eu farei como Jacinda Arden, a PM da Nova Zelândia: se é notoriedade que ele quer, nem o nome dele aqui inscreverei! — apresentou-se como “simplesmente um tipo branco, normal, de uma família normal”, “etnonacionalista” e “fascista”. É o que ele é. Ao dizê-lo, foi muito mais sincero que a generalidade dos racistas e fascistas que por aí pululam mas que negam sê-lo.

Num documento de 74 páginas que publicou na Internet, o assassino desenvolve a velha cantilena racista da “Grande Substituição” e junta-se aos conspiracionistas que vêem “genocídio dos brancos” na imigração chegada ao Ocidente do muito Sul que ele próprio invadiu e colonizou há pelo menos 150 anos, e que explora ainda hoje. Para salvar “a Europa” — a Austrália, diz ele, “não é mais que um ramo da Europa” - é preciso “esmagar a imigração e deportar os invasores que vivem já na nossa terra”.

O pior de mais este massacre racista não é simplesmente, e tragicamente, as vidas que ceifou. O pior é que o caldo de cultura em que o assassino cresceu é o mesmo em que vivemos quase todos no Ocidente. Portugal incluído, não duvidem. Essa cultura não é somente, ou só especificamente, a islamofobia, o preconceito contra os muçulmanos. Ela é o racismo, um dos mais persistentes motores de preconceito da história social. Engana-se quem julga que ao nos concentrarmos no combate antirracista perdemos o norte do combate democrático: o racismo, ainda que sob a roupagem do culturalismo, é hoje o cimento que cola a ampla frente neofascista e antidemocrática que avança de um e outro lado do Atlântico.

Repetem-se os massacres, não cessa a violência praticada contra minorias políticas, étnicas e religiosas, ou de orientação sexual, ou contra as mulheres, contra todos aqueles que séculos de uma cultura racista, patriarcal e autoritária definiram como inimigos e/ou e inferiores. O guião dos dias seguintes é o de sempre: lamento institucional pelas mortes, condenação do perpetrador, insistência em o considerar como caso isolado, recusa de contextualizar o seu ato num caldo de cultura que o explica. O importante é negar que o perpetrador matou em nome de princípios, narrativas e mitos que são partilhados pela maioria.

Mas são. Esta violência é o resultado de uma cultura racista, agora mais islamofóbica do que já era, que segue o processo prototípico da construção social do desprezo, do medo e do ódio que a legitima: normalizar a tese de que o outro é inassimilável e, por isso, não merece viver connosco (presumindo que só podemos viver com quem se nos assemelha); desumanizar os membros das minorias, entendê-los como invasores; o que se descreve ser diferença entendida como uma ofensa ao nosso modo de vida (como se todos nós tivéssemos um modo único de vida); essencializar comportamentos e práticas culturais e sociais, imaginando um mundo em que cada um é portador de uma identidade aquirida e não construída, e a que se deve permanecer fiel (daí antirracistas, comunistas, feministas, homossexuais, entre muitos outros, serem descritos como traidores do Ocidente por negarem características centrais do que se acha ser essa identidade).

Ao contrário do que o discurso oficial sustenta, uma grande parte dos ocidentais acredita, em maior ou menor medida, em tudo isto. Resignou-se mal ao fim da dominação colonial, mas continua a naturalizar a desigualdade e a achar que a acumulação de riqueza no Norte do mundo é a demonstração da superioridade deste – da mesma forma que aceita ser o nível de riqueza individual, em cada sociedade, um índice de dignidade social e política. Desde 1945, desde Auschwitz, que prefere não assumir-se abertamente como racista ou partidário da supremacia branca, mas há 40 anos que denuncia o antirracismo, o antifascismo, o anticolonialismo, o feminismo e a laicidade como uma “ditadura cultural” da esquerda e do “politicamente correto”. Mais recentemente sentiu-se vingada com homens como Trump ou  Bolsonaro – mas há muitos anos que muito do que estes dizem já o diziam Thatcher, Reagan, Berlusconi ou Bush Jr…

Como escreve Nesrine Malik, perante tamanha violência “é hora de chamar as coisas pelos nomes e não pedir desculpa por chamar racistas, oportunistas e pregadores de ódio àqueles que o são, por mais que se os acolham nas nossas publicações mais prestigiadas e que ocupem lugares de governo”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico