Editor Zeferino Coelho homenageado em Leipzig: “Tenho a melhor profissão do mundo”

Zeferino Coelho foi homenageado na feira do livro alemã por 50 anos de trabalho como editor, no dia em que o Instituto Camões e a Direcção-geral do Livro e das Bibliotecas apresentaram um programa de apoio à tradução de autores portugueses para alemão.

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Zeferino Coelho Miguel Manso

Sobre a recusa de um original: “Não tenho nenhum motivo para me orgulhar de ter devolvido ao autor o manuscrito de A Decadência do Ocidente sem sequer o ter lido. É difícil explicar a posteriori tal estupidez.” O editor português Zeferino Coelho lê estas palavras que levou, escritas num pequeno caderno, para a Feira do Livro de Leipzig que esta quinta-feira abriu as portas na Alemanha. Lê e ri. Partilha com o PÚBLICO palavras que gostaria de ter dito, ou melhor, um sentimento que bem conhece, o do eterno problema do editor, “poder estar a passar-lhe uma obra-prima por debaixo dos olhos e ele não reparar”.

A frase que leu é de Kurt Wolff (1887-1963), editor, escritor e jornalista alemão numa autobiografia onde narra a sua vida na edição. O editor da Editorial Caminho, do grupo Leya, não teve tempo para a falar desta e de outras considerações de Wolff que, confessa, continuam a fazer-lhe sentido tantos anos depois. Como esta, a propósito de um livro do austríaco Gustave Meyrink (1868-1932), Golem: “Quando uma editora tem a sorte de alcançar um êxito enorme com um livro, e além  disso, com um livro que não é mau, isso tem uma agradável consequência: atrai os autores.” Fim da citação de Wolff, início da de Zeferino Coelho: “Foi o que me aconteceu quando editei o primeiro livro de Saramago.”

Minutos depois desta conversa, Zeferino Coelho era surpreendido com uma homenagem pelos seus cinquenta anos enquanto editor. Emocionado, ouviu João Mira Gomes, embaixador de Portugal em Berlim, lembrar que o fundador da Caminho editou o Nobel José Saramago e sete vencedores do Prémio Camões: os cabo-verdianos Arménio Vieira e Germano de Almeida, José Craveirinha e Mia Couto, de Moçambique, Luandino Vieira, de Angola e, de Portugal, José Saramago e Sophia de Mello Breyner Andresen. Destes, lembrou o embaixador, “apenas José Craveirinha não está traduzido em alemão, mas por este programa que anunciámos agora mesmo, acho que vão estar todos os sete traduzido em breve”, acrescentou referindo-se ao anúncio de um programa especial de tradução de autores portugueses para alemão. Esta quinta-feira, também em Leipzig, o Instituto Camões e a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas apresentaram a tradução para alemão como uma das suas prioridades até 2021, ano em que Portugal será o país tema da Feira do Livro de Leipzig. 

Emocionado, o editor da Caminho ouviu ser-lhe elogiada a “cumplicidade com os seus autores”, o “respeito pela criação”, o trabalho de alguém que “defende tanto o livro como o próprio autor” e o agradecimento pela divulgação da produção literária portuguesa. Mira Gomes cometeu então uma inconfidência, revelando a resposta de Zeferino Coelho quando lhe foi feito o convite para se deslocar a Leipzig. “Tenho muitas dúvidas sobre a importância do papel dos editores e assusta-me um pouco que eles se ergam acima da sua insignificância e assim venho ocupar um lugar que outros, sim, autores, devem ocupar por direito. Acha mesmo que eu mereço o convite?” Da ministra da Cultura, Graça Fonseca, veio a mensagem, agradecendo o trabalho de Zeferino Coelho “em prol da cultura portuguesa na perspectiva global de entendimento do que é a cultura”. Sem disfarçar o embaraço, o responsável pela Caminho resumiu o seu trajecto de forma muito simples: “Eu gosto de fazer livros” e terminou a dizer: “Tenho a melhor profissão do mundo.”

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EPA/FILIP SINGER

Foi o fim de um dia que começou com leituras de Afonso Cruz e de Joana Bértholo; uma conversa sobre a actual literatura de Moçambique, com os escritores Lucília Manjate e Mbate Pedro e a leitura de poesia de Raquel Nobre Guerra. A tarde arrancou com José Eduardo Agualusa e o seu último romance, A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, com recente tradução na Alemanha por Michael Kegler. Sobre o protagonista, inspirado em Luaty Beirão, Agualusa sublinhou que a sua personagem não é tão interessante quando a figura de Luaty. “Passo muito tempo a tentar cortar as asas à realidade para que as pessoas acreditem na ficção”, referiu numa conversa que acabou necessariamente por ser política. “O livro é um apelo ao sonho e à utopia e hoje isso é mais premente do que nunca”, concluiu o escritor perante uma audiência que encheu o stand destinado a Portugal, que este ano mais do que duplicou o seu espaço em relação a 2018. Há uma razão para esse crescimento.

“Este ano é o início da caminhada oficial que nos vai levar à feira de 2021 em que Portugal será o país convidado”, disse ao PÚBLICO João Mira Gomes, lembrando que esse percurso foi iniciado há quatro anos, quando Portugal esteve pela primeira vez naquela cidade do Leste da Alemanha. “Foi quando começámos a perceber o que era esta feira do livro e o interesse de estar aqui.” E que interesse é esse? “Aumentar o conhecimento daquilo que é a literatura portuguesa no espaço da língua alemã”, ou seja na Alemanha, Áustria e Suíça, “promover mais autores portugueses e de língua portuguesa”, precisa, salientado que um dos objectivos é que este projecto se estenda a todos os países de língua portuguesa. Todos os anos têm estado presentes autores de outros países onde se fala português. É o caso de Moçambique e de Angola. Mas a caminhada de que fala Mira Gomes pretende ir além da literatura. “Queremos que em 2021 haja uma presença cultural forte de Portugal na cidade de Leipzig. Que não seja só através do livro. Que haja outras manifestações artísticas. Estamos a ver que formas de criação artísticas se podem encaixar neste contexto.”

Leipzig tem a segunda maior feira do livro da Alemanha, depois de Frankfurt. Uma e outra com características distintas. Leipzig é mais de leitores, Frankfurt é sobretudo de negócio. “Pela proximidade que aqui existe entre autores e leitores, pensámos que esta feira se adaptava bem ao nosso projecto de maior divulgação da literatura portuguesa na Alemanha”. Sem ouvir o embaixador, Zeferino Coelho saúda o ambiente num momento em que está particularmente preocupado com o negócio do livro em Portugal.

Foi no fim da conversa entre editores da Alemanha, Moçambique e Portugal, onde muita coisa ficou por discutir no curto de espaço de tempo. “Foi uma conversa curta, mas disseram-se coisas importantes”, disse o editor que ouviu Mbate Pedro falar da sua experiência de dois anos à frente da Cavalo do Mar, uma editora com sede em Maputo, e de dizer que em Moçambique se publicam 400 livros por ano em vez dos 15 mil publicados anualmente em Portugal, e que faltam leitores e incentivo à criação de leitores.

Já fora da sala, a caminho do que não sabia ser a sua homenagem, Zeferino Coelho, confessava que não era capaz de explicar o que se está a passar na edição em Portugal. “As vendas estagnaram, tínhamos a sensação e a experiência de que certo de tipo de coisas funcionavam e isso já não é verdade. O mercado de best-sellers foi o que mais caiu. Não sei explicar. Vai-se fazendo. Com muito cuidado com o que se imprime, com as reimpressões, uma redução do número de títulos para podermos dar mais atenção a cada livro. Nunca senti uma coisa assim. Sempre houve altos e baixos nas vendas, mas o mercado começou a cair brutalmente em 2008, 2009; 2010 a 2012 foram anos negros, chegou a haver quebras de 15 a 18 por cento de um ano para o outro. Agora os números das vendas globais de 2018 comparados com os de 2017 dão um crescimento de dois por cento. Ou seja é quase uma estagnação.”

Quanto a Leipzig? “Ajuda a fazer contactos e ajuda a promover os autores portugueses. Já viu o tamanho deste espaço? É baratíssimo. Não é preciso um espaço muito grande nem gastar muito dinheiro. O negócio do livro devia ser mais bem pensado.”

O PÚBLICO  viajou a convite da Embaixada de Portugal/Camões em Berlim