Além de Kafka e Kundera, a literatura checa é protagonista em Leipzig

A edição de 2019 da Feira do Livro de Leipzig abre esta quinta-feira com a República Checa como tema. É uma literatura ligada à identidade, à política, nascida de uma história conturbada. Kafka e Kundera são grandes referências de novas gerações que ainda escrevem sobre a falta de liberdade, mas reagem ao que a liberdade já trouxe: alguma desilusão. Olhamos os checos a pensar em 2021, ano em que Portugal será o país-tema.

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A República Checa é o convidado de honra da Feira do Livro de Leipzig Tom Schulze

Em Novembro de 2017, de modo muito discreto, foi publicado em Portugal um dos livros mais conceituados da literatura checa contemporânea. Europeana, Uma História da Europa do Século XX (tradução de Lumir Nahodil para a Antígona), é um original de 2001 que percorre a história do continente europeu ao longo do último século, contada por um narrador que põe a nu a estupidez e o grotesco da barbárie humana nesses cem anos. É um romance negro, pontuado por momentos de sátira, retrato de um tempo insano composto de duas guerras mundiais, o Holocausto, muitos conflitos regionais e nacionais, invasões, autoritarismo, e que deixou em aberto o caminho para o século seguinte, este.

Em Europeana, o ciclo não se fecha e não há alívio no fechar das suas páginas, antes uma inquietação face ao presente e ao futuro. Um trabalho literário de grande fôlego e qualidade que tem conhecido várias adaptações, a última uma produção multimédia do alemão Heiner Goebbels, com o título Everything That Happened and Would Happen, estreada no Outono passado durante o Festival Internacional de Manchester.

Europeana é o romance mais traduzido da literatura checa entre os escritos depois de 1989, o ano da queda do Muro de Berlim e das fronteiras Leste e Oeste da Europa, mas nem por isso o seu autor, o romancista, ensaísta e tradutor Patrik Ouredník (n. Praga, 1957), passou a estar entre os nomes mais sonantes da literatura do seu país. Franz Kafka e Milan Kundera continuam a ser as grandes referências mundiais sempre que se fala de escritores checos, mas os organizadores da representação da República Checa na edição deste ano da Feira do Livro de Leipzig estão apostados em dar a conhecer mais e a centrar-se na produção literária actual. O país-tema de Leipzig 2019 leva à cidade do Leste da Alemanha uma comitiva de 55 autores que quer expressar a diversidade do que se escreve em língua checa com 70 novas publicações e 130 eventos.

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Kafka dr

“A sociedade checa ficou muito marcada pelos anos do socialismo, pelo Bloco de Leste. Já passaram 30 anos, mas ainda há muita reacção a essa mudança muito grande na sociedade e isso reflecte-se na literatura”, diz ao PÚBLICO Anna Almeida, professora de Cultura, Língua e Literatura Checas na Faculdade de Letras de Lisboa.

A professora fala de uma literatura muito colada à história recente do país, a tocar um período de silenciamento acerca do qual só podia escrever quem estava no exílio. “Por exemplo, continua a escrever-se sobre os anos 50, altura em que houve muitos processos, com condenações à morte, muita gente a fugir do país. Foi um período muito violento. Nos anos 60 [1968] houve a Primavera de Praga, mas logo depois, com a entrada das tropas do Pacto de Varsóvia, seguiu-se uma política muito pouco tolerante, com censura, não se podia viajar para os países do Ocidente. Isso ainda é tema para os escritores”, precisa.

Isso não se limita aos escritores mais velhos. Bianca Bellová nasceu em 1970 e a sua escrita traz consigo esse passado. Considerada uma das vozes mais estimulantes da actual literatura checa, recorre ao universo onírico, meio fantasmagórico, muito característico da tradição eslava e da Europa Central, para recriar o ambiente da ex-União Soviética e, ao mesmo tempo, remeter para temas actuais. Bellová é uma das autoras que farão parte da comitiva checa em Leipzig.

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Bianca Bellova dr

Bianca pertence a uma geração contaminada pelo exterior, com muitos autores a viver fora do país, traduzidos em várias línguas e com obras em múltiplas publicações internacionais. Uma geração que Anna Almeida classifica como “muito variada e marcada pelo passado”, mas que já traz, nalguns casos, “a desilusão com a liberdade, a reflectir, por exemplo sobre as consequências do consumismo”.

Anna Almeida vai falando com algumas cautelas. Insiste que gostaria de conhecer mais profundamente o que se faz, que as suas são impressões de quem está atenta, mas vive à distância, num país – Portugal – aonde não chega quase nada dessa produção actual. Actualiza-se a ler publicações online, a comprar quando em viagem. A viver em Portugal desde 1989, sabe, mais do que ninguém, da míngua em que vive por cá a literatura do seu país. Faltam tradutores, falta conhecimento do que se faz por lá. 

É uma geração que também não rompe com o passado do ponto de vista artístico. Ou seja, os autores transportam a influência, uns mais do que outros, dos já referidos Kafka e Kundera. “Inevitável”, diz. E os olhos brilham a falar do autor de O Castelo e O Processo. “Temos muito orgulho nele. Embora escrevesse em alemão, era um alemão com raízes judias de alguém que viveu em Praga e transportou essa geografia para o que criou”, salienta, contextualizando: “No início do século XX, até à I Guerra — e até mesmo à II Guerra Mundial —, tínhamos muitos alemães a viver no nosso território. Vieram no século XIV, a convite do rei de então, Carlos IV, para povoar as zonas fronteiriças onde havia apenas bosques. Ele teve um grande papel no desenvolvimento do país, e, refira-se, em homenagem de quem seria construída a célebre ponte Carlos, no centro histórico de Praga.”

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Milan Kundera dr

Tal como Kafka, Anna Almeida também é de Praga, a cidade que Kundera tão bem descreve no romance A Insustentável Leveza do Ser. “Kundera foi muito lido durante a abertura e trouxe uma grande modernidade à literatura checa.” É uma literatura muito ligada à identidade. “A nossa história foi muito conturbada, há sempre reacções muito políticas. Agora talvez menos, por causa da abertura”, sublinha, referindo um momento — o actual — que se espera de transição também na criação, reflexo de uma abertura que já conta com três décadas, mas onde permanece o sentimento de pertença a um espaço. No caso, um espaço checo e europeu.”

Falta chegar aqui esse eco. Além de Europeana, Anna saúda a “excelente tradução” de O Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek [tradução também de Lumir Nahodil para a Tinta da China, em 2012]. “Um estudo recente sobre a tradução de literatura checa para português, feito por um investigador da universidade de Praga, conclui que até ao final do século XX foi traduzida uma dúzia de obras directamente do checo para português e isso apenas graças à abertura do regime, depois de 1989”. Entre elas, obras de Vaclav Havel, o escritor e dramaturgo, Presidente responsável pela transição da Checoslováquia para a República Checa [1989-1993]. Desde então, refere Anna Almeida, o número de traduções “cresceu muito pouco, porque não há portugueses que falem checo”.

Em Leipzig, Portugal irá olhar certamente com uma atenção redobrada para a participação da República Checa. A dois anos de ser país-tema, leva a maior delegação de sempre a esta feira, onde está pelo quarto ano consecutivo. Afonso Cruz, Ana Margarida de Carvalho, João Luís Barreto Guimarães, Joana Bértholo, Luís Filipe Castro Mendes, Raquel Nobre Guerra e Valério Romão participarão em sessões de leitura e palestras, a par dos moçambicanos Lucílio Manjate e Mbate Pedro e do angolano José Eduardo Agualusa. Até domingo, 24 de Março, naquela que se quer afirmar como uma das mais vibrantes feiras da literatura europeia.