Crítica

Profjam: num game só dele

A estreia do rapper de Lisboa é uma sólida manifestação de domínio das possibilidades do hip-hop moderno.

Uma voz única no hip-hop português, um artista que ao primeiro álbum é já dono de uma linguagem sua
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Uma voz única no hip-hop português, um artista que ao primeiro álbum é já dono de uma linguagem sua NUNO ALEXANDRE

Algures a meio de À vontade ouvimos a voz de Profjam à solta, puro fluxo melódico em que as palavras não interessam transformado e encantado pelo Auto-Tune. Isto é rap? Isto é trap? Isto é pop? E o que é que isso interessa?

#FFFFFF chega com invulgares expectativas para um álbum de estreia no hip-hop português. Nos últimos meses, o rapper e cantor de Lisboa (nome no cartão de cidadão: Mário Cotrim) mudou a sua música. Aproximou-se da estética trap vinda dos Estados Unidos e chamou para si o Auto-Tune, um manipulador de voz quase omnipresente na produção pop actual, como instrumento de pleno direito. A transformação tirou do primeiro plano o hip-hop debitado e as skills tradicionais de um rapper (e Profjam tem-nas). O que ganhámos: uma voz única no hip-hop português, um artista que ao primeiro álbum é já dono de uma linguagem sua, sem paralelo — e que, além disso, apadrinha outros artistas trap e hip-hop na editora Think Music.

Voltemos a À vontade: loops meditativos (Lhast, talento gigante da nova geração do hip-hop português, assina-os), percussão, baixo fundo, rap pausado que culmina com uma homenagem à família: “Ayo mamma/ Obrigado à vida que me deste!/ Ayo pappa/ Eu sei bem quanto tu sofreste!”. O hino, a única produção não assinada por Lhast (é de Holly), mostra como o fogo de rapper de Profjam se mantém intacto, mesmo que as rimas sejam amiúde transformadas em canto processado pelo Auto-Tune. Mário Cotrim mostra especial talento para navegar pelas palavras, cruzando livremente línguas, encontrando rimas internas, justapondo referências: “se ‘tou num Fight Club, então pito [Pitt] do meu bread [Brad]/ Dread, eu tranquei o jogo e nem tenho dreads” (referência a dreadlocks, sendo que lock significa trancar).

A produção de Lhast revela-se a melhor aliada dos sonhos digitais de Mário Cotrim. Caveira e Malibu fazem gala dos seus baixos pulsantes — a segunda, com graves capazes de abanar vidros, autofesteja a revolução no som de Profjam (“Farto da conversa que mudei, mano/ É claro, puto, é facto que mudei o game, yeah/ É chato o mundo ainda ter quem se acanha”). Na zona, reflexão sobre o abuso de drogas (algo refrescante no contexto do trap e, particularmente, da Think Music), plana sobre subtilezas de teclas e ecos de vozes manipuladas. À palavra expressa uma visão espiritual (“Vi que a minha mão ‘tá ligada ao meu corpo, que ‘tá ligado à minha mind, que ‘tá ligada à minha soul, que ‘tá ligada ao Nosso Pai, que ‘tá ligado no Todo”) entre graves, sintetizadores e mais vozes dispostas em camadas. Água de coco é um sucesso com largos meses, o que se compreende: tem uma confiança pop rara, a voz filtrada pelo Auto-Tune (sempre ele), sugestões quase dancehall, o baixo e as batidas roçando-se num balanço lento.

#FFFFFF é uma sólida manifestação de domínio das possibilidades expressivas do hip-hop moderno. Beneficiaria de maior diversidade na produção, apesar das enormes possibilidades do Auto-Tune e de outros recursos de estúdio. Encontrada a linguagem, há que expandi-la. Mas uma coisa parece certa: Profjam já mudou o game do hip-hop nacional.