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Sair do Reino Unido para escapar à hostilidade do “Brexit”

Há mais de dez anos que Maria trocou a Roménia pela Inglaterra, onde se casou e teve duas filhas. O resultado do referendo do “Brexit” e as reacções dos defensores da saída da União Europeia fizeram com que se sentisse “indesejada”. “Há tanta incerteza, só queremos ir para casa.”

Alguns meses depois de o Reino Unido ter votado pela saída da União Europeia (UE), Maria encontrava-se na sala de espera do médico, num hospital londrino, quando uma senhora inglesa, mais velha, lhe disse para voltar para a Roménia, de onde nunca deveria ter saído. “És uma forasteira”, disse a mulher a Maria, que estava “muito grávida” na altura. “O teu lugar não é aqui.” Maria ficou chocada. Até àquele momento, nunca tinha sido directamente maltratada devido à sua nacionalidade. Há dez anos que vivia no Reino Unido.

Mas desde a campanha do “Brexit”, em 2016 — quando alguns defensores da saída da UE reclamaram um maior controlo da imigração por parte do Reino Unido —, Maria diz que a hostilidade para com cidadãos de países da União Europeia, tal como ela, se tornou mais comum. Aos 31 anos, Maria — que pediu para não divulgar o apelido — diz estar a preparar-se para sair de Inglaterra no final de 2019, com o marido e as duas filhas. Está cansada daquilo que descreve como xenofobia, bem como do aumento do custo de vida em Londres. “Depois do “Brexit”, todos podíamos sentir, de forma óbvia, que a nossa presença não era desejada”, afirma. “Não quero que as minhas filhas cresçam neste tipo de ambiente.” A jovem romena preocupa-se com o bullying que as filhas sofrem na escola. No ano passado, a babysitter, também romena, e a sua filha de dois anos estavam a brincar num parque quando uma mulher as acusou publicamente de serem ladras.

Ainda paira uma enorme incerteza sobre o “Brexit”, com políticos divididos entre uma variedade de opções, entre as quais a permanência na UE. Mas muitos europeus já estão a “votar com os pés” e a escolher a saída do país. Entre Junho de 2017 e Junho de 2018, 145 mil cidadãos da UE abandonaram o Reino Unido, um aumento de 18% face ao ano anterior. E o número de chegadas ao país abrandou.

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Muitos imigrantes da União Europeia, particularmente aqueles dos Estados-membros mais pobres, a Leste, como a Polónia e a Roménia, queixam-se que continuam a sentir-se indesejados. São acusados de roubar empregos aos britânicos, de provocarem uma queda dos salários — isto apesar de o desemprego ter atingido o valor mais baixo nos últimos 40 anos — e de sobrecarregarem os serviços de saúde. Os números oficiais mostram ainda que os crimes de ódio no Reino Unido atingiram valores recordes em 2018, com um aumento de quase um quinto do número de incidentes. O resultado do referendo do “Brexit” é citado como um factor relevante.

Maria chegou a Inglaterra em 2008 para trabalhar numa casa de repouso, com esperança de ganhar o suficiente para comprar um carro. Inicialmente, planeava ficar no Reino Unido durante um ano, mas depois conheceu o actual marido, também romeno, e decidiu ficar por mais tempo.

Num bom mês, diz, no trabalho que ambos têm numa empresa de mudanças, conseguem poupar cerca de 500 libras (perto de 580 euros), o suficiente para comprarem uma casa na Roménia. Vivem frugalmente num estúdio em Hampstead, Londres, com as duas filhas. Partilham com a filha mais velha uma cama de casal, grande, que ocupa a maior parte do apartamento. Há uma pequena mesa num dos cantos, onde fazem as refeições. “É muito difícil porque se uma das crianças está a chorar, acorda a outra”, diz Maria. “Não podes socializar com outras pessoas, é muito pequeno.”

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No início do “Brexit”, Maria acompanhava todas as notícias sobre o tema, mas agora estas deixam-na perplexa. “Acho que o ‘Brexit’ é uma loucura. Não creio que fosse preciso sair da União Europeia. É muito triste ver o ‘Brexit’ destruir o Reino Unido”, lamenta. “Nós temos sido afectados por esta incerteza. Há tanta incerteza, só queremos ir para casa.”