O nove que ajuda a baralhar as contas

Francesco Totti, Lionel Messi, Cesc Fàbregas, Mario Götze, Robin Van Persie ou, numa lógica de maior proximidade física e temporal, Pedro Nuno. O que têm estes futebolistas em comum? Já desempenharam (ou ainda desempenham) o papel do denominado falso nove, uma solução que está longe de ser uma tendência recente mas que parece estar a produzir cada vez mais efeitos em sentidos opostos.

O Moreirense-Benfica de domingo pode dificultar o exercício de explicar as virtudes desta equação porque não chegou a gerar os dividendos que Ivo Vieira certamente esperaria. Por força da fortíssima reacção dos “encarnados” à perda da bola e da forma astuta como impediram o adversário de utilizar o corredor central para chegar a zonas de criação, Pedro Nuno nunca conseguiu provocar a incerteza (e, no limite, o caos) na organização defensiva contrária. Por mérito do rival, andou escondido do jogo e, com isso, também o Moreirense se apagou em ataque organizado.

A estratégia vimaranense já tinha dado frutos em muitos momentos da época e a prova disso é que foi utilizada em nove partidas no campeonato, com Pedro Nuno a vestir o fato de falso nove em seis delas e Heriberto em três. Nos outros 17 jogos, o Moreirense utilizou um avançado de perfil mais fixo, maioritariamente interpretado por Nenê (12 encontros) e, ultimamente, também por David Teixeira (cinco).

Cada proposta carrega virtudes e defeitos, mas a principal mais-valia decorrente da utilização de um falso nove reside na mobilidade de um jogador que, por “tradição”, fixa mais marcações e serve mais de referência no último terço para a produção ofensiva da equipa. Um “verdadeiro” nove, tal como é encarado desde que a numeração das camisolas correspondia a uma posição claramente definida no relvado, é um avançado que faz uso do seu poder de fogo dentro (ou nas imediações) da área e que normalmente prende os centrais com um posicionamento mais alto. Por contraponto, o falso nove é geralmente um médio ofensivo que, actuando em zonas mais adiantadas, rompe com esta lógica por força dos movimentos que produz.

O sucesso ou fracasso de uma ideia também fica refém da qualidade individual dos intérpretes e, nesse sentido, é mais fácil expor o conceito recorrendo a Messi ou Fàbregas. No Barcelona de Guardiola ou na selecção espanhola de Del Bosque (em particular no Euro 2012), a capacidade que o argentino e o espanhol revelaram para, partindo do habitat do “avançado centro”, baixarem no terreno e ligarem o jogo - ou para desequilibrarem em condução de frente para a baliza - foi determinante para dinamitar a organização defensiva do rival.

Ao recuar uns metros, o falso nove só deixa duas alternativas aos centrais (ou pelo menos a um deles): ou acompanha o adversário e abre uma brecha na última linha, ou mantém o posicionamento e permite ao rival receber a bola entre linhas. E é aqui que o modelo de jogo preconizado sobe de nível, porque nos exemplos citados os extremos ou flectiam para dentro ou se mantinham abertos, em função da posição da bola, gerando uma multitude de linhas de passe difícil de contrariar. Era uma espécie de funil que enredava e desgastava o opositor até se encontrar o homem livre para fazer a diferença nos últimos metros.

Para este tipo de veneno (que, com outras nuances, já se identificara nas décadas de 1930, na Áustria de Matthias Sindelar, ou de 1950, na Hungria de Nandor Hidegkuti), muitos treinadores já encontraram o antídoto necessário, que no limite passa por uma maior proximidade entre linhas, com ou sem alterações no sistema de jogo. E esta capacidade de adaptação já gerou, ela própria, uma outra necessidade de mudança, perceptível no perfil de muitos dos avançados de topo no futebol actual.

Nessa perspectiva, o falso nove tem contribuído para depurar o nove tradicional. Basta olhar para jogadores como Luis Suárez, Roberto Firmino ou Edinson Cavani para se perceber a evolução. Goleadores com capacidade e disposição para baixarem uns metros e gerarem um futebol associativo que alarga o leque de opções disponíveis nos momentos de criação. Uma vez dentro do bloco adversário e com linhas de passe desimpedidas, é altura de a qualidade individual fazer a diferença. E com isso dar seguimento a uma cadeia de acções e reacções que, no futebol como na vida, se resumem num pensamento do físico Stephen Hawking: “A inteligência é a capacidade de nos adaptarmos à mudança.”