Inquestionável e longínqua. Assim é a União Europeia nos manuais escolares portugueses

Um estudo conduzido por um grupo de investigadores da Universidade do Porto conclui que os manuais escolares portugueses falam pouco da União Europeia, não contribuindo para a construção de um perfil crítico e activo na vida política.

O estudo olhou para cinco manuais escolares: dois de História e três de Inglês
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O estudo olhou para cinco manuais escolares: dois de História e três de Inglês Daniel Rocha

Para a geração que nasceu na União Europeia ser cidadão europeu é uma realidade inquestionável. Mas o conhecimento que a maioria dos jovens tem do projecto europeu é superficial e enviesado. Estas são as conclusões de um estudo à escala europeia que em Portugal foi conduzido por um grupo de investigadores da Universidade do Porto. Os investigadores olharam para a forma como a União Europeia é representada nos manuais escolares do ensino secundário em Portugal e concluíram que o tópico da União Europeia não só é pouco falado, como não incute nos jovens um pensamento crítico de participação cívica activa na política europeia.

“O que se tem constatado através de vários projectos desenvolvidos na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto é que os valores europeus não estão a ser disseminados nas escolas o tão desejável possível. Constata-se que existe um lapso na transmissão de conhecimento e de aquisição de conhecimento e de noção política de jovens na escola”, conta Norberto Ribeiro, investigador num pós-doutoramento na Universidade do Porto e um dos autores do estudo Aprender Sobre A União Europeia Em Tempos De Crise: livros portugueses e visões normativas da cidadania europeia.

A análise do grupo de investigadores portugueses considerou cinco manuais utilizados no ensino secundário: dois manuais do programa de História do 12.º ano, Nova Construção da História, da Asa Editores (2013) e Um Novo Tempo da História, da Porto Editora (2015) e três manuais de inglês do 11.º ano: iTEEN 11, da Areal Editores (2014), New Frontiers, da Areal Editores (2013) e Insight, da Oxford University Press (2014). “Não é uma amostra representativa”, reconhece o especialista. No entanto, acredita que ainda assim “dá para tirar uma ideia daquela que é a tendência dos tópicos abordados nos manuais”.

“Nos manuais de história, o tópico da União Europeia está presente mas de uma forma normativa”, assinala Norberto Ribeiro. “Isto é, só faz referência às datas fundadoras e aos nomes das pessoas. Recorre a uma lógica descritiva e não a uma discussão sobre o que é a União Europeia e dos desafios que enfrenta”, explica.

“Não se trata apenas de uma questão de passagem de conhecimento, mas da forma em que ele é transmitido. São conhecimentos transmitidos por outras pessoas, já mastigados, e que os alunos têm simplesmente de decorar. São os próprios alunos que sentem necessidade de ter algum tempo para poderem discutir sobre essas questões e formularem as suas opiniões relativamente à União Europeia”, completa Filipe Piedade, também investigador e autor do estudo.

Há informação mas não há debate

“Os alunos queixam-se que não têm tempo para discutir estas questões. Não se queixam de falta de informação, queixam-se de falta de tempo para trabalhar estas questões de forma individual”, conta o investigador. “São muito poucas as actividades pedagógicas que estimulem a discussão e o pensamento crítico relativamente a estas questões para que os estudantes possam explanar as suas opiniões.”

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O estudo conclui que o tratamento superficial das questões europeias afasta os jovens da participação cívica NEIL HALL/Reuters

O que forma “alunos menos reflexivos, menos críticos, com menos capacidade de formarem uma opinião sobre as coisas e, consecutivamente, com menos ética de crença. Os manuais também são objectos políticos. Esta crítica nos jovens também tem de ser treinada nas escolas”, insiste Norberto Ribeiro.

Durante o estudo, Filipe Piedade falou com estudantes sobre o conhecimento que têm acerca de questões europeias. “Os jovens sentem-se cidadãos europeus e nem sequer pensam muito sobre isso. Ou se se identificam ou não se identificam. É o que é. A maior parte deles já nasceu na União Europeia e não questiona outra realidade que não essa.”

“O Erasmus contribui para a construção de uma identidade europeia. Mas temos de ir além disso. Temos de promover uma identidade europeia e espírito crítico”, aponta Norberto Ribeiro. “Emocionalmente, [os jovens] não se relacionam com a União Europeia. E isso é causado por não compreenderem as implicações que a União Europeia tem no dia-a-dia.”

Os conteúdos reproduzidos nos manuais escolares “mostram alguns pontos negativos mas depois apresentam a União Europeia como único caminho”. “Se nem nas escolas damos espaço para formar opinião sobre a União Europeia, mesmo que até seja crítica, os alunos questionam a importância e impacto do seu voto”, defende o investigador. “A cidadania exerce-se praticando. Se os estudantes sentem que dentro da escola ninguém está interessado em ouvir a sua opinião sobre a União Europeia, obviamente que depois não se vão manifestar de outras formas”, vinca.

Espaço para reflectir 

“A recomendação essencial é a de criar espaço nos quais os alunos sintam que podem reflectir e assimilar esses conhecimentos para perceber como isso depois se manifesta no seu dia-a-dia e na sua vivência pessoal”, sugere Filipe Piedade.

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Apesar de se sentirem europeus, os jovens sentem que não são ouvidos PATRICK SEEGER

“Deve introduzir-se a discussão da dimensão europeia desde cedo. Talvez desde o ensino básico, ou até mais cedo. Alguns estudantes do ensino secundário disseram-nos que preferiam ter dado mais cedo a parte institucional, para que agora pudessem falar da União Europeia de uma forma mais crítica”, exemplifica Filipe Piedade.

“Considerando que é expectável que os estudantes portugueses sejam expostos aos tópicos europeus noutras disciplinas durante o ensino secundário, os livros de inglês devem aumentar significativamente o nível de informação fornecida aos estudantes. Por outro lado, os livros de História incluem uma quantidade significativa de conteúdo europeu”, lê-se nas conclusões do estudo. No entanto, os investigadores ressalvam que estas informações “deviam ser acompanhados por conteúdos controversos que possam contribuir para uma discussão e reflexão crítica sobre os tópicos discutidos nas aulas”. Os investigadores sugerem que se incluam mais informações sobre os instrumentos cívicos ao dispor dos jovens para a sua expressão e participação política, quer ao nível nacional quer ao nível europeu.