Moçambique: “Atenção que vem aí a malária, as febres e as diarreias”

Carlos Serra explica que a equipa de coordenação da ajuda humanitária moçambicana está a preparar um barco com roupa e alimentos não perecíveis que partirá de Maputo na sexta-feira em direcção à Beira. A ajuda só chega ao destino na semana que vem.

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Carlos Serra está na equipa que coordena a ajuda humanitária moçambicana para a cidade da Beira DR/Facebook

Tem experiência com fenómenos climáticos extremos, ou não tivesse a sua vida profissional começado com as grandes cheias de 2000. Mesmo assim, Carlos Serra, membro da equipa que está a coordenar a ajuda humanitária moçambicana para a Beira, garante que nunca viu, nem ouviu falar de um caso semelhante no seu país. “Nos meus 45 anos não me recordo nem de ter ouvido falar nem de ter presenciado, nada desta natureza”, diz ao PÚBLICO. “Hoje mesmo estive com pessoas que vieram da Beira e a descrição que eles fazem daquela madrugada é qualquer coisa de assustador.”

Publicou um vídeo nas redes sociais a pedir donativos para serem enviados para a Beira de barco desde Maputo.
Como não conseguimos fazer chegar a ajuda humanitária via terrestre e o transporte aéreo tem as suas limitações e custos, pensámos nesta solução e foi no momento certo, porque um dos nossos parceiros é o porto de Maputo, que tem tido um papel muito importante no contexto da solidariedade e da responsabilidade social, que disponibilizou de imediato as instalações, onde temos montado toda a componente de armazenamento, triagem, separação e empacotamento antes de ir para os contentores. E um dos parceiros do porto, ligado à marinha mercante, disponibilizou as embarcações para o transporte marítimo até ao porto da Beira. Onde temos o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades pronto para receber todos os bens doados.

Já recolheram muitos donativos até ao momento?
Vi várias carrinhas chegar carregadas de mantimentos, que anunciámos como prioritários numa situação de auxílio à emergência. Muita água engarrafada. Garrafões grandes de cinco litros, temos muitos alimentos não perecíveis, quantidades significativas de farinha, de arroz, temos também roupa e começam a surgir algumas coisas muito importantes, designadamente redes mosquiteiras.

Quando é que o barco poderá estar pronto para partir?
Nós vamos continuar depois, mas esta primeira operação tem de estar concluída na quinta-feira, porque a previsão de partida do barco é sexta-feira, sendo necessário aproximadamente 36 horas de viagem até à Beira.

Isso quer dizer que a ajuda só estará disponível na próxima semana?
Sim, contando com a retirada. Mas é importante também ter em consideração a ajuda que está a chegar através de outros meios. Além disso, vai ser necessária muita ajuda para os próximos tempos porque toda a base produtiva da região foi danificada. A nossa preocupação é que não haja ruptura nos stocks. E, portanto, este apoio vai chegar na hora certa.

Não se consegue chegar por terra de Maputo à Beira?
Não se consegue chegar por estrada porque a N6, na zona de Nhamatanda [província de Sofala], tem uma interrupção completa, não há como passar de viatura. Os danos nas infra-estruturas estão longe de estar levantados na totalidade, mas são danos muito consideráveis.

Que informação têm da situação na Beira?
Há dados oficiais que incidem na cidade da Beira e do Dondo e há uma referência à província de Manica, mas são dados por baixo. O Presidente afirmou que os mortos poderão ascender a mil pessoas e acredito que seja um número possível, pelo registo de testemunhos que estamos a receber. A força da água levou pessoas que desapareceram. Daqui a alguns dias teremos uma noção mais precisa do que significou isto em termos de vítimas mortais, mas estamos a falar do mais grave fenómeno climático extremo das últimas décadas. Os estragos são enormes. E não se pode falar só das mortes, mas de todas as vidas afectadas, toda a região agrícola danificada – os próximos tempos serão difíceis. E atenção que vem aí a malária, a cólera e diarreias. A seguir a um fenómeno destes, temos sempre a ameaça dessas doenças, por isso, há uma necessidade muito grande de medicamentos para fazer face a este cenário.

O Governo moçambicano tem capacidade para lidar com uma tragédia desta dimensão?
O Governo já tem alguns apoios e a promessa da entrada das forças sul-africanas, que já no passado auxiliaram. A tragédia é muito maior do que seria a nossa capacidade sozinha de resposta. Isto é mesmo uma questão de solidariedade que vai além das nossas fronteiras. Este não é um fenómeno qualquer, afectou quatro províncias, quase metade de um país. É algo que nunca antes presenciámos a esta escala. Todo o apoio é bem-vindo. E além do apoio que vem de fora, está a haver um movimento de apoio dentro do país que merece ser sublinhado.

As comunicações com as zonas afectadas estão muito difíceis, mas têm conseguido saber de como está a situação por lá?
Temos alguma informação. A nível do aeroporto internacional da Beira há comunicações, em alguns pontos da cidade também, através de uma das operadoras. O nosso movimento tem uma ligação com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades já montada, também com as estruturas governamentais.

E que notícias lhes têm chegado? Ouvimos falar de pessoas que aguardam socorro em cima de árvores, em cima de telhados…
É verídico. E atenção que as águas continuam a subir porque continua a chover – esta semana será toda uma semana de chuva. Portanto, o risco permanece alto. Vimos imagens hoje na TDM das equipas de emergência mistas, sul-africanas e moçambicanas, a retirar pessoas de árvores durante a noite. Há pessoas que ainda estão em telhados, em terrenos elevados, rodeadas de água e é preciso muito trabalho para levar essas pessoas para zonas seguras e estabelecer acampamentos. A cidade da Beira foi 90% afectada, muito património foi total ou parcialmente destruído. Não só no centro, como nos bairros da periferia. Muitos armazéns perderam os seus produtos, uma vela tornou-se um bem escasso e passou a custar muito mais dinheiro.

Na sua vida assistiu a algum fenómeno desta dimensão?
Com esta dimensão, não. Comecei a minha vida profissional com as cheias de 2000, que foram muito sérias, afectaram toda a região centro. Nessa altura tivemos alguns fenómenos próximos, mas não semelhantes. Nos meus 45 anos não me recordo, nem de ter ouvido falar, nem de ter presenciado, nada desta natureza. Hoje mesmo estive com pessoas que vieram da Beira e a descrição que eles fazem daquela madrugada é qualquer coisa de assustador, especialmente entre a meia-noite e as duas da manhã que foi o pico do ciclone.

Crianças num centro de abrigo temporário na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Os estragos na aldeia de Inhamizua, província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
A destruição provocada pelo ciclone Idai em Chiluvi, uma aldeia do distrito de Nhamatanda, no centro de Moçambique ANDRE CATUEIRA/EPA
Imagens de helicóptero mostram os estragos após a passagem do ciclone Idai na cidade da Beira, Moçambique Redes sociais/Reuters
Edifícios destruídos pelo ciclone Idai na Beira, Moçambique Redes sociais/Reuters
Os estragos na cidade da Beira, Moçambique Denis Onyodi/IFRC/EPA
Praia Nova, na cidade da Beira (Moçambique) Denis Onyodi/IFRC/EPA
Habitantes transportam os seus bens pessoais na Beira, a cidade mais afectada pela passagem do ciclone Idai em Moçambique Denis Onyodi/IFRC/EPA
Casas destruídas na Beira, Moçambique Denis Onyodi/IFRC/EPA
Habitantes de Chiluvi, uma aldeia do distrito de Nhamatanda no centro de Moçambique ANDRE CATUEIRA/EPA
Uma estrada cedeu junto à área de Miramar, na cidade da Beira (Moçambique) Denis Onyodi/IFRC/EPA
Habitantes tentam recuperar o que resta das suas casas na aldeia de Praia Nova, na cidade da Beira (Moçambique) Denis Onyodi/IFRC/EPA
Imagens aéreas da destruição em Praia Nova, Beira (Moçambique) Redes sociais/Reuters
Um carro é esmagado por um contentor na província de Sofala, no centro de Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Habitantes procuram água potável depois de o ciclone Idai ter provocado cheias na província de Sofala, no centro de Moçambique OSH ESTEY/CARE/EPA
Os escombros na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
O edifício de uma escola secundária destruído pelo ciclone Idai na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Cidade da Beira, no centro de Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Os estragos na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Crianças entre os escombros na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Habitantes estão alojados num centro de abrigo temporário na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Os estragos na aldeia de Inhamizua, província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Imagens aéreas da destruição em Praia Nova, Beira (centro de Moçambique) JOSH ESTEY/CARE/EPA
Praia Nova, Beira (centro de Moçambique) JOSH ESTEY/CARE/EPA
Habitantes em busca de água potável na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
O rasto de destruição provocado pelo ciclone Idai na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Os estragos na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Os estragos no armazém do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
Imagens aéreas da destruição que o ciclone Idai provocou no Malawi, onde pelo menos 56 pessoas morreram e 577 ficaram feridas, segundo dados oficiais Tautvydas Juskauskas/UNICEF
O estragos na cidade de Bangula, no sul do Malawi Tautvydas Juskauskas/UNICEF
Mais de 15 mil famílias ficaram desalojadas devido às cheias provocadas pelo ciclone Idai no Malawi Tautvydas Juskauskas/UNICEF
Famílias desalojadas instalam-se num centro de abrigo temporário no Malawi Rebecca Phwitiko/UNICEF
Tendas de plástico servem de refúgio temporário aos habitantes do distrito de Chikwawa, no Sul de Moçambique Rebecca Phwitiko/UNICEF
Eneless Bernard prepara uma refeição no centro de abrigo temporário montado numa escola primária do distrito de Chikwawa, no Sul de Moçambique Rebecca Phwitiko/UNICEF
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Crianças num centro de abrigo temporário na província de Sofala, Moçambique JOSH ESTEY/CARE/EPA
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