Opinião

Para que serve uma Ordem dos Psicólogos...

Este estilo despesista tem continuado na OPP e nem a passagem da troika por Portugal o fez abrandar, culminando mais recentemente num endividamento brutal com a criação da nova sede em Lisboa e com sucessivos orçamentos numa estratégia “de fuga para à frente e quem vier a seguir que feche a porta”.

Fui membro da primeira assembleia de representantes (AR) da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) entre 2010 e 2013 a convite do então bastonário Telmo Mourinho Baptista, ocupando o lugar de Secretário da Mesa da AR.

Foi nessa altura que se decidiu, sob proposta da Direção, que o cargo de bastonário deveria ser remunerado, até porque o mesmo iria ter pela frente muito trabalho a fazer, nomeadamente, em prol do reconhecimento da natureza profissional da classe e da necessidade de promover contínuas articulações com órgãos de soberania e instituições de educação, justiça, saúde, solidariedade social, entre outras, onde o saber e a prática psicológica há muito pontuavam sem que por vezes não lhe fosse dada a necessária relevância e respeito profissionais. De facto, Telmo Baptista ia para o efeito desencadear um pedido de licença sem vencimento na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação de Lisboa, onde era professor auxiliar. O vencimento bruto de professor auxiliar variava, à data, entre 3191,82 euros no primeiro escalão e 4010,23 euros no quarto escalão (dados do SNESup), a que depois se indexavam os respetivos descontos de IRS, Caixa Geral de Aposentações e ADSE.

Na minha boa fé e considerando a lógica da substituição de remuneração de uma licença sem vencimento, pensei que o então bastonário iria ganhar o mesmo que ganhava na faculdade acrescido de despesas de representação. Só mais tarde soube que o mesmo bastonário, invocando uma prerrogativa até aí completamente desconhecida, equiparou a sua função à de reitor universitário, dando um salto no salário, pelo menos do dobro, e arrastando consigo toda a Direção da OPP que assim se locupletava com vencimentos chorudos extraídos sob a forma de percentagens indexadas ao vencimento do bastonário. Foi logo nessa altura que decidi que não mais faria parte dos órgãos sociais da OPP no futuro, não abdicando, porém, de nesse mandato tudo fazer para contrariar o teor despesista, faustoso, novo-rico e quiçá bacoco “dessa OPP” que não se importava de comprar uma cadeira para o bastonário com um preço superior a 3000 euros, cobrando quotas de 144 euros/ano aos profissionais que, por vezes, não ganham mais do que o salário mínimo nacional. 

Este estilo despesista tem continuado na OPP e nem a passagem da troika por Portugal o fez abrandar, culminando mais recentemente num endividamento brutal com a criação da nova sede em Lisboa e com sucessivos orçamentos numa estratégia “de fuga para à frente e quem vier a seguir que feche a porta” aprovados em ARs para as quais votam, em maioria, os membros afetos à Direção, como foi o caso da passada quinta-feira.

A coisa é de tal maneira que até não cuidam em saber se há ilegalidades naquilo que professam. Por exemplo, o cargo de reitor não tem um vencimento estipulado, mas provem sim do vencimento da categoria profissional de quem ocupa o cargo acrescido de um complemento por ser reitor. Por isso, por exemplo no caso do primeiro bastonário, a ideia de se equiparar a reitor deveria ter em conta que ele era professor auxiliar e não catedrático e teria de ser sobre essa base salarial de professor auxiliar que seria aplicado o complemento de vencimento respeitante a ser reitor, já que assim o queria, e não sobre a de professor catedrático.

Pode-se pensar que com este texto estou a cavalgar a onda gerada pelas noticias recentes em torno da Direção da OPP e até a relançar uma candidatura para bastonário que, no passado, perdi por 42 votos. Nada disso, estou a penas a relatar factos. E, claro, estou preocupado com a Psicologia e a imagem que esta Direção da OPP dá dela. Psicólogo, professor da Escola de Psicologia da Universidade do Minho e ex-candidato a bastonário da Ordem dos Psicólogos

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico