Ciclone em Moçambique: 84 mortos confirmados, mas Nyusi fala em “mais de mil”

O último balanço oficial dava conta de 84 mortos, mas o Presidente moçambicano fala num “desastre humanitário de grandes proporções” que terá morto mais de mil pessoas. Aqui, no Zimbabwe e no Malawi, o Idai matou mais de 200 pessoas.

Fotogaleria
As condições climatéricas continuam adversas impedindo a chegada da ajuda humanitária a certas áreas afectadas ANDRE CATUEIRA/EPA
Fotogaleria
As condições climatéricas continuam adversas impedindo a chegada da ajuda humanitária a certas áreas afectadas ANDRE CATUEIRA/EPA
Fotogaleria
O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, falou em mil mortos Hannibal Hanschke
Fotogaleria
Reuters/SOCIAL MEDIA

A Beira é uma cidade gravemente ferida no meio de um mar de destruição. Diz a Cruz Vermelha que 90% da cidade foi afectada ou destruída pela passagem do ciclone Idai, que atingiu terra na quinta-feira com chuvas fortes e ventos que chegaram aos  177 quilómetros por hora. Os números oficiais da tragédia em Moçambique dão conta de 84 mortos (dados da Cruz Vermelha citados pelo Presidente Filipe Nyusi) e o chefe de Estado fala num “verdadeiro desastre humanitário de grandes proporções” cujo balanço mortal será superior, muito superior.

“Tudo indica que poderemos registar mais de mil óbitos. Mais de 100 mil pessoas correm perigo de vida”, referiu Filipe Nyusi em conferência de imprensa esta segunda-feira. “As águas do rio Pungue e Búzi transbordaram, fazendo desaparecer aldeias inteiras, isolando comunidades e, vê-se, durante os sobrevoos, corpos a flutuar. Portanto, um verdadeiro desastre humanitário de grandes proporções”, acrescentou o chefe de Estado que encurtou uma visita oficial ao reino de Essuatíni (antiga Suazilândia) por causa da tragédia.

A equipa da Cruz Vermelha internacional que sobrevoou a região diz que “a situação é terrível, a escala da devastação é enorme”. “Parece que 90% da área está completamente destruída”, adiantou Jamie LeSueur, que dirige a equipa da Cruz Vermelha na Beira, citado no site da organização.

As províncias de Sofala e Manica foram as mais duramente atingidas pelos ventos ciclónicos, principalmente a de Sofala, onde se registou o maior número de mortes. As construções de materiais precários, barro e capim, não resistiram à intensidade dos ventos, e mesmo as de alvenaria foram afectadas. Telhados voaram e outros, amarfanhados em novelos de zinco, só a muito custo deixam entender a sua antiga função. As imagens aéreas dão conta de mares de lama e água estendendo-se até onde a vista alcança, com os telhados das casas que não foram levadas pela enxurrada como ilhas.

“O que me alertou foi o barulho”, afirma à reportagem da Lusa Glória Pedro, que viu as suas duas casas engolidas pela água e lama que destruíram a aldeia de Chiluvo, no centro de Moçambique. É por ali no monte Chiluvo que estão implantadas as principais torres de telecomunicações para a região centro e que não aguentaram a força dos elementos.

“Quase tudo ficou destruído. As linhas de telecomunicações foram completamente cortadas e as estradas destruídas. Algumas comunidades atingidas estão inacessíveis”, explica LeSueur. “A Beira foi duramente atingida. Mas também já nos disseram que a situação fora da cidade pode estar ainda pior”, acrescentou o chefe da equipa da Cruz Vermelha – “Uma grande barragem rebentou e cortou a última das estradas para a cidade”.

Infra-estruturas destruídas

O jornalista Marcelo Mosse escreveu na sua página de Facebook que “toda a infra-estrutura produtiva da Sofala foi arrasada” e que a estrada nacional número 6, que liga ao Zimbabué, está interrompida em vários pontos.  “A reconstrução das pontes destruídas levará tempo, assim como a reposição da electricidade e de parte do sector de telecomunicações”, refere o jornalista.

A dificuldade aumenta com o problema das telecomunicações, já que os ventos derrubaram muitas das torres das empresas telefónicas, Tmcel, Vodacom e Movitel. Se até ao sábado de manhã, a linha fixa da Tmcel ainda funcionou, desde então não há dados e voz a sair das zonas afectadas. As três empresas uniram esforços para tentar restabelecer pelo menos a transmissão de voz e conseguiram, entretando, repor algumas comunicações em bairros da Beira.

O impacto da devastação na economia moçambicana é difícil ainda de avaliar, mas garantidamente será substancial, obrigando o executivo a rever em baixa a previsão de crescimento para este ano, que é de 3,4%. O conselho de ministros deverá recomendar na reunião desta terça-feira a declaração do estado de emergência para o centro do país.

“Com vista a assegurar a rápida assistência humanitária, em bens alimentares e não alimentares, água, energia e comunicações, o Governo mobilizou vários meios aéreos, estamos a falar de helicópteros, aviões”, garantiu o chefe de Estado moçambicano, que contactou outros Executivos da região para solicitar apoio. “Para ver se conseguimos reforçar porque de facto a dimensão das pessoas que estão à espera deste apoio é muito grande e tem de ser feito em tempo recorde para ver se conseguimos salvar grande parte das vidas”, explicou Nyusi.

O Governo da Índia disponibilizou-se ainda esta segunda-feira para prestar auxílio, enviando três navios da marinha indiana para o porto da Beira com ajuda humanitária (comida, roupas e medicamentos). Com os barcos seguem também três médicos e cinco enfermeiras. A que se juntará um navio moçambicano que deve chegar à Beira nos próximos dias, de acordo com Nyusi.

O número de feridos é de 1347 só na Beira e no Dondo, de acordo com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), que tinha esta segunda-feira um balanço inferior de mortos do Idai do número adiantado por Filipe Nyusi, citando a Cruz Vermelha. O INGC dava conta de 73 mortos.

Também a África do Sul enviou auxílio, nomeadamente meios aéreos e soldados para ajudar nas operações de busca e salvamento, enquanto a ministra das Relações Internacionais e Cooperação, Lindiwe Sisulu, apelava às organizações não-governamentais, às empresas e aos particulares sul-africanos que façam doações para os países afectados pelo ciclone, Moçambique, Malawi e Zimbabwe.

1,5 milhões de afectados

Um avião das Nações Unidas com 22 toneladas de biscoitos enriquecidos aterrou no domingo na Beira, capaz de alimentar 22 mil pessoas durante três dias. A distribuição começou a ser feita esta segunda-feira através de helicóptero para os distritos de Nhamatanda e Dondo, na província de Sofala, de Nicoadala, na Zambézia, e para algumas zonas da província de Tete.

Mas não deixam de ser migalhas na dimensão real da tragédia que terá afectado 1,5 milhões de pessoas. Na província de Sofala foram criados 28 centros de acomodação temporária (18 na cidade da Beira, capital provincial, e 10 no Dondo), onde estão actualmente cerca de 3800 pessoas alojadas. Muito mais pessoas poderão vir a precisar de socorro, tendo em conta que a situação climatérica continua adversa, com ventos e chuvas fortes, o que tem dificultado o acesso das equipas de resgate e salvamento. A previsão meteorológica aponta para a continuação de chuvas fortes.

“A prioridade é resgatar as pessoas que estão em cima das árvores, em cima das casas. Em termos logísticos, vamos ter dificuldades em fazer movimentação da assistência”, disse à televisão pública de notícias Rita Almeida, do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades de Moçambique.