Comboio Presidencial envolto em polémica acaba em 2020

Uma eventual situação de favorecimento por parte do Museu Nacional Ferroviário na cedência do comboio Presidencial ao empresário Gonçalo Castel Branco lançou suspeitas sobre um projecto que vai ter o seu fim em 2020. O empresário diz que não usufruiu de quaisquer vantagens e que até agora só perdeu dinheiro com a exploração do comboio de luxo.

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O comboio realizou desde 2016 mais viagens do que durante toda a sua vida ao serviço dos presidentes da República Martin Henrik
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O restauro da composição onde viajaram os dignitários do Estado Novo custou 1,5 milhões de euros, naturalmente financiado com fundos comunitários de 1,2 milhões de euros porque a Fundação Museu Nacional Ferroviário está tecnicamente falida, tendo vindo a acumular prejuízos nos últimos anos. O contrato assinado em 2019 com a CCDR do Centro previa que Fundação usasse depois o comboio em “passeios turístico-culturais” mediante parceiros públicos ou privados.

Em 2015, o empresário Gonçalo Castel Branco, que à data tinha como sócia Marta Sousa (mulher de Miguel Relvas) acordam com o Museu a exploração do Comboio Presidencial na linha do Douro em viagens que incluem refeições a bordo concebidas por chefs de renome e que culminavam com uma visita à Quinta do Vesúvio em Vila Nova de Foz Côa. No preçário, o bilhete mais barato para esta viagem turística, gastronómica e cultural custa 500 euros, podendo chegar aos 2000 se o cliente quiser pernoitar numa unidade hoteleira de luxo na zona da Régua.

As taxas de ocupação do Presidencial – que por não ter ar condicionado só tem circulado nos fins-de-semana de Maio e Outubro por serem os mais neutros em termos de temperatura – tem sido próxima dos cem por cento, o que levantou dúvidas sobre o mau negócio da Fundação ao ceder uma composição que geraria lucros sem outra contrapartida que não fosse um plano estratégico de marketing que Gonçalo Castel Branco realizou para o museu ferroviário.

Mais: a própria CP, que tracciona o comboio com uma das suas locomotivas, aceitou, no primeiro ano em que a composição circulou (2016), fazer um desconto de 10 mil euros na prestação do serviço de tracção (é uma locomotiva da transportadora pública que reboca as carruagens do Presidencial).

Com a crise ferroviária a agravar-se no último Verão, esta história tinha todos os ingredientes para tornar-se explosiva: Jaime Ramos, ex-presidente da Câmara do Entroncamento eleito pelo PSD e à data presidente da Fundação Museu Nacional Ferroviário (tecnicamente falida), é quem atribui o comboio (recuperado com dinheiros públicos) à empresa da mulher de Miguel Relvas para realizar um negócio de luxo.

Gonçalo Castel Branco refuta quaisquer situações de favorecimento, mas admite que as repercussões desta história nas redes sociais foram fatais para o seu projecto. Mas vai à luta: “primeiro, a Marta começou a trabalhar comigo ainda antes de casar com o Miguel Relvas e saiu da empresa seis meses depois do Presidencial ser lançado sem nunca ter ganho um euro; segundo, não houve qualquer favorecimento porque outros operadores também se mostraram interessados no comboio mas não aceitaram as condições impostas pelo Museu; terceiro, eu próprio também ainda não ganhei dinheiro com o projecto, o qual só deverá atingir o break even dentro de dois anos”.

Dada a sua especificidade como peça de museu, o Presidencial obriga a cuidados dispendiosos na sua exploração e está limitado a 8000 quilómetros por ano. Ainda assim, desde 2016 já realizou mais viagens do que durante toda a sua vida ao serviço dos presidentes da República. E já ganhou o prémio do melhor evento público do mundo

Gonçalo Castel Branco diz que a média do custo por cada edição do The Presidential está ligeiramente acima dos 200 mil euros, dos quais 90 mil euros são custos ferroviários. Já as receitas têm rondado os 161 mil euros, pelo que o projecto está ainda no vermelho.

Os pesados encargos de circulação são confirmados pela própria Fundação do Museu Nacional Ferroviário que em resposta ao PÚBLICO confirma que “a T&M suporta os custos relacionados com o cumprimento do plano de manutenção, reparação de danos ou avarias, custos de operação (aluguer de locomotiva para tracção das carruagens do comboio, tripulação, combustível e taxa de utilização da infra-estrutura), seguro de casco e vigilância do comboio quando parqueado”.

O empresário diz que poderia ganhar dinheiro se nos próximos dois anos (os últimos da vida deste projecto, que termina em 2020) pudesse realizar quatro edições, mas que só foram autorizadas duas para poupar na quilometragem do comboio. “Se tudo correr bem, vou sair sem prejuízos nem lucros, mas graças a esta experiência acabei por abrir caminho a que outros operadores possam investir no turismo ferroviário”.

O mentor do Presidencial diz que não pensou inicialmente fazer um comboio de luxo, mas que foram os elevados custos de exploração que o obrigaram a praticar preços tão elevados. E refuta as “contas astronómicas” que viu nas redes sociais sobre uma alegada facturação de 800 mil euros nas 25 viagens vezes 64 lugares (lotação do comboio) vezes 500 euros. “Desses 1600 lugares, 200 foram para jornalistas e patrocinadores (que fornecem bens e serviços a troco de lugares oferecidos), o que só dá 1400 lugares vendidos, mas nem todas as edições tiveram lotação esgotada e há ainda a descontar os 20% de comissão das agências de viagens e os impostos”. 

Gonçalo Castel Branco diz que este projecto lhe deu “muito gozo, mas nenhum lucro” e que tem outra empresa ligada à produção de eventos que lhe permite viver. “Eu podia ganhar dinheiro se explorasse barcos turísticos, mas gosto de comboios...”, lamenta. Para logo contra-atacar: “causamos incómodo aos interesses instalados no Douro pois somos os operadores de turismo ferroviário mais bem-sucedidos em termos mediáticos”. Uma alusão a Mário Ferreira, da Douro Azul, que tem um comboio turístico no Tua que ainda não conseguiu pôr em circulação.

E insiste que nunca foi favorecido na cedência do Presidencial. “Sei de concorrentes que abordaram repetidamente o Museu Ferroviário para ficar com o comboio, mas não aceitaram os pesados encargos que a sua circulação acarreta para um tão limitado número de lugares e de quilometragem”.