Compositora, cantora e guitarrista, fundadou com o marido, Ben Watt, o duo Everything But The Girl David Corio/Michael Ochs Archive/Getty Images

Tracey Thorn no planeta da adolescência

Uma mulher abre o primeiro diário e tenta encontrar-se na ausência. A rapariga que ela foi parece revelar-se pelo que não lhe acontece. Ela é Tracey Thorn, o rosto do duo Everything But The Girl, num livro de memórias sobre o que foi crescer na claustrofobia da normalidade. Another Planet acaba de sair na Grã-Bretanha, dificilmente terá edição portuguesa, mas todos andamos mais ou menos por ali.

Um dia antes da conversa agendada com o Ípsilon, Tracey Thorn deixou de ouvir. “Perdi a audição. A minha cabeça parece enorme. Quero esconder-me”, escreveu na sua crónica mais recente no Newstatesman. A compositora, cantora e guitarrista, fundadora com o marido, Ben Watt, do duo Everything But The Girl, estava em plena promoção do seu mais recente livro de memórias, Another Planet, publicado na Grã-Bretanha no final de Janeiro. Seguia de comboio quando sentiu uma dor familiar, a de um tímpano perfurado, e deixou de ser capaz de ouvir conversas; temporariamente, os seus ouvidos passaram a ser apenas sensíveis ao ruído. Conta como se lembrou do pai e de como ele preferia ficar em casa para se proteger dos barulhos das ruas, dos cafés, dos espaços públicos. Sem possibilidade de entrevista e lido o livro, seguimos Thorn na viagem inicial destas memórias, também de comboio. “Estou num comboio de regresso à minha infância, como se ela ainda existisse, tão tangível e revisitável como o lugar que deixei para trás.”

É um regresso trinta anos depois. Tracey Thorn sai de Londres em direcção ao lugar da sua adolescência atrás de um passado mais próximo “daquilo que realmente foi” do que daquilo que ela pensa que foi, como refere no prefácio. Another Planet é uma viagem geográfica e mental, em que a autora se socorre dos seus diários de infância para uma escrita sobre identidade. As respostas que encontrar serão a partir de um livro que começa por um diário onde não acontece nada. “29 de Dezembro de 1975 – Fui a St. Albans com a Debbie. Comprei um cinto. Não comprei um pulôver nem uma saia.” É a primeira entrada do primeiro diário, recebido dias antes, no Natal. Tinha 13 anos. “Continuei naquele estilo durante anos, com entradas incontáveis sobre como não comprar coisas, não ir à discoteca, não ir à escola, uma aula de piano cancelada, a não chegada do autocarro da escola. É uma vida descrita pelo que lhe falta e o que deixa de acontecer”, escreve agora, aos 56 anos, com uma pergunta muito presente: “aquilo era eu ou era o meu ambiente? Será que eu era a criança mais chata que existia, sem notar nada, experimentar nada, pensar nada ou seria isso apenas em parte a encarnação de alguma coisa no ar, alguma coisa vaga e indefinida?”

Tracey Thorn nasceu em 1962 e cresceu em Brookmans Parks, lugar a menos de uma hora de Londres, que também se definia sobretudo por aquilo que não era. Nos anos 70, os anos centrais deste livro de memórias, era como narra, “uma aldeia que não era uma aldeia. Rural mas nada rural. Uma paragem na linha [de comboio], um espaço entre as duas paisagens mais altamente cotadas – a cidade e o campo. Um território acidental, liminar, de fronteira. Uma terra no meio.” É uma descrição fundamental, uma atmosfera decisiva no modo como alguém cresce, se rebela ou não, se torna artista ou simplesmente estuda dactilografia, como era a melhor expectativa de muitos pais para as suas filhas em Brookmans Park. “Conhece o Brookmans Park, não conhece? Claro que sim, mesmo que, como eu, nunca lá tenha estado. É um dormitório em Hertfordshire, com cerca de 3.000 habitantes. A estação de comboio que vai directamente a Londres é a sua razão de ser. Protegido de um crescimento maior pela cintura verde, parece mais ou menos o mesmo de quando surgiu nos anos 1930. Em torno do aglomerado verde da vila estão algumas lojas, incluindo quatro agências imobiliárias, um cabeleireiro (Cutting It Fine) e um espaço para animais de estimação (Groomers on the Green). As casas geminadas de três assoalhadas têm relvados que sugerem os de um castelo inglês, paredes com ameias. Hoje, uma dessas casas custará três quartos de milhão. Sabem do que falo? Achei que sim.”

Num estilo claro, entre o nostálgico e o irónico, a remeter para uma poética e um universo onde se enquadram parte das letras das canções que escreveu para o duo, Tracey Thorn revela-se ao leitor enquanto se vai descobrindo e faz de Another Planet: a Teenager in Suburbia um livro diferente das suas primeiras memórias. Publicado em 2013, Bedsit Disco Queen: How I Grew Up and Tried to Be a Pop Star falava de uma rapariga recém-chegada a Londres com a ambição de se afirmar no mundo da música e percorria uma carreira até aos primeiros anos do século XX. Este segundo livro remete para um período anterior da vida de Tracey, o de alguém menos interessante, numa envolvência meio claustrofóbica, quase o inverso dos ambientes instigadores de criatividade, quase anódino, admirador de valores como os da abstinência ou da piedade, envolto numa normalidade que tanto pode ser castradora de qualquer tipo de impulso criador, como causadora de uma rebeldia que leva à fuga. Em lugares mais ou menos como este cresceram David Bowie ou David Sylvian e, um pouco mais longe, noutro continente, um dos escritores que fez desta normalidade claustrofóbica o grande tema da sua literatura: John Updike.

O gelo e o fogo

“Penso na frase de John Updike sobre tentar, na sua escrita, dar ‘o mundano na beleza que lhe é devida’, e sempre gostei dessa noção de desviar o olhar para o lugar-comum ou para o esquecido. Não há nada especialmente belo sobre o lugar de onde vim, e ainda assim o seu papel na minha vida é enorme”, diz Thorn, neste livro onde também é mais cruel em relação a si mesma, crua no modo como fala da relação familiar onde era a mais nova de três irmãos; a tensão que se foi adensando entre ela e os pais de quem se afastaria de forma quase irremediável. Sente-se algum remorso no tom com que descreve desavenças e um quase lamento murmurado pela perda de cumplicidade. Chegou a levar isso para as canções. “We’re as unalike as frost and fire”, disse numa.

Ela olha-se com a distância e o discernimento de uma adulta, capaz de ver a adolescente em conflito com uma geração que não a entende e que ela não é também capaz de entender à luz dessa juventude que parece guardada no tal lugar. É de lá que cobiça Londres, uma vida que conhece pela televisão ou em visitas breves, enquanto beija rapazes – hoje percebe que muitos eram homens já – em matinées de fim de semana ou noites de sábado. Que ingenuidade a dos adultos de então, pensa agora, incapazes de perceber o perigo; um perigo aos olhos deste tempo. É outra vez a adulta a remexer o seu passado, o início no punk não era ali. Acontecia em Londres. Ali dançava-se ao som da soul de Stevie Wonder, For Once In My Life, ou de James Brown, Get Up That Thing e o ponto alto da noite era quando “o DJ abrandava o ritmo “e a pista de dança ficava vazia, raparigas para um lado, rapazes para o outro, e esperávamos, olhando para o chão ou de forma mais resoluta sobre o ombro de qualquer rapaz que parecesse estar a aproximar-se, até que alguém pudesse murmurar, ‘Queres dançar?’.” E as canções de dançar agarrado eram sempre as mesmas, conta Thorn, If You Leave Me Now, dos Chicago, I’m Not In Love, dos 10cc, Without You, de Nilsson e a sua favorita: Misty Blue, de Dorothy Moore.
Por essa altura há outra entrada no diário: “24 de Julho - Creep convidou-me para outra vez para dançar mas eu disse que não – descobri que se chama Tim e é polícia! Yikes!!” Sobre isso, Tracey Thorn escreve: “Eu tinha treze anos e ele era um polícia. Continuo a pensar sobre o que significaria isso e o que é que isso diz acerca daquele tempo e daquele lugar.”

Arredores de Londres, anos 70, estamos sempre a ser lembrados acerca do que parece uma imensa província no meio da qual se destacava um lugar único, a grande cidade de que chegavam ecos. Apenas ecos distantes que em nada reflectiam – ou se reflectiam -- no quotidiano de rapazes e raparigas como Tracey Thorn que nada sabiam do sentimento de classe, a quem as mães não falavam de sexo, onde o interdito era mudo, invisível. Vamos sabendo dele e encontrando paralelos. Thorn tem a habilidade de criar afinidades com quem a lê enquanto caminha pelas ruas da sua aldeia ou passa mais folhas do diário. E esses pedaços de passado surgem intercalados com o presente de Thorn. No livro, a um capítulo no subúrbio sucede outro em Londres, no presente e aí o leitor também é convidado a ser cúmplice desta mulher sem que, no entanto, ela consiga ser tão eficaz como quando vai despindo camadas que cobrem a sua génese. Na paixão por Londres, falta o pathos do território mal-amado e nunca entendido onde tanto se sentia de outro planeta como eram os outros a vê-la como sendo de outro planeta, e ela num permanente sentimento de não pertença que a levou à fuga e a ser a primeira pessoa da sua família a frequentar a universidade, longe daquele lugar a que, apesar de geograficamente perto, não voltou até decidir ir atrás da sua individualidade. Às vezes encontra-a, depara-se com ela, por exemplo, numa tarde, à hora do chá. Está em Brookmans Parks, em 2016, e tudo faz sentido quando a voz de Marvin Gaye soa em Got To Give It Up. A memória de Thorn recua no tempo ao som da letra. “I used to go out to parties/ And stand around / Cause I was too nervous / To really get down.” Ela é dali, afinal. Ou às vezes é dali. Sabe que foi dali que veio e essa é a grande certeza, ainda que estranhe essa génese e tantas vezes lhe desagrade. Parece um longo conflito próximo de se apaziguar.
Lê-se Thorn e sente-se que a sua prosa tem uma melancolia muito próxima da sua música. Uma e outra têm a mesma origem, a voz é a mesma, a de um tempo e de um lugar, a de uma geração talvez com muito de comum com outras que conheceram o mesmo tipo de isolamento. Thorn conta isso sem nunca dar a entender que é um bicho raro. Ela é comum, banal, pelo menos na tal génese, e conheceu a música como quase todos na sua idade e na sua circunstância: através dos rapazes e raparigas mais velhos. Elvis Costello, The Cure, Springsteen chegavam-lhe pelo irmão mais velho, Keith, e pelo amigo How. Ouviu Patti Smith, Because The Night, e transformou-se numa heroína. E veio Lou Reed e, claro, Bowie. Soube dele num programa da Radio One, viu-o no Top of the Pops e Keith comprou o álbum Ziggy Stardust. Era capaz de cantar baixinho, sozinha, cada canção. Em 1978 foi ver os Human League e escreveu no diário “estou convencida de que David Bowie passou por mim – quase morri de emoção.”

Tracey Thorn é, em Another Planet, como cada um de nós e cada um segue-a nesse quotidiano de pouca história como quase todos os quotidianos dos adolescentes ocidentais. Nos anos setenta, oitenta, noventa, nos subúrbios com vista para a grande cidade, mas que evitam o seu contágio. “Eu vivia no que era efectivamente uma das luas do planeta de Londres”, diz Thorn que se mudou nos anos 80 precisamente para Londres e hoje acredita que crescer fora predispõe para negligenciar as falhas desse lugar central e fixar-se para sempre na sua beleza e sedução. Apaixonou-se por Londres, é apaixonada por Londres. Deixamo-la lá nesta leitura quando conhece Ben Watt e sabendo a história que vem a seguir. É pública tanto quando pode ser. Quase no fim, cita Hanif Kureishi, O Buda dos Subúrbios, “a vida seguia entediante” até que um dia... Foi a 3 de Outubro de 1981. Saiu de casa. Muitos anos mais tarde, já uma mulher adulta, mãe de três filhos crescidos, ainda conseguia adivinhar a voz do pai para a mãe “Ó Tracey. Ela é de outro planeta.”