monica jane frisell

176 teclas de brilhante pingue-pongue ao piano

Dois dos mais inventivos pianistas a orbitar hoje na proximidade do jazz, Vijay Iyer e Craig Taborn juntam-se num disco iluminado chamado The Transitory Poems. A 19 de Março, passam pela Culturgest, em Lisboa.

Não são propriamente populares, frequentes ou duradouras as ligações artísticas entre pianistas. As grandes relações disponíveis para um pianista de jazz costumam contemplar e reduzir-se a escolher entre um instrumentista de sopro, um contrabaixista e/ou um baterista. São raras as oportunidades que se apresentam para dois pianos se colocarem lado a lado, quase inexistentes no contexto de uma formação mais alargada. Mas na mente criativa de Roscoe Mitchell, pouco dada a livros de estilo, fez sentido juntar na sua Note Factory os vinte dedos de Vijay Iyer e Craig Taborn. Em Far Side (2010), Mitchell, fundador do seminal Art Ensemble of Chicago, formação que injectou uma valente dose de liberdade no jazz dos anos 60 e 70 ao tapar o fosso entre passado e futuro, imaginava um duplo quarteto (dois sopros, dois pianos, dois contrabaixos, duas baterias) que se interseccionava nas mais variadas combinações.

Craig Taborn já acompanhava os delírios autorais de Roscoe Mitchell há alguns anos quando Vijay Iyer se juntou ao grupo. E ambos já conheciam bem a linguagem de cada um. Mas faltava serem colocados lado a lado, saberem que espaço podiam ocupar nos intervalos das notas do outro, perceberem se os seus dois pianos encaixariam sem fricções excessivas ou se chocariam com estrondo e para lá de qualquer consolo possível. “Tivemos uma ligação imediata em termos estéticos e de ética de trabalho, e partilhávamos uma visão semelhante daquilo que a configuração dos dois pianos nos oferecia”, recorda Taborn ao Ípsilon. Para Vijay Iyer, essa ligação imediata traduzia-se na conclusão de que as suas linguagens eram “não tanto semelhantes, mas sobretudo compatíveis”. E Iyer ri-se ao comentar que, apesar de ser um comentário habitual classificar a sua música como sendo “matemática”, uma análise cuidada, na sua opinião, mostra que a música de Taborn será “provavelmente” mais matemática do que a sua. “Mas nunca ninguém diz isso sobre ele”, desabafa sem azedume.

Não se tratando, ainda assim, de uma competição de matemática avançada, era já evidente em Far Side (lançado em 2010, mas gravado ao vivo em 2007) o quanto a tensão a que se entregavam se ultrapassava a si mesma – um descia no tom obsessivo, o outro atirava-se para uma desenfreada queda livre, num jogo que não continha essa superação do outro, mas antes a resposta constante, articulada e imediata à proposta que emergia do segundo teclado. Essa primeira experiência seria expandida pouco depois, em 2009, a convite do compositor Derek Bermel, então em residência no Institute for Advanced Study, em Princeton, e encarregado de comissariar uma série de actividades. O isco era tão simples quanto atraente: duas noites para se apresentarem em duo, numa formação que até então nunca tinham testado.

A preparação desse concerto alongou-se por uma semana, na cave do Steinway Hall, em Nova Iorque, não tanto para alinhar peças específicas, mas para lançar as fundações para a música que acabariam por construir em palco. Desconfiado da tentação de criar diques que separem as águas entre composição e improvisação, Vijay Iyer fala de “um jogo prolongado” que se passa neste tipo de situações, que não implica tocar apenas aquilo que apetece no momento. “É preciso cultivar um sentimento por estas formas mais estendidas, que podem durar uma hora, 90 minutos, uma noite”, diz, “e em que tem de se construir o tempo todo. Não se trata apenas de nos sentarmos e tocarmos, há que ter uma sensibilidade de visão panorâmica da música que está a ser tocada para criarmos algo que funcione. O que não é realmente diferente daquilo que faz um compositor. E como somos ambos compositores, a ideia passa por trazermos para a música todo esse conhecimento e esse cuidado para o momento presente.” Ou, como lhe chama Craig Taborn de forma lapidar, “música improvisada composta espontaneamente”.

Na altura das duas apresentações em Princeton, Taborn já se encontrava a explorar um formato bastante livre, de concertos a solo totalmente improvisado, mas, novamente, com uma estratégia associada, evitando qualquer abordagem mais gratuita e aleatória. No ano seguinte, aliás, o seu magnífico álbum a solo na ECM Avenging Angel passava para disco essa abordagem. Ao aplicarem tais processos à música criada a dois, os pianistas adoptariam, fatalmente, ensinamentos fundamentais colhidos junto de Roscoe Mitchell. “A sensibilidade acerca da forma musical com que lidamos, e que implica paciência, confiança no processo e não forçar demasiado as coisas, é parte daquilo que aprendemos com o Roscoe”, realça Iyer, ao mesmo tempo que concretiza o quanto destas estratégias é desempenhado por “planos texturais e planos rítmicos, considerações de som, tom, toque, dinâmicas e contraponto”, tudo decidido no momento, com um ouvido atento aos seus próprios espasmos pianísticos e outro concentrado naquilo que é expedido pelo piano do outro lado do espelho.

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Escutaremos The Transitory Poems, o primeiro álbum que Vijay Iyer e Craig Taborn assinam em duo, a 19, na Culturgest, em Lisboa monica jane frisell

Muito daquilo que ouvimos agora na edição de The Transitory Poems, primeiro álbum que assinam em duo, e que escutaremos a 19 de Março na Culturgest, Lisboa, tem raízes nesse trabalho passado desenvolvido na Note Factory. Para lá das referidas estratégias, Taborn argumenta que será “mais simples e preciso descrever [esse legado] como um tipo de atitude ou postura na improvisação” que se descodifica na “consciência dos múltiplos fluxos de possibilidades e nos esforços para envolver dinamicamente os espaços sem sobrecarregar a música com demasiada determinação ou controlo”.

Energia de tributo

Sem surpresa, Roscoe Mitchell é, portanto, uma ausência que está sempre no rasto das notas com que Vijay Iyer e Craig Taborn vão polvilhando o espaço à sua volta. Vijay, aliás, não poupa na importância que o contacto com o saxofonista teve e tem no seu percurso. “A primeira digressão que fiz com ele, integrado num quinteto, na Primavera de 2000, mudou completamente a minha vida”, diz-nos ao telefone a partir de Nova Iorque. “Alterou o meu entendimento do piano, do que significa fazer música, daquilo que é a música – mudou todo o meu mundo.” Mas não faltam elefantes na sala da Academia Liszt, em Budapeste, onde The Transitory Poems foi gravado ao vivo em Março de 2018 – Manfred Eicher, o homem da ECM, registou ainda uma outra actuação, num clube em Oslo, mas ganhou este soberbo documento da música que os dois criaram numa magnífica e imponente sala de espectáculos, afinando-se os oito temas pela reverberação desse espaço amplo e cheio de História.

Ao voltarem a escutar as gravações, os dois aperceberam-se de que havia “uma energia de tributo” com que tinham acabado por se comprometer, numa homenagem a vários criadores fundamentais no seu percurso: os pianistas Cecil Taylor, Muhal Richard Abrams e Geri Allen, e o artista visual Jack Whitten. O desaparecimento dos três músicos num curto espaço de tempo – Abrams e Allen escassos meses antes da gravação, Taylor logo em seguida – afectaria Iyer e Taborn de forma clara, tendo ambos participado em homenagens (Iyer tocou, inclusivamente, no velório de Geri Allen) e interrompido projectos que tinham em curso com alguns deles. No caso de Cecil Taylor, um autêntico inventor de mundos para o piano jazzístico, é a ele que se deve o título do presente álbum. A expressão “poemas transitórios” foi retirada de uma entrevista em que o músico assim descrevia os seres humanos, enquanto pequenas e breves peças no imenso mapa da Natureza

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“Fomos muito directamente afectados por todas essas perdas”, reconhece Vijay. “Eram pessoas que faziam parte das nossas vidas, que foram nossos mentores, quer de uma forma directa quer na forma como tocamos, fazemos e pensamos a música. Não diria sequer que eles estavam nas nossas cabeças quando tocávamos esses concertos, mas estavam sobretudo nos nossos corações. E quando se cria música desta, temos de nos abrir a tudo isso. Era apenas uma questão de tocarmos sendo honestos com a maneira como nos sentíamos.”

E aquilo que acontece de forma clara na noite que agora designamos como The Transitory Poems é um brilhante jogo de pingue-pongue entre Iyer e Taborn, dois músicos a trocarem constantemente de papéis enquanto discorrem pelo cromatismo lírico de Life line (Seven tensions), pela incorporação de um discurso erudito tangencial a Ligeti em Shake down ou pela vertigem absoluta que toma conta de Clear monolith. “Os papéis”, garante Craig, “definem-se baseados na forma como a música se vai revelando. Estamos apenas atentos ao som e à música que fazemos e os papéis tornam-se muito claros no seu desenvolvimento. Aquilo que precisa de ser feito versus aquilo que já está a ser tratado.” Não há, portanto, atribuições prévias. As notas de um determinam as notas do outro, a harmonia de um abre espaço para a melodia do outro, o pulsar rítmico de um cria o ambiente a que o outro se pode opor ou reforçar.

Depois, é deixar que as 88 notas que cada um tem ao seu dispor encontrem maneira de se fundir numa música nova, de possibilidade quase orquestrais, em que quatro mãos manipulam as infindáveis combinações que a imaginação dos dois estica até aos mais inesperados limites. E sempre, por cima de cada segundo de música, a enorme lição de escuta e sensibilidade tomada junto de Roscoe Mitchell: o que cada um tem a dizer não é mais importante do que aquilo que tem a escutar.