Opinião

Uma defesa minimalista da Europa

Por várias que sejam as fragilidades da União Europeia, é melhor o mal menor que é tê-la.

António Barreto, em artigo de opinião no P2 do PÚBLICO (“Uma Europa longe demais”), discorreu sobre a crise existencial da Europa. A Europa já ofereceu tanto que agora já não tem mais nada de válido para oferecer. Os cidadãos já receberam tanto da Europa que nem sequer dão conta dos valores outrora sonegados e pelos quais foi preciso derramar muito sangue para serem firmados. O desinteresse da população, com expressão no crescimento da abstenção, e o aumento do voto de protesto, parecem hipotecar a Europa. O cimento da Europa está-se a despedaçar, como acontece com as pontes e viadutos sem manutenção, com vestígios da cofragem entre o betão sinalizando o perigo de desmoronamento. Nas palavras de Barreto, “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está. Oferecer aos cidadãos o que já têm, paz, liberdade e livre circulação, não parece especialmente excitante. Mobilizar os eleitores para a democracia que têm há décadas também não é emocionante. Olha-se para a Europa e não se vê o que nos possa dar de novo. Mais do mesmo é receita para desastre ou abstenção. E dá o flanco aos seus inimigos”.

Parto da asserção “[o] que é mais confrangedor é que a Europa não tem nada para oferecer, a não ser o que é e o que está”. Intuo uma ilação oposta à de Barreto: justamente, o que a Europa tem a oferecer é “o que é e o que está” – e não é pouco, toda uma cosmovisão que, a julgar pelos regimes alternativos, e descontando todas as fragilidades da União, é o que a distingue. O que a Europa oferece está tão consolidado que parece não ter valimento? Poder-se-ia ensaiar o registo contrafactual: e se a Europa perdesse o que tem, com que ficariam os cidadãos? O que seria o cenário de “não Europa?” O que seria dos valores legados pela Europa? Será difícil pressentir que a Europa da barbárie estaria ao dobrar da esquina, numa involução civilizacional?

Pode-se contrapor que é pouco para “mobilizar os eleitores” (citando Barreto). Parece indiscutível, a crer no gradual desinteresse e no alheamento pela política; a abstenção é só um sintoma. Em oposição ao pessimismo de Barreto, ofereço uma visão otimista. O legado da Europa não é de somenos importância. É todo um lastro que serve para aguentar as tempestades que têm assolado a Europa. Sem este cimento, mesmo que módico para as niilistas exigências da atualidade, não teria a Europa naufragado, mergulhada no vómito do seu próprio apocalipse?

Talvez seja um otimismo minimalista, concedo. Uma defesa da Europa, ela própria, minimalista, porque gravitando no que foi garantido e que parece ser desprezado pelos cidadãos refratários e pelos eleitores atraídos por radicalismos que abjuram a ideia cosmopolita da Europa. Eu digo que é melhor do que a alternativa. Por várias que sejam as fragilidades da União Europeia, é melhor o mal menor que é tê-la.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico