Fugir à guerra para morrer no atentado contra as mesquitas na Nova Zelândia

Algumas das vítimas puseram-se na linha de tiro para salvar outros, e conseguiram. À medida que as autoridades libertam a conta-gotas confirmações de algumas das 50 mortes, contam-se as suas histórias.

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Familiares revêem o álbum de fotografias do casamento de Ansi Alibava Karippakulam, 25 anos, uma das 50 vítimas do atentado de Chistchurch SIVARAM V/Reuters

Pais, mães, avós, filhos; cidadãos da Nova Zelândia, refugiados, recém-chegados; engenheiros, professores, desportistas, estudantes, ou simplesmente crianças: as vítimas começam a ser nomeadas pelas autoridades. Alguns tinham fugido da guerra – há 40 anos, no Afeganistão, há um ano, na Síria – e acabaram por morrer, vítimas de terrorismo, na Nova Zelândia.

Haji Daoud Nabi

A primeira vítima cujo nome foi confirmado pelas autoridades foi Haji Daoud Nabi, 71 anos. Mas antes, já os seus filhos sabiam que tinha morrido. Foi preciso ver e rever o vídeo do ataque, que o atirador transmitira em directo no Facebook e ficou disponível em várias plataformas. “Tive de andar para a frente e para trás, para a frente e para trás, mas percebi que era ele caído no chão”, contou o seu filho Yama, que no dia do ataque chegou dez minutos atrasado para a oração. No caos do momento, ao sair da mesquita, um amigo que escapou com vida disse-lhe: “o teu pai salvou-me”. Yama não percebeu que o pai morrera ao fazê-lo.

Haji Daoud Nabi fugiu do Afeganistão no final dos anos 1970, conseguindo asilo na Nova Zelândia, que descrevia como “um pedaço de paraíso”. Geria uma associação afegã e sempre ajudou novos refugiados no seu início de nova vida no país.

Tinha quatro filhos, uma filha, e nove netos.

Khaled Mustafa

Khaled Mustafa, 45 anos, e a sua família fugiram da guerra na Síria, e tinham chegado à Nova Zelândia há apenas alguns meses. Mustafa morreu no ataque. Dos seus dois filhos estavam com ele na mesquita. Hamza, de 16 anos, morreu também e Zaid, de 13, foi submetido a uma operação de seis horas.

A mulher e a filha estão em “choque total”, comentou o porta-voz de uma associação de solidariedade com a Síria, Ali Akil. A família “sobreviveu a atrocidades” na Síria e “chegaram aqui a um porto seguro, acabando por morrer do modo mais atroz”.

Mian Naeem Rashid

Mian Naeem Rashid estava na mesquita al-Noor com o seu filho de 21 anos. Tentou derrubar o atirador e ficou ferido com gravidade, acabando por morrer no hospital, disse o primeiro-ministro paquistanês – Rashid era originário de Abottabad, no Paquistão.

O país, disse o primeiro-ministro, Imram Khan, no Twitter, “está orgulhoso de Mian Naeem Rashid que morreu tentando impedir o terrorista supremacista branco e a sua coragem vai ser reconhecida com um prémio nacional”. O filho, Talha Rashid, também morreu. Rashid era professor e vivia na Nova Zelândia há dez anos.

Atta Elayyan

Atta Elayyan, 33 anos, era o guarda-redes da equipa nacional de futsal e director e accionista de uma empresa de tecnologia que ajudou a desenvolver software para telefones com o sistema Windows.

De origem palestiniana, Elayyan é descrito como muito popular tanto no desporto como na comunidade da indústria de tecnologia local. Elayyan era casado e tinha uma filha de dois anos. “Nunca vão encontrar ninguém tão humilde” escreveu um amigo, Kyle Wisnewski, no Twitter.

Ansi Alibava Karippakulam

Ansi Alibava Karippakulam, de 25 anos, do estado indiano de Kerala, estava a fazer um curso de Agronomia na Universidade Lincoln, em Christchurch. O marido, Thiruvallur Ponnath Abdul Nazar, trabalha numa empresa privada na cidade e apesar de estar também na mesquita, não foi ferido.

O casal morava na Nova Zelândia desde o ano passado. Inicialmente, pensou-se que Karippakulam poderia sobreviver – tinha sido atingida nas pernas e submetida a uma longa cirurgia. Mas acabou por não resistir. 

Husne Ara Parvin

Husne Ara Parvin, de 42 anos, tinha ido levar o marido, Farid Uddin Ahmed, que se desloca de cadeira de rodas, à parte da mesquita onde rezam os homens, antes de se dirigir para a parte das mulheres para rezar também.

Testemunhas contam que ao perceber que algo se passava, Parvin correu para o local e pôs-se em frente ao marido quando o atirador disparou, protegendo-o. O marido sobreviveu. O casal do Bangladesh emigrou nos anos 1990 para a Nova Zelândia.

Linda Armstrong

Nascida em Auckland, Linda Armstrong, 65 anos, vivia em Christchurch para estar mais próxima da filha e dos netos. Tinha um filho adoptado do Bangladesh. Quem a conhecia dizia que era “a irmã de toda a gente”.

Mucad Ibrahim

Três anos: Mucad Ibrahim é a vítima mais jovem do massacre. Estava na mesquita com o pai e o irmão, que sobreviveram; perdeu-se dos dois na confusão que se seguiu ao primeiro disparo.

Mucad Ibrahim “era vivaço e divertido, gostava de sorrir e ria muito”, descreveu o irmão mais velho, Abdi Ibrahim. Depois de dois dias dado como desaparecido, a família recebeu a confirmação das autoridades de que morreu. “A minha mãe… está a ser difícil”, disse Abdi.