Opinião

Isto é populismo

Ao transpor para o plano do discurso populista o problema do sistema bancário português, Catarina Martins em nada ajuda a compreendê-lo, muito menos resolvê-lo. Pelo contrário, o que diz apenas resulta em simplificações míopes.

Nós contra eles. Nós somos a virtude, a salvação, o futuro. Eles são o mal, o privilégio, a corrupção, o atraso. Nós somos o povo e estamos aqui em seu nome para satisfazer as suas necessidades e concretizar as suas aspirações. Eles são uma elite, uma casta apenas interessada em perpetuar-se no poder, manter benefícios, sacrificar o interesse do povo. Eles são o sistema. Nós somos o anti-sistema e queremos mudá-lo. Este é um retrato possível do discurso populista e foi possível vê-lo concretizado no caso do Novo Banco, no sábado, numa intervenção da coordenadora nacional do BE, Catarina Martins, no comício que celebrou os 20 anos do partido.

Recordemos as suas palavras ao fazer o populista contraponto de diferenciação entre o seu partido e o PS: “Essa elite teve no PS um aliado ao longo desta legislatura porque sabemos hoje que, se cada voto à esquerda protegeu as pensões e os salários, também sabemos que cada voto no PS em 2015 foi usado por António Costa para fazer sobre o sistema financeiro exactamente o mesmo que fez Passos Coelho.” E concretizou que ambos trataram de “limpar bancos com o dinheiro de todos e entregá-los limpos ao negócio de alguns”. Trazendo depois à colação o caso do Banif.

Isto para, mais uma vez, garantir que o BE esteve sempre do lado do bem: “Denunciámos os donos de Portugal e o gangsterismo financeiro, defendemos que se seguisse o rasto do dinheiro para combater a corrupção e o crime económico. (...) Todo o país ficou a saber do assalto de Dias Loureiro, Oliveira e Costa e restante núcleo duro cavaquista no caso BPN, nunca nos deslumbrámos com os prémios moderninhos dos Zeinais Bava desta vida, nunca tememos Ricardo Salgado nem nenhum dos donos disto tudo.” Ou seja, o BE sempre do lado do interesse e na defesa do povo, o PS e o PSD juntos, ao serviço de uma elite financeira.

No ambiente de campanha que já se vive e que envolve três eleições no mesmo ano, estas declarações foram tratadas apenas como discurso de campanha. E ganharam um tempero mais apurado, que cativou a espuma dos dias do jornalismo imediatista, ao serem protagonizadas por dirigentes máximos de dois partidos que estão ainda formalmente aliados por um acordo escrito no Parlamento que tem servido de base ao Governo minoritário do PS.

Foi, aliás, no patamar da campanha que a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendonça Mendes, respondeu à líder do BE, afirmando: “Em períodos eleitorais não pode valer tudo.” Mas as declarações de Catarina Martins são muito mais do que isso, são um case study da lógica discursiva populista. Tudo é permitido e tudo é colocado no passe-vite do populismo e transformado numa lógica radical de clivagem entre os bons e os maus, os honestos e os desonestos. Tudo serve para estigmatizar o outro, o adversário. Mistura-se o toucinho e o presunto. BES-GES, Banif, CGD e até BCP e BPP, tudo é um só caso, na clivagem entre os que servem o povo e os que se servem dele.

Ao transpor para o plano do discurso populista o problema do sistema bancário português, Catarina Martins em nada ajuda a compreendê-lo, muito menos resolvê-lo. Pelo contrário, o que diz apenas resulta em simplificações míopes. E a verdade é que há um problema no sistema bancário que dura há anos e que tem delapidado o país. É bom lembrarmo-nos de que no caso do BES não houve até agora apenas capitais públicos que se perderam, houve privados que ficaram sem o seu dinheiro, como provam ainda hoje os “lesados do BES”, uma situação que aconteceu anteriormente com BPP.

A gravidade do problema do sistema bancário não encontra resposta fácil — mesmo excluindo o que de eventualmente criminoso está contido nas razões da falência do BES e noutras gestões danosas. É possível que a nacionalização tivesse sido um caminho. Não tenho certezas, não só porque os buracos financeiros nos bancos privados teriam de ser exclusivamente suportados pelos orçamentos do Estado mas porque nada garante que fosse viável, num país da União Europeia, o Estado nacionalizar os bancos falidos, quando há um banco público, a CGD, que, só por si, já tem problemas que bastem. Mais correcto e inevitável me parece que os CTT no futuro terão de voltar à esfera do Estado. Não só o serviço público, porque implica com a soberania, mas também que tenha de ser encontrada uma solução para a nacionalização do património de estações de correio vendidas ao novo proprietário e agora transformadas em agências bancárias.

Uma coisa me parece garantida, se o Estado não apoiar o sistema bancário em Portugal, as consequências sobre a débil economia nacional serão gravíssimas e prenunciam o colapso de diversos sectores económicos. É por isso que o discurso populista é perigoso e tóxico.