Para levar o vinho a sério, uma Donna lisboeta descontraída

Em Lisboa, a dois passos da Avenida da Liberdade há uma nova casa de vinhos: a Donna Taça promete um ambiente descontraído com um "excelente serviço".

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Nuno Ferreira Santos

Quem sai da Avenida da Liberdade e se propõe escalar a colina até ao Campo Mártires da Pátria ou ao Jardim do Torel encontra, logo ao princípio da subida, um motivo para parar e abortar o plano, pelo menos por uns minutos. Uma montra de vidros grandes revela dezenas de garrafas de vinho, em prateleiras de madeira, ali à mão de semear. Lá ao fundo adivinham-se umas mesas e sofás. Subir a colina talvez possa esperar.

Chama-se Donna Taça esta casa de vinhos que veio ocupar um rés-do-chão da Rua do Telhal há uns dois meses e meio. “Casa de vinhos” é mesmo a expressão correcta para definir o espaço, pois o néctar é aqui levado muito a sério, embora o objectivo seja descomplicá-lo e torná-lo acessível a todos.

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“Achava que faltava um wine bar que tratasse o vinho de forma descontraída, mas com um excelente serviço”, explica Fernanda Araújo, empresária brasileira que só há quatro anos mergulhou verdadeiramente no mundo dos vinhos – e ficou fascinada. No ramo do import-export há 13 anos, Fernanda começou a interessar-se por vinhos portugueses para os comercializar no Brasil. Depois, as vindas a Lisboa tornaram-se de tal modo frequentes que pensou que o melhor seria mudar-se de vez. Um ano e meio depois abria o Donna Taça.

“Os vinhos daqui não estão em nenhum supermercado”, garante, acrescentando que já retirou uma marca de exposição quando se apercebeu que estava à venda numa grande superfície. Naquelas prateleiras da entrada estão os vinhos que se podem consumir aqui ou levar para casa. Fernanda Araújo assegura terem sido todos escolhidos a dedo por si e pela sua equipa e que, entre eles, muitos há com produções pequenas, mil a duas mil garrafas por ano.

Durante a conversa numa das mesas do fundo, banhadas por muita luz devido a duas clarabóias, a grande televisão vai passando os sucessos da música soul e um deles é Wonderful world, de Sam Cooke, em que ele arranca com a frase “Don’t know much about History”. Eis precisamente algo que Fernanda não quer que aconteça em relação aos seus vinhos. “Quando os portugueses vêm e se propõem conhecer, é fantástico”, diz, admitindo que a clientela lusa começou por se assustar ao ver tantas marcas praticamente desconhecidas e que, agora, aos poucos, já vai aparecendo mais regularmente.

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Palavra de brasileira que se diz enamorada pelo país que tem descoberto gradualmente: “Portugal tem uma riqueza e qualidade absurdas. Portugal não sabe a história que tem. Quanto mais você vai bebendo, mais se vai apaixonando. Na semana passada estive na Beira e fiquei apaixonada.”

Os vinhos que se bebem na Donna Taça passam por um processo de selecção que Fernanda Araújo diz ser criterioso, mas também os petiscos não vão à carta sem antes serem testados e aprovados. Entusiasmada, a empresária descreve um “trabalho de campo” que a levou um pouco a toda a parte em busca dos melhores queijos, presuntos, chouriços e caviar. “Todos foram escolhidos a dedo”, afiança. “O nosso cardápio vai crescendo, mas não rápido. A gente vai pescando.”

Na carta, extensíssima, os vinhos encontram-se divididos em categorias: jovens e frescos; jovens e aromáticos; encorpados; doces; fortificados; champanhes e espumantes; rosés. Um copo (ou taça, para fazer jus ao nome do bar) tanto pode custar 3,50 euros como 69 euros. Há muitas referências portuguesas, outras tantas italianas e francesas, além de propostas húngaras, austríacas e argentinas. “Se você pegar um vinho de cinco euros aqui, é um bom vinho. Se pegar um vinho de cinco euros em França, é um mau vinho”, vaticina Fernanda, que tem “vinhos para todos os preços” e, por isso, considera que ninguém se deve assustar à partida.

A par dos vinhos e petiscos (chouriço assado em álcool ou fondue de queijo, por exemplo) há obras de arte expostas nas paredes e a intenção de fazer do espaço “uma galeria um pouco mais descontraída, onde se bebe vinho de forma descontraída”, diz Fernanda. Com tanta descontracção, talvez subir a colina seja agora um tirinho. Ou não.

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