Espinho tem uma nova rota por pratos de peixe e histórias ao pé do mar

Sem Espinhas é uma rota por 17 restaurantes de 18 a 24 de Março com menus completos entre 10,50 e 20 euros. Haverá espinhas no prato, certamente, mas nenhuma retirará sabor às histórias das gentes do mar que acompanham cada receita.

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Restaurante Maragato
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Restaurante Cabana
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Praia de Espinho
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Restaurante Cabana
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Restaurante Maragato

Longe vão os tempos em que a sardinha pequena mal tinha tempo para estrebuchar na areia ao ser arrastada para a praia de Espinho em redes da xávega puxadas por vacas, tão rápida era a recolha que encaminhava o peixinho ainda fresco para a fábrica de conservas Brandão Gomes, a poucos metros de distância do areal. Fernanda Oliveira tem hoje 76 anos, mas começou a trabalhar na conserveira quando era catraia e lembra-se de aí receber a sardinha mais pequenina e brilhante, enquanto as peixeiras ficavam com a maior para exibir nas canastras às freguesas da terra.

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“Em Novembro ainda se fazia outra coisa: o meu avô, que andava nas companhas, trazia sardinha para salgar até Janeiro e Fevereiro, e nessa altura, quando não havia o que comer, púnhamo-la a demolhar dois ou três dias e depois cozíamo-la com grelos e nabo ou couve-flor”, recorda. Ainda hoje a memória lhe diz que esse prato modesto “sabia que era uma maravilha”, mas gozo maior dava-lhe o petisco que surripiava sem pudor na Brandão Gomes: “Desviávamos uma sardinha ou duas da salmoura sem o patrão dar por ela, púnhamo-las no meio do pão e molhávamo-lo naquele molho, para ficar mais molezinho. Era uma categoria de lanche.”

Só mais tarde, já após o encerramento da conserveira, em 1985, é que Fernanda viria a descobrir ter mão para talentos mais complexos. Tornou-se cozinheira no restaurante Marreta e aí dedicou 14 anos às iguarias que ajudaram a criar a reputação da casa, como arroz de marisco, carne à alentejana e caldeirada de raia. É esse último prato, aliás, que o Marreta propõe para a Rota dos Restaurantes que, de 18 a dia 24 de Março, permitirá ao público conhecer as melhores iguarias de 17 estabelecimentos locais especializados em peixe e marisco, sempre em menus completos que, integrando entrada, prato principal, sobremesa, café e bebida, se ficarão por preços totais entre os 10,50 e os 20 euros.

A iniciativa é uma estreia no âmbito do projecto Sem Espinhas, que nas três edições anteriores envolveu apenas um almoço comunitário junto à lota de Espinho, mas que em 2019 se reparte por várias iniciativas ao longo do ano, todas elas apostadas em promover a gastronomia local e o património físico ou imaterial que lhe está associado – como aquele que se expressa nas memórias de Fernanda.

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Manuel "Pepe", como é mais conhecido, é pescador, sapateiro e faz redes para a pesca

Recordações mais palpáveis são os objectos dispostos pelas paredes do restaurante Maragato, que também integra a rota Sem Espinhas. De aparência modesta, a casa tem o seu interior decorado com redes de pesca, aventais de varina e alguns documentos como o que testemunha a passagem pelas suas mesas do chef e apresentador televisivo norte-americano Anthony Bourdain. “Nem sabíamos quem ele era quando cá veio e passou-nos totalmente despercebido”, diz Carlos Gomes, o proprietário e grelhador de serviço. “Ele veio com um grupo, todos comeram e beberam sem falar para ninguém, e só depois, passados uns tempos, é que recebemos um certificado com a avaliação que o Bourdain nos deu.” O documento está emoldurado e circula pela mesa, dando a ler que o Maragato “é um restaurante humilde e familiar a apenas alguns passos do mar”, com oferta diária de “peixe fresco, assim como típicas feijoadas de chocos ou marisco, e arroz surpreendentemente fofo com polvo, marisco ou tamboril”.

O prato que Carlos Gomes escolheu para o Sem Espinhas é, no entanto, robalo, a servir grelhado, au point. Acompanha-se com batata cozida em casquinha fina, com ervilhas e cenouras firmes, com salada mista bem temperada e, em dias mais calmos, com dois dedos de conversa também, já que a equipa da casa é toda da família e não tem medo do patrão. Mãe, pai, esposa, irmã e filho, todos os parentes de Carlos têm funções no restaurante, nem que seja só a de recolher as gorjetas deixadas na mesa. Há clientes que também pedem para entrar na cozinha e ver como se prepara o peixe ou uma boa grelha, mas, aos que tenham expectativas de grandes salamaleques à mesa, o “maragato” deixa já o aviso: “Se vêm para cá à espera de serem servidos com muita etiqueta, não percam tempo.” Com o que a casa se preocupa é com a qualidade do peixe, que Carlos tenta escolher por si próprio todas as manhãs, na lota, logo uns metros abaixo. Outras vezes, quando algum pescador lhe traz uns linguados jeitosos, também os compra acabados de fisgar com o anzol, para servir no próprio dia. Truques culinários? “Não há”, assegura. “Se o peixe for bom e fresco, não é preciso grande ciência. Desde que se saiba grelhá-lo, sai sempre bem.”

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Um dos pescadores que costuma passar pelo restaurante quando a apanha se mostra generosa é António Couto, mais conhecido como Manuel “Pepe” – que é também o nome do seu super-rápido. Sim, isso mesmo: os seus dias dividem-se entre o mar, quando esse está amigo, e a loja onde faz arranjos de calçado e vende alguns pares de sapatos a quem não for de muitas modas. Sereno e de sorriso tranquilo, é pelo pátio em frente da loja que dispõe os fios de nylon com que começa a montar uma rede xávega que lhe demorará uns cinco dias a completar, tantas são as centenas de nós que tem que dispor pela trama de tresmalho. “De Abril a Outubro, quando o mar está bom, trabalho para um patrão e fico por conta dele a tratar do barco e das redes”, conta o artesão. “Mas nesta altura há pouco peixe, portanto fico-me pela loja e só saio daqui quando o mar está melhor, para fazer pesca apeada onde faz seco.”

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Enquanto a esposa toma conta do super-rápido, “Pepe” tenta a sua sorte na pescaria e, por perícia ou sorte, lá vai trazendo para casa os robalos, sargos, linguados e rodovalhos que alimentam a família. Quando há fartura e há mais peixe do que bocas em casa, percorre restaurantes como o Maragato, o Onda Mar, o Melinhos e o Cabana, que também estão na rota do Sem Espinhas e lhe ficam com o pescado mais carnudo para servir aos clientes. É uma vida ingrata? Um tanto incerta, pelo menos? Manuel não se altera. Mantém o sorriso ténue e sabido, dá mais umas laçadas seguras nos fios da rede e responde mais desafiado do que conformado: “Nunca temos certeza de como vai ser cada dia, mas, se der para ter sempre o que comer, já não falta o principal”.

Família, futebol e fado

Também foi para garantia de subsistência que a família de Patrícia Lopes começou há muitos anos a servir diárias aos operários destacados para enterrar a linha férrea de Espinho, quando se decidiu que o comboio deixaria de atravessar a cidade à superfície e passaria a circular no subsolo, como acontece desde 2008. Com o pai emigrado e a mãe a acalentar o sonho de ter um espaço próprio para servir os seus cozinhados, a jovem começou a ajudar num trabalho algo informal que, passadas duas décadas, é agora uma ocupação segura e emprega toda a família. Pelas mãos já lhe passou a Tasca do Zé (entretanto entregue à exploração por terceiros), depois o Cantinho da Ramboia (que agora tem outra gerência) e ainda a Casa da Mãe Joana, que se mantém na família sob gestão dos seus pais e também integra a rota do Sem Espinhas, com fado vadio à quarta-feira e fado profissional ao sábado. É A Fidalguinha de Espinho, contudo, que mais lhe preenche o tempo e o coração, e não só por ser proprietária desse espaço e aí cozinhar todos os dias “sem peneiras”. É que esse restaurante funciona precisamente na mesma casa que antes pertenceu aos seus avós e onde há 43 anos os seus pais se casaram.

O regresso às origens é, portanto, literal: Patrícia voltou à casa da mãe e dos avós, e retomou também o primeiro negócio da família, já que o avô tinha nesse mesmo terreno “um tasco à antiga, onde o que mais se servia era copos de vinho”. Os seus tios atendiam a clientela enquanto o avô trabalhava como alfaiate num quarto próximo e o gosto pelo negócio foi passando de geração em geração, sendo agora os mais novos que assumem as rédeas de duas casas: na da Mãe Joana, Bruna assegura a contabilidade e, na Fidalguinha, Álvaro trata da caixa, Rui está destacado para assar e Patrícia cozinha tudo o resto, com particular orgulho nas suas lulas grelhadas com molho de manteiga e alho. São elas que aí fazem regressar “muita gente da bola”, sejam jogadores do Sporting de Espinho ou vedetas nacionais, e até uma turista brasileira que, entre umas férias e outras, fica com desejos do afamado molusco e confessa: “Só de pensar nestas lulas eu já salivava!”. Outros são mais fiéis aos doces da casa, que são incomuns pelas bandas de Espinho e envolvem heresias como mousse de Oreo e folhado de maçã com chila ou de requeijão com abóbora e gelado de baunilha. “Mas não há nenhuma técnica muito rebuscada para fazer isto”, diz Patrícia. “É tudo uma questão de brio e de gosto”, defende.

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Maria Rodrigues Couto e a filha, Fátima Oliveira, ambas vendedoras de peixe

Se da família lhe ficou a mão para a cozinha, já o mesmo não se pode dizer da voz para o fado, embora se pudesse supor o contrário pelo terço que traz tatuado no dedo anelar esquerdo e cujo pontilhado combinaria bem com o traje negro das fadistas mais tradicionais. “Eu não canto. Só encanto”, revela em tom de graça. O elogio maior reserva-o para os pais, que “sempre tiveram jeito para o fado e até escrevem algumas letras”, e deixa-o também para a sobrinha Clara, que, aos dez anos, “deixa muitos de boca aberta – vê-se que já leva a coisa nas veias”.

E se houvesse congro?

Cantar, para Maria Rodrigues Couto, só os pregões com que chama a clientela para o seu carrinho de mão, agora que já não tem físico para aguentar a canastra à cabeça. Tem 72 anos e desde os 14 que vende peixe sempre na mesma esquina da Rua 16 com a 23, pelo que não mudou de poiso quando nesse mesmo sítio alguém abriu uma peixaria, daquelas com paredes, portas e janelas. Também se mantém fiel ao hábito de se levantar às seis da manhã e, quando a companha vai ao mar, espera os pescadores na praia, ainda os barcos navegam ao largo. É por isso que, em dias bons, às sete horas já tem peixe para levar a passear; quando o mar está agitado ou o Inverno cerrado, vai à lota por volta das nove e só então é que carrega o carrinho. “O que dá mais aqui em Espinho é carapau, faneca, robalo, linguados, sardinha e camarão”, avalia. “Costumo vender até à uma da tarde, mais ou menos, e depois, se o dia foi mau, o que sobra é para congelar ou dar à nora”, que a filha também é peixeira e já tem o seu pescado para amanhar.

Fátima Oliveira seguiu os passos da mãe, embora por um caminho com mais voltas: primeiro trabalhou 15 anos num restaurante; depois comprou um carrinho de mão e, para evitar concorrência com Maria, criou um circuito próprio noutra parte da cidade, mais próximo da Rua 33. Quando sai para vender, começa de casa em casa, para mostrar o pescado às clientes fixas, e depois leva o que sobrar a estabelecimentos como A Fidalguinha, a ver se lhe agradam os robalos, o carapau ou os jaquinzinhos. “Os restaurantes não são muito esquisitos. O que vai decidir se nos compram alguma coisa é se já têm peixe que chegue ou não. Picuinhas são as donas de casa, que, quanto menos percebem, mais se põem a falar”, diz Fátima. A mãe concorda, mas restringe a faixa etária: “A mocidade nova é que é a pior. Elas agora não sabem cozinhar e preferem ir ao Continente ou ao Pingo Doce, mesmo quando não percebem em que estado está o peixe ou quanto tempo ficou no congelador. Às vezes lá têm desejos de jaquinzinhos, mas querem que a gente lhes tire a tripa e tudo, como se aquela coisa pequenita não fosse para se panar inteira e comer toda!”.

A conversa segue para as opções culinárias da família, onde o peixe é sempre rei e a variedade de pratos tamanha que tanto inclui búzios e lingueirão frito em farinha, como açorda de marisco, enguias fritas em cebolada, raia de escabeche e até caldeirada de congro pelo Natal – “mas com congro bem arranjado”, que Maria diz que a cataplana “que o primeiro-ministro foi fazer à televisão não tinha jeito nenhum, com aquele sangue todo a sair da espinha do peixe!”.

Esse prato não faz parte da rota do Sem Espinhas, talvez para não envergonhar António Costa, mas Maria e Fátima acreditam que os 17 restaurantes envolvidos no projecto não deixarão o património de Espinho mal visto. “Há sempre uns melhores do que outros, mas a verdade é que os restaurantes da terra mereciam ter mais clientela, sobretudo no Inverno, já que no Verão isto dá e sobra”, diz a peixeira-mãe. “Fazem-se cá coisas jeitosas, com peixe bom e bem preparado, e o passeio também vale sempre a pena porque a cidade é bonita, por muito que agora esteja cheia de obras no sítio onde antes passava o comboio”, acrescenta a filha.

Já Fernanda Oliveira, ao recordar na janela para a praia os seus tempos na conserveira Brandão Gomes, dizia que o melhor mesmo era “combinar o peixinho com um passeio” junto ao mar. Aos que não quiserem molhar os pés ou levar areia para casa, recomenda que façam a digestão caminhando ao longo da Rua 2, que “é a melhor coisinha de Espinho”, ou apreciando a praia a partir do muro da marginal, onde terão sempre lugar para se sentar ou esticar. “É uma passagem de modelos”, diz ela, sobre esse costume local particularmente evidente aos sábados e domingos. “Uma pessoa fica ali consolada com o solinho nas costas, a ver a banda a passar. Há uns cheios de abraços e outros que mal se falam; há umas acabadas de sair do cabeleireiro e outras que metem medo; há umas de saias compridas e outras com elas bem curtas… Há para todos os gostos e feitios, é só deixá-las desfilar.”

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