Os CEEYS tocam as memórias da queda do Muro de Berlim

Os irmãos Sebastian e Daniel Selke viviam no lado oriental do Muro de Berlim quando se deu a sua queda. Agora fazem música neoclássica que lembra esses tempos. Este domingo, em Ílhavo, apresentam-na ao vivo.

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Os irmãos Sebastian e Daniel Selke Alice Bacher

Foi um desses acontecimentos que instituiu um antes e um depois. A 9 de Novembro de 1989 assistiu-se à queda do Muro de Berlim. O efeito mais óbvio foi o termo da Guerra Fria, personificada nas tensões entre Estados Unidos e União Soviética. Nesses anos da viragem dos anos 1980 para os 90, todos os olhos estavam concentrados na cidade alemã. Todos os dias havia acontecimentos latejantes, sucedendo-se focos de tensão, avanços e recuos, vividos com apreensão por quem habitava na parte ocidental do muro e na ex-República Democrática Alemã (RDA).

Era esse o caso dos irmãos Sebastian e Daniel Selke, que lançaram no ano passado um álbum que rememorava sonoramente esses tempos, na altura em que passaram trinta anos sobre a queda do muro. No ano passado estiveram em Lisboa e nas Caldas da Rainha a apresentar ao vivo esse disco, e este domingo vão fazê-lo no Laboratório das Artes Teatro Vista Alegre, em Ílhavo, incluído na programação do Acorda à Tarde. Waende, assim se chama o álbum, tenta reflectir musicalmente a forma como, nessa ocasião histórica, a vida pessoal e sociocultural dos cidadãos da ex-RDA foi transformada por esses acontecimentos e como é que se gerou essa interacção entre pessoas tão próximas e distantes.

Antes já Sebastian havia aprendido a tocar violoncelo, e o seu irmão, Daniel, piano, criando as bases para aquilo que viriam a ser os CEEYS, dupla de música neoclássica, com influências diversas, da pop ao ambientalismo, do jazz à música de câmara ou da electrónica ao minimalismo. E essas diferentes palpitações, reconhecem, já foram consequência da abertura a ocidente. “A queda do muro foi como se abrir uma caixa de Pandora”, reconheciam no ano passado, acrescentando que essa sensação de ambiguidade e de viverem entre mundos diferentes nunca mais a perderam. “Por um lado, havia a promessa do novo que iríamos encontrar, por outro, a melancolia do que iríamos perder”, diziam, justificando um som instrumental que tem qualquer coisa de nostálgico e espaçoso, mas também de orgânico e esperançoso.

Em 2016 editaram o álbum The Grunewald Church Session, que já era inspirado em memórias da infância onde cresceram, em Marzahn-Hellersdorf, nos arredores da então Berlim Oriental. Um ano depois seguiu-se o álbum Concrete Fields e no ano passado Waende. Todas as suas obras são compostas de memórias, impressões e sentimentos sobre esses tempos híbridos da queda do Muro de Berlim, como se através da música quisessem reconciliar-se com os seus tempos de juventude, para melhor apreenderem o presente e projectarem o futuro.

Musicalmente, ao longo dos anos, individualmente ou em duo, foram colaborando com músicos da mesma família estética como Ólafur Arnalds, Peter Broderick ou Nils Frahm, tudo gente que nos últimos tempos tem demonstrado que as concepções da música clássica podem coabitar livremente com as da música popular, deslocando-se nas duas direcções. O piano é, por norma, o seu instrumento de eleição, tendo a maioria estudado em conservatórios, embora também os haja intuitivos, tanto compondo álbuns da sua autoria como fazendo-o para bandas sonoras para cinema, teatro, dança ou instalações de arte.

Movimentando-se em territórios híbridos, não existindo uma nomenclatura consensual para os nomear. Neoclássicos, pós-clássicos, clássicos modernos ou clássicos indie são algumas das denominações que foram sendo lançadas para o espaço público nos últimos anos, mas nenhuma delas é suficientemente esclarecedora. Afinal, essa maleabilidade, na forma como se adaptam a diferentes territórios e diversas tipologias musicais, é perceptível pelo facto de tanto tocarem em auditórios de salas austeras ou sofisticadas como em palcos informais que partilham com grupos pop, ou instituições e galerias de arte. No fim de contas, foram arquitectando o seu próprio espaço.

É nesse cruzamento infinito que se situam os CEEYS, entre as lembranças da Berlim Ocidental e Oriental, ou entre a clássica e a pop, estabelecendo pontes entre zonas e idiomas, assumindo a complexidade do mundo, em vez de dividir, assimilar.