A “cabeça na guilhotina” de Rodrigo Francisco no regresso à escrita

Nove anos depois, um texto do director da Companhia de Teatro de Almada volta a estrear-se em Almada. Com encenação do próprio, Fenda é uma peça ancorada nas várias crises da vida de uma jornalista de televisão.

Fotogaleria
Fenda dr
Fotogaleria
Fenda dr
Fotogaleria
Fenda dr
Fotogaleria
Fenda dr

Emma Bovary c’est moi” (Emma Bovary sou eu), terá respondido Gustave Flaubert em tribunal, quando confrontado com as acusações de ofensa à moral e à religião decorrentes da vida que inventou para a sua protagonista em Madame Bovary. Parafraseando o autor francês, também agora Rodrigo Francisco declara “Esta Ana Catarina sou eu”. “Se quiser ser mesmo honesto comigo, eu sou esta mulher. Agora, nada desta mulher tem que ver com a minha biografia – e tudo tem que ver com a minha biografia”, baralha e volta a dar o autor e encenador de Fenda.

Ana Catarina Nunes é uma jornalista televisiva, a estrela da estação e um aparente pilar de sobriedade e integridade num universo profissional cada vez mais promíscuo e invadido pelos mandamentos do entretenimento. Os traços biográficos podem não corresponder exactamente ao percurso de Rodrigo Francisco, mas as palavras que saem da boca de Catarina poderiam, muito bem, ouvir-se num discurso do encenador.

Rodrigo escreveu duas peças dirigidas por Joaquim Benite quando era assistente de encenação do fundador da Companhia de Teatro de AlmadaQuarto Minguante (2007) e Tuning (2010). Em 2013, pouco depois da morte de Benite (que hoje dá nome ao Teatro Municipal da cidade), Francisco tomou conta das rédeas da companhia e do Festival de Almada, e as responsabilidades de manter vivo o projecto herdado do seu mentor acabaram por afastá-lo da escrita. Até agora. Até ao momento em que, numa conversa com a actriz Teresa Gafeira, esta o convenceu de que precisava de escrever. E ele percebeu que não podia fugir a essa evidência.

“Acho que o teatro português precisa de textos”, diz Rodrigo Francisco ao PÚBLICO, dias antes da estreia de Fenda no Teatro Joaquim Benite, onde estará em cena de 15 de Março a 7 de Abril. “Garrett fundou o Teatro Nacional, mas um dos desígnios era fundar também um reportório – e isso, apesar de tudo, está por fazer.” O autor e encenador culpa os anos da censura como um dos maiores obstáculos a esse propósito, mas admite que “é sempre muito mais fácil pegarmos em textos que já estão testados em países onde o teatro está muito desenvolvido e trazê-los para a realidade portuguesa”. E exemplifica com um caso muito à mão: a sua anterior encenação, Mártir, do alemão Marius von Mayenburg, “um autor notável”. “Só se formos muito artolas – e às vezes somos – é que com um texto desses ou com um Shakespeare não conseguimos fazer um bom espectáculo.”

PÚBLICO -
Foto
Fenda dr

Fenda é, por isso, “um passo arriscado”. Ou, por outras palavras, uma “grande cabeça na guilhotina”. Sem saber muito bem de onde lhe veio o impulso para escrever a história de Catarina Nunes (Maria João Abreu), desafiada por questões sentimentais (na sua relação amorosa com Winnie de Sousa, interpretada por Mina Andala), por conflitos éticos e profissionais na ligação ao empresário dos media Simão da Veiga (Diogo Dória) ou por dificuldades gritantes em gerir os afectos familiares com a mãe (um fantasma persistente) e o filho (João Farraia), é o retrato de uma mulher em contínuo sobressalto.

Por muito que Fenda toque em muitos temas “quentes”, do questionamento da verdade nos meios de comunicação social e da espectacularização das notícias ao pós-colonialismo, às crises migratórias e à vulnerabilidade da integridade à medida que se dá uma ascensão social e profissional, Rodrigo Francisco garante que não procurou fazer “uma peça sobre o que quer que fosse”. “Procurei antes fazer uma peça como não muitas vezes se faz em Portugal e como poucas vezes se faz de autores portugueses – uma peça com personagens, conflitos, um texto para os actores.” Daí que assuma uma filiação na tradição anglo-saxónica, na veia de autores clássicos como Arthur Miller ou Tennessee Williams.

A essa tradição interessa-lhe, no entanto, juntar um tom de modernidade – as câmaras invadem o palco a toda a hora, como se nada lhes pudesse, de facto, escapar. “As pessoas só se interessarão pelo teatro se acharem que o teatro tem alguma coisa que ver com as suas vidas”, justifica. “Com todos os meios disponíveis, as pessoas hoje têm acesso a tudo instantaneamente e de forma gratuita; assim sendo, porque é que alguém há-de pagar para assistir a um espectáculo de teatro?” Só no caso de a peça em cena, acredita, conseguir retirar a maiúscula da História e desembainhar uma história que se sinta deste tempo e desta gente.