Opinião

O planeta nos idos de março

Chegámos a um ponto em que o risco é tal que já não é cedo para falar disto. É talvez até um pouco tarde. Estamos já nos idos de março para o planeta.

A propósito da crónica de segunda-feira, sobre a viagem à volta do mundo, Magalhães e os espanhóis, contactou-me o meu colega historiador Ricardo Noronha para me contar a história de Panglima Awang. Quem? Panglima Awang, que se encontra nas fontes históricas com o nome de Henrique de Malaca (embora fosse provavelmente originário de Sumatra), era simplesmente o escravo (e tradutor) de Fernão de Magalhães, a quem acompanhara nas suas primeiras viagens (às ordens de Manuel I de Portugal) e sobretudo na sua última viagem (às ordens de Carlos I de Espanha) que acabaria por completar a primeira circum-navegação do globo sob o comando de Sebastião de Elcano. Após a morte em combate de Fernão de Magalhães nas atuais Filipinas, Panglima Awang deveria ser libertado da sua escravidão, mas ficou a bordo com Elcano, talvez apenas com o estatuto de intérprete, por saber malaio e provavelmente outras língua da região.

Isso coloca Panglima Awang num lugar singular da história. É que se Fernão de Magalhães, que já havia viajado pelo Índico, foi o primeiro humano a regressar a longitudes onde já tinha estado, contornando o planeta pelo lado oposto — e se Sebastião de Elcano e os seus companheiros foram os primeiros humanos a fazer uma circum-navegação completa de uma vez só quando regressaram à Península Ibérica no fim da viagem —, Panglima Awang terá sido mesmo o primeiro humano a dar a volta ao mundo e voltar ao mesmo ponto preciso onde já tinha estado, ao cruzar o estreito de Malaca. E completou portanto a sua volta quase meio planeta antes dos seus companheiros de viagem.

Uma primeira reação instintiva a estes factos históricos menos conhecidos poderia ser jocosa: polémica encerrada, Portugal e Espanha podem entregar as comemorações dos 500 anos da volta ao mundo à Malásia (ou à Indonésia, quem sabe). Mas há uma outra interpretação menos ligeira por detrás dessa primeira reação, e depois outro argumento que desponta, um argumento banal mas importante. Nas suas ramificações complexas e tensas, muito por causa da condição de escravo de Panglima Awang, e da história de subjugação de que são feitas muitas das navegações e conquistas dos europeus na Ásia, a verdade é que a existência de um Panglima Awang nos mesmos barcos onde viajavam Magalhães e Elcano nos confronta perante um facto simples: a viagem à volta do mundo é a confirmação de que o planeta é redondo, mas a coexistência de tantas origens distintas e relações assimétricas nessa viagem confirma-nos hoje que a história da humanidade é também só uma. Extremamente difícil, grande e miserável, dura e magnífica, mas só uma.

Isto pode ser facilmente caricaturado como mais um exemplo de politicamente correto ou multiculturalismo à solta ou lá o que é — se tivermos vontade que o medo das caricaturas nos impeça de avançar. A verdade é que estamos há séculos para entender a sério as consequências de o planeta ser um só, de a Terra ser um sistema ecológico único, e de a história da humanidade ser apenas uma. Nascemos e morremos uma vez apenas, temos apenas uma hipótese a desperdiçar — individual como coletivamente. Curiosamente, durante séculos essa possibilidade foi obscurecida pela crença de que o mundo ia acabar por vontade de Deus e que nesse fim do mundo revogatório a humanidade seria separada em bons e maus. No tempo de Magalhães ainda muita gente acreditava que esse fim do mundo estava para breve.

Agora que a viabilidade da vida humana na Terra está de facto em risco, alguns dos mesmos obscurantistas pretendem prosseguir como se não houvesse amanhã. É daí que nasce a política do egoísmo agora dominante em várias nações: se não há mundo para todos, então vamos fechar-nos em casa com os nossos, consumir tudo o que temos, e rejeitar qualquer preocupação com os outros seres, presentes ou futuros.

Hoje, porém, a 15 de março — nos “Idos de Março” que os romanos consideravam de todos os riscos depois do assassinato de César, mas que eram também o dia em que consideravam que era devido pagarmos as nossas dívidas —, saem à rua milhares ou milhões de jovens em mais de 100 países à volta do mundo. Eles sentem de forma mais aguda aquele facto comprovado há 500 anos e que supostamente estamos a comemorar mesmo quando o queremos monopolizar: que o mundo é só um e a história da humanidade apenas uma.

Há 200 e tal anos os filósofos do Iluminismo estavam plenamente imbuídos de que essa verdade simples era a verdade mais importante a preservar da história humana. É essa verdade que é cristalizada num texto como o ensaio de Kant sobre A História da Humanidade sob Ponto de Vista Cosmopolítico. Ou na frase final do Cândido de Voltaire, que nos diz simplesmente: “Temos de cuidar do nosso jardim.”

O problema desses filósofos, e dos políticos seus sucessores, é que atiraram a consciência cosmopolítica da humanidade para as calendas, como um sonho a ser realizado dali a muitos séculos. Era cedo para falar disso, pensavam. Agora, porém, chegámos a um ponto em que o risco é tal que já não é cedo para falar disso. É talvez até um pouco tarde. Estamos já nos idos de março para o planeta.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico