Opinião

Lembra-se dos irmãos siameses?

“O PS é permeável aos grandes interesses económicos”. No final de 2017, esta frase de Catarina Martins, em entrevista ao Expresso, irritou o PS e António Costa e demorou bastante tempo a ser digerida. Na altura, a coordenadora do BE referia-se ao recuo do Governo no corte às chamadas rendas do sector das renováveis. “O PS faz parte de um centro político em Portugal que ao longo dos tempos promoveu a promiscuidade entre grandes interesses económicos e a decisão política”, insistia. Terá sido o maior ataque que o parceiro da coligação parlamentar fez ao PS. Até agora, ao acusar o primeiro-ministro de “fazer exactamente o mesmo que fez Passos Coelho: limpar bancos com o dinheiro de todos”.

Os socialistas optaram, há dois anos, por não responder à letra, deixando Catarina Martins a falar sozinha, o que causou bastante desconforto nos sectores mais à esquerda (Manuel Alegre) e até nos mais à direita (Francisco Assis), que reclamaram uma resposta enérgica da direcção do partido. Esta semana, porém, e dado o clima de pré-campanha eleitoral que já se vive, a resposta surgiu pela via mais oficial: foi Ana Catarina Mendes, secretária-geral-adjunta, que se dirigiu aos jornalistas para avisar o BE de que “não vale tudo”. O BE, acusado há pouco tempo de “tacticismo” e de se ter “institucionalizado" por um grupo que se desvinculou do partido, não se moveu um milímetro e Mariana Mortágua e Francisco Louçã voltaram a insistir na crítica.

Muita coisa no Novo Banco merece ser criticada, é certo. O PCP também falou do assunto, mas registe-se a forma, menos simplista, da referência feira por Jerónimo Martins num comício partidário: “O Governo diz que não está a dar, está a emprestar. Pois está bem, vamos ver se não se torna em ‘emprestadado'”. O PCP, que até há bem pouco tempo usava e abusava da expressão “irmãos siameses” para se referir ao PS e ao PSD, acabou por mostrar mais elaboração na forma como atacou o parceiro de aliança parlamentar. E os números até mostram que o PCP tem sido muito mais crítico das posições dos socialistas do que o BE: de acordo com o site hemiciclo.pt, é curioso ver que o índice de aceitação de propostas do PS é muito maior por parte do BE (89%) do que por parte do PCP (61%). 

Dito isto, o BE e o PCP têm razão em criticar muitas opções relativamente ao Novo Banco. Esta semana, o próprio presidente da comissão de acompanhamento do contrato de venda do banco ao Lone Star, José Rodrigues de Jesus, deixou estarrecidos os deputados ao admitir que o Novo Banco poderia estar a vender activos ao desbarato a eventuais investidores com ligações ao próprio fundo Lone Star, que assim ganhava dinheiro de duas formas: comprava activos baratos que podia rentabilizar; e ainda encaixava dinheiro pedido ao Fundo de Resolução para compensar ‘novos’ rombos financeiros. “Eu não sei quem é o beneficiário efectivo. Em última instância, também eu posso ser sócio do Lone Star. Estou a brincar, mas no domínio do possível, podia ser. Mas podia estar a mentir neste momento”, disse no Parlamento.

Não admira, pois, que o Governo tenha dificuldades em explicar a bondade da sua operação de venda do Novo Banco ao Lone Star. E que, mesmo no PS, cresçam dúvidas sobre até que ponto o Estado saiu lesado.