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A urgência do ensino da diversidade e da inclusão

A escola tem que renegar os fundamentalismos de toda a espécie e incutir nas crianças a ideia de que é normal ser diferente, é normal cada um escolher o seu caminho (seja mudar de sexo, de religião, de nação, de cultura ou namorar quem quiser).

No mundo actual, cada vez mais globalizado, integrado e interdependente, onde as distâncias se encurtam todos os dias graças às tecnologias de transporte e de telecomunicação, onde as migrações são cada vez mais frequentes (seja por motivos económicos, de guerra ou de turismo), é fundamental que aprendamos a viver uns com os outros, cada vez mais diversos.

Nas sociedades pequenas e fechadas do passado, era fácil instituir valores comuns, culturas e regras de comportamento que todos seguiam. Mesmo assim, os conflitos existiam e havia os que não se conformavam às regras definidas.

Hoje, as sociedades são cada vez mais abertas, densificadas e plurais. Isso torna a sua gestão mais difícil.

Quando, no mesmo espaço, têm que conviver pessoas de diferentes origens culturais e nacionais, com diferentes crenças e comportamentos, é natural surgirem atritos, desconfianças e receios. Se não estivermos habituados, e ensinados, a conviver num mundo plural, o escalar da conflitualidade torna-se inevitável.

Assim, se queremos beneficiar da globalização naquilo que ela tem de bom, ao nível da oferta material acrescida, das possibilidades de deslocalização que nos permite e da troca de conhecimentos, temos que estar guarnecidos com as ferramentas de inteligência emocional adequadas, nomeadamente o respeito pelo outro, pela diferença e pela mudança.

Significa isto que é incompatível termos uma postura conservadora e vivermos numa sociedade complexa, ligada e em constante transformação.

Muitos dos conflitos a que temos assistido no mundo, nomeadamente os diferentes ataques terroristas (seja dos extremistas conservadores da direita, seja dos fundamentalistas muçulmanos), são uma consequência paradigmática dessa falta de aprendizagem do respeito pela diferença.

Assim, é imperioso que ajamos com determinação e eficácia (e precocemente) no ensino da inclusão da diversidade.

Precisamos, desesperadamente, de planos de acção, nas escolas e na sociedade civil, que promovam a aprendizagem activa da capacidade de conviver com a diferença.

Nas crianças, sabemos bem a tendência que há para a discriminação dos desiguais. Nos adultos, é conhecido o enquistamento e agravamento desses preconceitos.

Temos que actuar precocemente, mas também em continuidade, junto dos indivíduos e das famílias, para que o valor do respeito pela dignidade humana se enraíze em todos.

Esse respeito pelo outro é, obviamente, incompatível com doutrinas religiosas fundamentalistas, com preconceitos ideológicos, partidários e comportamentais.

Não podemos permitir que os homens discriminem as mulheres, que os heterossexuais discriminem os homossexuais, que a direita despreze a esquerda (ou vice-versa), que os ricos amesquinhem os pobres, que os muçulmanos diabolizem os ocidentais, que os brancos odeiem os negros, que os negros se odeiem entre si por questões étnicas, que os sunitas diabolizem os xiitas, enfim, que um sem-número de preconceitos se sobreponham à dignidade humana.

Temos que respeitar quem faz escolhas diferentes das nossas. Temos que respeitar quem se veste contra a norma, quem se comporta de forma diferente do padrão. Temos que respeitar a singularidade, a individualidade.

Isso é que é difícil. Por isso, a escola tem que ser um espaço que ensina a pluralidade, dentro do respeito pelos direitos humanos.

A escola tem que renegar os fundamentalismos de toda a espécie e tem que incutir nas crianças a ideia de que é normal ser diferente, que é normal cada um escolher o seu caminho (seja mudar de sexo, de religião, de nação, de cultura ou namorar quem quiser).

Só através desta cultura de inclusão seremos capazes de construir sociedades globais saudáveis, onde a especificidade de cada um é respeitada pelos demais, e onde se minimiza a probabilidade de surgirem bestas que querem matar (e matam) os outros só porque os outros não são iguais.