Opinião

A cidade e a metrópole

De todas as grandes cidades europeias nos chegam notícias de um problema comum: a falta de casas. Em resumo: muita procura, pouca oferta, aumento vertiginoso dos preços, os habitantes a serem expulsos para periferias cada vez mais longínquas. Por razões nada estranhas a este fenómeno, a distinção entre a cidade e o campo deixou de fazer sentido porque fora da esfera urbana já não existe quase nada. Na melhor das hipóteses, é paisagem para ser olhada à distância ou visitada nalguns dos seus recantos por quem quer viver a ilusão de que faz uma viagem ao país dos arquétipos. Mas, na maior parte, é o deserto que cresce. Aí, há vilas e aldeias que vão ficando despovoadas, muitas casas vazias — uma história de fantasmas para adultos temerários. Aquilo a que se chama hoje o interior não é senão a parte do território que fica fora das áreas metropolitanas. Torna-se então necessário fazer uma distinção entre cidade e metrópole: a cidade tem o carácter estático de espaço residencial com espessas camadas de história, passível de ser lida como um palimpsesto. Remete para a a ideia de comunidade política, herdeira da polis grega, e a sua história está ligada aos grandes sujeitos colectivos, aos grandes empreendimentos da vida artística e intelectual. Foi nela que nasceram os grandes projectos.

Aquilo a que chamamos hoje, com alguma imprecisão, “cidade histórica” é esta cidade que já não existe, foi transformada em museu e em espaços de acolhimento e diversão para os visitantes. O que existe e não pára de crescer é a metrópole (ao contrário da cidade antiga não tem muros, não há uma marca dos seus confins), atravessada por muitas linhas de fronteira e codificações sociais e culturais. A metrópole é a cidade generalizada. Rem Kolhaas, um famoso arquitecto holandês, chamou-lhe “cidade genérica”. É a cidade que está por todo o lado, mas é também o que resta depois de vastos pedaços da cidade material passarem para o espaço virtual, para o ciberespaço. Quem hoje sai de uma metrópole e vai viver para “o interior” quase sempre continua a habitar essa cidade que se estende no espaço virtual. Por isso é que algum movimento de deslocação para esse tal interior, por parte de gente aventureira, romântica ou fatigada, não tem quaisquer efeitos na paisagem humana nem no povoamento do território. Uma cidade histórica como Évora, a pouco mais de uma hora de distância de Lisboa, é um museu não por privilégio, mas por condenação: dentro dos muros tem uma vida contemplativa, fora do tempo, que proporciona ao visitante experiências singulares (diferentes daquelas que se têm, por exemplo, numa cidade histórica italiana); para além dos muros é uma terra de ninguém, nem cidade nem campo, atraída pela metrópole — Lisboa — que estende os seus braços para além dos limites visíveis, sonhando fazer parte da “cidade genérica”. A cidade genérica é ainda uma cidade? Não, por isso é que Rem Kolhaas fala de junkspace, de substâncias urbanas que são como detritos. E, no final de um ensaio–manifesto sobre a cidade-lixo, ele imagina que o fim da história da cidade está a desenrolar-se ao contrário, como a fita de um filme a rodar para trás. Escreve ele: “O centro esvazia-se, as últimas sombras deslizam para fora do plano [...], o silêncio torna-se agora mais denso por causa do vazio [...] Nós respiramos... Acabou. Eis a história da cidade. A cidade já não existe”. Aquilo a que ele chama cidade genérica é a cidade ilimitada. A cidade genérica não tem arqui-tectura, isto é, não responde a nenhum fundamento, a um princípio (archè) construtivo, nem tem aspirações ideais ou utópicas. A cidade sem arquitectura, pura espontaneidade da urbanização, é uma cidade sem confins. O espaço urbano sem arquitectura é o junkspace. Ora, a cidade, por oposição à metrópole ilimitada, representou o espaço por excelência  do conflito e da ambivalência; ela deve a sua sobrevivência ao de-lirare: isto é, ao facto de introduzir confins, limites (lirae) na fundação da urbs. A cidade tende a delirar. Em 1995, Rem Kolhaas deu um curso em Harvard, para o qual quis que o programa se chamasse “Centro de estudos do que outrora se chamava cidade”. A administração da universidade não gostou da sua proposta porque era demasiado radical.