Opinião

Augusto Cid – Uma memória

Partiu sereno. Como fora no essencial. As Causas deixou-as a nós. Como recordação ou como acicate. Assim as tome cada qual, à sua maneira, para o futuro.

Augusto Cid (1941-2019) era uma personalidade singular. Juntava a serenidade no viver do dia a dia com a paixão das grandes causas.

Sereno, era racional, tranquilo, distanciado das questões menores, sempre disponível para aceitar os outros e com eles conviver ecumenicamente.

Apaixonado, era militante, arrebatado, indomável na sua vontade de lutar e de vencer.

Foi sempre assim, também como cartoonista. Doce quando sentia dever sê-lo. Mordaz, contundente, quase virulento quando se tratava de matéria para si crucial.

Nunca foi assético, insípido, inodoro, nesse particular. Digo-o, aliás, com o à vontade de ter sido, esporadicamente, alvo do seu traço minimalista mas cortante.

Pensando nas suas causas, talvez a primeira tenha sido a da adesão incondicional a Francisco de Sá Carneiro e, por causa dele, a uma visão sobre o PPD, depois PSD, na vida nacional.

Mas, a mais forte – inseparável da primeira – foi Camarate. Deve-se-lhe muito do que foi dito e escrito sobre Camarate, ao longo de décadas. Tal como sucessivas Comissões Parlamentares de Inquérito. Tal como as conclusões da maioria dessas Comissões.

Pude testemunhar, como representante da família de António Patrício Gouveia, essa sua Causa, assim como momentos inesquecíveis de episódios únicos com alguns dos protagonistas envolvidos.

Já perto do termo do percurso intenso que foi a sua vida pôde assistir à concretização do sonho chamado estátua de D. Nuno Álvares Pereira ou São Nuno de Santa Maria, em Belém.

E, há meses e semanas apenas, pôde olhar da sua janela para esse Tejo, que a estátua contempla, com a serenidade do combatente terminados os lances maiores do seu combate.

Partiu sereno. Como fora no essencial. As Causas deixou-as a nós. Como recordação ou como acicate.

Assim as tome cada qual, à sua maneira, para o futuro.

Nós seus amigos. Nós seus admiradores.