As piadas curtas de Jimmy Carr agora em carne e osso

O cómico britânico estreia-se em Portugal numa mini-digressão com paragens em Lisboa, Braga e Porto. Traz The Best of Ultimate Gold Greatest Hits, espectáculo que se pode ver desde segunda-feira no Netflix.

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The Best of Ultimate Gold Greatest Hits é o nome do segundo especial de Jimmy Carr para o Netflix. Foi lançado esta segunda-feira e compila algumas das melhores piadas feitas pelo cómico britânico nos últimos 15 anos. E é também o espectáculo com que Jimmy Carr se estreia em Portugal, numa mini-digressão que arranca esta sexta-feira e que terá paragens em Lisboa, Braga e Porto. Quem o traz cá é a H2N, que em 2017 já organizou a actuação em Portugal do cómico Eddie Izzard no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa.

Um formato best of já é de si estranho: normalmente, um cómico de stand-up reforma o material assim que este é gravado ou lançado. Mas Carr, como tem explicado em entrevistas, crê que as pessoas não se lembram tanto de piadas específicas, mas sobretudo de como é que se sentiram depois de rirem. De resto, os espectáculos do humorista britânico não têm fio condutor, vivem de piadas curtas: não conta histórias, não reflecte sobre causas sociais nem analisa a sua vida pessoal em palco (os detalhes da sua realidade biográfica, aliás, variam de piada para piada). Faz piadas com a sua inexpressividade característica, rematando-as por vezes com o seu bizarro riso. É um formato em que qualquer tirada pode ser retirada de um contexto e posta noutro. E Carr tem muitas piadas, fruto do seu amor por jogos de linguagem e pela arte da comédia, havendo sempre uma nova ao virar da esquina se não se gostar da anterior. 

No activo desde o início do século, Carr é dos cómicos mais populares do Reino Unido, tendo-se evidenciado não só em cima dos palcos, mas também na televisão, como presença recorrente em concursos de comédia. Apresentou, por exemplo, 8 Out of 10 Cats ou The Big Fat Quiz of the Year. Ao mesmo tempo, é uma figura algo polémica, seja pelo teor das piadas ou pela vida pessoal. Em 2012, por exemplo, uma investigação do jornal The Times divulgou que estava envolvido num esquema de fuga aos impostos. David Cameron, o primeiro-ministro da altura, chegou a comentar que o que ele tinha feito era “moralmente errado” e Carr acabou por pedir desculpa e distanciar-se.

No final do ano passado, o cómico fez uma tentativa de exportar esse formato bem-sucedido no seu país para a América, com The Fix, em que equipas constituídas por cómicos como Nicole Byer, Aparna Nancherla, Nikki Glaser, Joel Kim Booster, Moshe Kasher, Ron Funches, Amanda Seales ou Sarah Schaefer tentavam encontrar soluções para problemas sérios do mundo. Era um programa de humor, mas com muito mais seriedade e factos (cada episódio tinha a participação da jornalista britânica Mona Chalabi a mostrar dados sobre o assunto em questão) do que a comédia normal de Carr. O que talvez seja a prova de que Carr não acredita no que diz em palco e de que, quando navega pelos terrenos sensíveis do “humor negro”, tem noção do que é suposto dizer-se ou não (sempre com a preocupação de sublinhar que a ideia é apenas fazer rir e que só vale a pena ir por aí se a piada for realmente boa e original). O riso deliciado após certas piadas também ajuda, bem como o facto de não se queixar constantemente de que hoje já não se pode dizer nada. No especial do Netflix há piadas bastante retrógradas sobre ciganos e pessoas trans, como se o entendimento sobre estas questões não tivesse evoluído nos últimos 15 anos.

Na sua mini-digressão portuguesa, Carr passará primeiro pela sala grande do Cinema São Jorge, em Lisboa. Tudo começa esta sexta-feira, às 19h, com uma sessão em que conversará com Ricardo Araújo Pereira sobre o livro Naked Jape: Uncovering the Hidden World of Jokes, que co-escreveu com Lucy Greeves. Depois, às 22h, terá lugar o espectáculo, que se repete no sábado, em dose dupla, às 19h e às 22h. À excepção da conversa com o cómico português, todas as outras apresentações em Lisboa já estavam esgotadas à hora em que escrevemos este texto; as sessões de domingo no Theatro Circo, em Braga, e de segunda-feira na Casa da Música, no Porto, ainda tinham lugares disponíveis.

Mas os cinco espectáculos que Jimmy Carr dará em Portugal não vão ser todos iguais: há material específico para cada um, até porque Carr é um cómico dado a interagir com o público. Na versão gravada deste espectáculo, por exemplo, fala recorrentemente para um adolescente de 18 anos que vai vê-lo com o pai. E, ao contrário de uma boa parte dos seus colegas, ele gosta que o público se intrometa. Uma noite ideal, comentou em várias entrevistas, é quando tem 70% de piadas que já foram contadas antes e 30% de material específico para o sítio onde está. E isso não se encontra no Netflix.