Reportagem

“Quem defende os polícias? Ninguém”

Sindicatos estimam que entre 4000 a 5000 polícias participaram esta quarta-feira na manifestação que terminou em frente ao Ministério da Administração Interna. Reclamam melhores condições de trabalho e a recuperação do tempo congelado.

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Polícias saíram à rua esta quarta-feira – mas não fardados Nuno Ferreira Santos
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Polícias saíram à rua esta quarta-feira – mas não fardados Nuno Ferreira Santos

“Quem defende a segurança pública? Os polícias! Quem defende os polícias? Ninguém!” Foram estas algumas das palavras de ordem gritadas de quando em quando ao longo da hora e meia de marcha que se realizou esta quarta-feira e que juntou entre quatro mil a cinco polícias – nas contas dos sindicatos. Um percurso que ligou a Direcção Nacional da PSP, na Penha de França, em Lisboa, ao Ministério da Administração Interna (MAI), na Praça do Comércio.

Parados em frente ao ministério, os agentes em protesto tinham à sua espera polícias, o corpo de intervenção e barreiras antimotim que rodeavam a entrada do MAI. “Não haverá nada que altere a ordem pública. Parece que o Governo nos confunde com terroristas, mas nós somos cidadãos ordeiros e se fazemos cumprir a lei, não seriamos nós a desrespeitá-la”, afirmou Pedro Magrinho, da Federação Nacional dos Sindicatos da Polícia. Começaram a desmobilizar cerca de meia hora depois, como estava previsto.

A federação foi um dos 11 sindicatos – existem 16 afectos à PSP - que aderiram à manifestação que não teve polícias fardados depois do tribunal ter considerado que essa situação seria ilegal. Cantou-se o hino, gritou-se que “polícia unida jamais será vencida”, ouviram-se apitos. Esta quinta-feira às 15 horas, os sindicatos entregam no MAI um memorando com as suas reivindicações, as mesmas que já tinham apresentado a 25 de Fevereiro.

Esta quarta-feira, o MAI garantiu que “mantém toda a abertura para discutir as matérias relativas às condições profissionais” dos polícias. Fonte da tutela adiantou à agência Lusa que, na semana passada, foi recebida a seu pedido a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP) e, na quinta-feira, vão ser recebidos representantes de outros quatro sindicatos.

Armando Ferreira, presidente do Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol), disse não ter qualquer informação sobre as reuniões, admitindo que pudesse haver uma actualização da informação esta quinta-feira. O dirigente sublinhou ainda que a manifestação desta quarta-feira foi um dos muitos protestos que os sindicatos prevêem organizar.

Emigrar para “ter um pé-de-meia"

Mas o que pedem as polícias? Mais condições de trabalho, perspectiva de carreira e o respeito do Governo. “Sentimo-nos completamente abandonados. Queremos que o Governo nos respeite e desbloqueie a carreira”, diz Mário, com quase 30 anos de profissão. Veio acompanhado pela mulher Fernanda e a filha mais nova, de oito meses. “Queremos que o Governo veja que estamos insatisfeitos. Quando entrei na polícia era uma alegria vir trabalhar. Hoje não”, admite.

Aponta os mesmos problemas de que tantos outros colegas se queixam. Falta de condições de trabalho, de perspectiva de carreira. “Ganho tanto como um polícia com dez anos de profissão. Desde de 2005 que a carreira está bloqueada”, aponta. O primeiro efeito do descongelamento sentiu-o em Janeiro deste ano. Com descontos feitos, afirma que o aumento não vai além dos 30 euros.

Fernanda juntou-se a ele. Sabe o que é ter o coração nas mãos. Mário foi ferido em serviço em 2014 e esteve três anos de baixa. Não quer recordar o momento em que viu a família passar-lhe em segundos pela memória. Ser mulher de um polícia, conta Fernanda, “é ter o coração 24 horas na mão”. E ter de explicar aos filhos por que o pai não está no Natal nem nos aniversários. É fazer esticar o ordenado e deixar de jantar fora.

Mário já fez o que diz que “cada vez mais colegas estão a fazer agora”. “Tirei uma licença sem vencimento para ir trabalhar na Alemanha nas obras. Ganhava cinco vezes mais. Foi para ter um pé-de-meia”, diz.

“Total desrespeito pelas forças de segurança”

Na frente da manifestação estava Helena. Filha de polícia, mulher de polícia. Está ali em defesa daqueles que ama. O marido faz serviço na zona de Lisboa, tal como o seu pai fez. Recorda que cada vez que o telefone tocava, a mãe já o atendia em lágrimas com medo. Helena também sente medo pelo marido que é polícia há 15 anos. Conta que se faz forte para não lhe falhar, tal como não quis falhar a marcha para pedir mais condições para aqueles que defendem a ordem pública.

“É difícil ver que os direitos deles não reconhecidos, não terem condições de trabalho. Há um total desrespeito pelas forças de segurança e não vemos o Governo a apoiá-los. Gostava que o Governo mudasse tudo pelo bem-estar deles”, afirma Helena. O que é tudo? “Que lhes desse melhores condições de trabalho, que não houvesse falta de carros como existe. Como podem fazer uma patrulha?”, questiona.

A marcha decorreu a passo lento, maioritariamente em silêncio. De vez em quando soavam apitos como que a querer mostrar um cartão vermelho. Ainda trouxe pessoas à janela, curiosas por ver o que se passava. Na frente, um carro branco de um dos sindicatos lançava o mote com palavras de ordem, as mesmas que se gritaram na Praça do Comércio, e embalava o caminho com a música The Show must go on”.

Duas faixas brancas mostravam bem o que reivindicam os polícias. Direito a um subsídio de risco, recuperação dos 12 anos que a carreira esteve congelada, o acesso à aposentação e à pré-aposentação.

Problemas transversais

Manuela Franco, que faz parte da direcção do Sindicato da Carreira de Chefes, espera há três anos que aceitem o pedido de pré-reforma que apresentou. Tem 58 anos de idade e é adjunta do comando da esquadra da baixa da Banheira. Está há 38 anos na PSP. Conta que muita coisa mudou desde que entrou, mas o cenário está longe de ser perfeito.

“Os problemas com as viaturas e os rádios são transversais. É muito difícil mandar alguém para uma ocorrência sem rádio e terem de usar o telemóvel pessoal para fazer contactos. Isto acontece no dia a dia”, conta. Lembra como é difícil ter de fazer decisões na hora, de responder a pedidos de ajuda de colegas, lidar com a incerteza que a profissão implica. “Fazemos o melhor”, afirma. “Os governantes não têm a noção, nunca os vi à noite num carro patrulha. Gostava de ver.”

Orlando e Mário trabalham na margem sul. Fazem parte do Sindicato Unificado da polícia. Estão quase a contar os 30 anos de profissão. Um trabalha na divisão de trânsito, o outro na formação. Ganham ambos 1200 euros. “Há 12 anos que não subimos de índice”, lamenta Orlando, que afirma estar cada vez mais preocupado com a quantidade de colegas “a receber apoio psicológico”.

“Esta não é a minha polícia”, atira ainda Orlando. Mário continua: “Entram cada vez menos efectivos.” Conta que com cada vez menos colegas são muitas as horas a mais e com isso o desânimo. “A desmotivação é total. A falta de meios gera revolta”, aponta.

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