Editorial

Façam os jovens sair à rua

Raramente neste mundo de políticos velhos e ressentidos houve tantas e tão boas razões para acreditar que a luta pelas causas colectivas e pelo futuro não está morta.

Pela primeira vez em muitos anos, os jovens, na sua maioria adolescentes, decidiram sair da sua zona de conforto e querem ir para a rua em defesa de políticas contra o aquecimento do planeta. Na próxima sexta-feira, haverá uma acção global que reunirá nas praças das cidades de 70 países uma multidão de jovens empenhada na defesa do seu futuro.

Raramente neste mundo de políticos velhos e ressentidos houve tantas e tão boas razões para acreditar que a luta pelas causas colectivas e pelo futuro não está morta. Raramente como por estes dias vimos tantos jovens mobilizarem-se por uma ideia inspiradora. Raramente como nestes dias se assistiu a uma prova tão evidente de que os jovens são capazes de olhar o mundo para lá do individualismo ou do conformismo.

O que está em curso na sequência da acção iniciada a 20 de Agosto pela jovem sueca Greta Thunberg é uma mudança esperançosa. E é por isso que custa a perceber o alheamento com que a comunidade escolar está a encarar a chegada do movimento a Portugal.

Não se esperava que por cá houvesse um apelo à participação dos jovens na manifestação anunciada para o final da semana, como a que, por exemplo, levou as autoridades escocesas a isentar de faltas escolares os jovens que queiram participar. Esperava-se, isso sim, que as escolas funcionassem como um fermento para a discussão sobre o que está em causa e motivasse os jovens a sentirem-se porta-vozes de um direito de cidadania.

Porque, afinal, o que está em causa é a construção de um sentimento de pertença, uma responsabilização pelo destino comum, e uma necessidade de acção global contra o maior desafio com que a Humanidade se confronta. Uma rubrica da educação para a cidadania que tanto falta, afinal.

Só que, para lá da saudável recepção do ministro do Ambiente a uma delegação de jovens que participa na organização, a comunidade educativa permaneceu fechada na rotina. Enquanto as manifestações de sexta-feira protagonizadas por jovens se multiplicam por toda a Europa, por cá docentes, directores escolares e pais permanecem alheados.

Ou até receosos de associar a mobilização a qualquer acto subversivo que viola o espírito do país pacato e trabalhador, o cimento da nossa estabilidade e ao mesmo tempo a cola do nosso atraso. Fazer com que os jovens se politizem e saibam que a sua cidadania é crucial não cabe nesta visão autolimitada do mundo.

É assim que o fado do desinteresse dos jovens pela política e por tudo o que tenha a ver com o bem comum se torna uma condenação.