Francisco Assis: “Houve uma vontade e um acto de silenciamento político”

Francisco Assis queixa-se de não ter sido ouvido, enquanto coordenador do Grupo Socialista na Assembleia Parlamentar Euro-Latina-Americana, a propósito do debate de urgência sobre a Venezuela. Garante que é a primeira vez que isso acontece e explica que se demitiu porque a sua dignidade pessoal e parlamentar foi posta em causa.

Francisco Assis liderou a lista do PS às eleições europeias em 2014
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Francisco Assis liderou a lista do PS às eleições europeias em 2014 Nelson Garrido

Francisco Assis demitiu-se da coordenação do grupo Socialistas & Democratas da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana. Foi o próprio grupo parlamentar a que pertence que não o autorizou a falar

Foi a primeira vez que não o deixaram falar no âmbito do parlamento Europeu?Foi a primeira vez que não me deixaram falar no âmbito de um assunto no qual tenho responsabilidade directa. Sou o coordenador — ou era — do Grupo Socialista no Eurolat, na Assembleia Parlamentar Euro-Latina-Americana. Além do mais sou presidente da delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Mercosul [Mercado Comum do Sul] e acompanhei de perto a situação na Venezuela. Até hoje, participei em todos os debates sobre a Venezuela, com a excepção de um e, sempre que havia debates, era ouvido sobre quem é que devia falar nesses debates, na minha qualidade de coordenador desse grupo socialista para a América Latina. Sem falsas modéstias, considero que sou das pessoas no Parlamento Europeu e no grupo socialista que melhor conhece a situação na Venezuela em todas as suas dimensões.

Neste debate manifestou vontade de falar? 
Só fomos informados do debate com carácter de urgência na segunda-feira à tarde e, na terça-feira de manhã, manifestei, naturalmente, a intenção de falar. Perguntei até como é que estava a ser organizado o debate e disseram-me que não podia falar e que a lista estava fechada. Isto nunca tinha acontecido. Isto é um desrespeito total pelas funções de um coordenador. Não fui sequer ouvido, contrariamente ao que é costume — foi um desrespeito por todos os procedimentos habituais.

Quem está por detrás disso? 
Não sei e não vou entrar em especulações. Fiz o que tinha que fazer, demiti-me, porque entendi que a minha dignidade pessoal e a minha dignidade enquanto parlamentar foram postas em causa. Considero este assunto encerrado, embora seja algo que reputei de grave, senão não teria tomado a decisão que tomei.

A que atribui esta situação? 
Poderei especular, mas isso são especulações íntimas. Sempre falei e desta vez não falei. Alegam que a lista estava fechada, mas isso nunca aconteceu. Há aqui várias coincidências estranhas, e não tenho dúvida que houve uma vontade deliberada de alguém, que não consigo nomear, de impedir que falasse num debate sobre a Venezuela sendo um assunto que tenho acompanhado especialmente.

O que está a dizer é que houve uma vontade deliberada de o silenciar…
Houve uma vontade de me silenciar e silenciaram-me. Houve uma vontade e um acto de silenciamento político porque eu não pude falar no debate.

 Qual é o feito que pretende com esta demissão?
A salvaguarda apenas da dignidade pessoal e parlamentar.

A sua posição crítica sobre a Venezuela é bem recebida no interior do PS? Nunca tive nenhum motivo para pensar que não fosse. Com certeza que há no PS quem se aproxime dela, quem tenha algumas reservas e, eventualmente, quem tenha uma posição diferente, mas nunca tive, até agora, qualquer problema com a expressão da minha posição no interior do Partido Socialista, nem a nível europeu, nem a nível português. Com certeza que é uma posição dura em relação ao regime, talvez me tenha destacado no passado por ter tido uma perspectiva e uma intervenção mais dura, no grupo socialista, em relação ao regime de Maduro, à tirania de Maduro, mas um grande grupo tem sensibilidades diversas e sempre convivemos bem com isso.

 A sua influência no Parlamento Europeu alterou-se depois de ter ficado fora das listas do PS às europeias? 
O papel que tenho no Parlamento Europeu é exactamente o mesmo. Não estabeleço nenhuma articulação entre isto que aconteceu e não estar na lista para as europeias. Sei que houve uma vontade clara de me silenciar e silenciaram-me. Especulo intimamente sobre quem é que está por detrás disto e quais as suas razões, mas, como não tenho provas nenhumas, não posso fazer considerações públicas sobre isso, limito-me a enunciar factos e os factos falam por si neste caso.

Continua confortável com o facto de deixar de ser eurodeputado? 
Completamente confortável com a circunstância de não ser candidato. Isso é o mais normal numa pessoa que está na vida política. Por razões políticas, não faço parte da lista, como há cinco anos, por razões políticas, encabecei a lista. É óbvio que há um discurso oficial do PS, nomeadamente sobre as questões europeias, que não é um discurso que eu subscreva, embora depois, até na substância das questões europeias, até esteja muito de acordo com tudo quanto o António Costa tem vindo a dizer.

Ana Gomes escreveu na sua conta do Twitter que Francisco Assis não foi impedindo de falar no debate sobre a Venezuela, afirmando que quem decide é o coordenador de política externa do grupo socialista. Em que é que ficamos?Neste caso, acho que não tenha sido o coordenador [de política externa a impedir-me]. Falei pessoalmente com Ana Gomes e ela solidarizou-se completamente comigo e é isso que conta.