Guilherme Duarte tem 34 anos
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Guilherme Duarte tem 34 anos Adriano Miranda
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Guilherme Duarte: “O politicamente correcto é benéfico para os humoristas”

O humorista faz-se à estrada pela segunda vez, com Só de Passagem, "um upgrade" do projecto de stand-up anterior. Em conversa com o P3, Guilherme Duarte discutiu o actual panorama do humor nacional e não escondeu surpresa com alguns comentários que recebe nas redes sociais.

Em apenas cinco anos, Guilherme Duarte escalou uma escada que vários outros colegas demoraram décadas a transpor. Aos 34 anos, o segundo espectáculo de stand-up do humorista, Só de Passagem, vai chegar a uma dezena de salas espalhadas pelo país. Neste sábado, 16 de Março, o comediante sobe pela segunda vez ao palco do Teatro Sá da Bandeira, no Porto, depois de ter esgotado a mesma sala a 2 de Março, na actuação que marcou a estreia deste novo projecto a solo. O primeiro espectáculo em Lisboa, a 18 de Março, no teatro Tivoli BBVA, também está esgotado, com Guilherme Duarte a anunciar datas extras na capital para 23 e 24 de Abril. 

O humorista não esconde o nervosismo no que diz respeito a números de espectadores, mas mostra-se mais seguro do que da primeira vez em que se aventurou em tour pelo país. “Acaba por ser um tiro no escuro. Acho sempre que o público não me quer ver e acaba por ser surpreendente [quando esgoto uma sala]. Há muita gente que tem vídeos virais e ninguém paga para os ver”, confidencia, em conversa com o P3. 

Guilherme nasceu na Buraca, Amadora, que, curiosamente, também viu nascer talentos como João Baião, António Feio e Bruno Nogueira. “Deve ser da água. Ou da droga no ar”, ri-se. “Acho que é uma coincidência, mas, para quem vem de zonas mais complicadas, o humor pode ser um escape ou uma forma de integração”, acrescenta.

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Guilherme Duarte começou a escrever textos humorísticos em 2014 ADRIANO MIRANDA

Sempre teve gosto pela leitura, mas decidiu trocar os caracteres pela linguagem dos computadores. Licenciou-se em Engenharia Informática, fez mestrado e começou a trabalhar na área. Mas depois de ter criado o blogue Por Falar Noutra Coisa — que, actualmente, soma mais de 33 milhões de visitas — percebeu que seria mais feliz a fazer os outros rir. Após concluir que os projectos humorísticos seriam suficientes para garantir a subsistência, despediu-se e decidiu dedicar-se ao humor a full-time.

Além do blogue, Guilherme Duarte tem ainda uma rubrica na Antena 3 e escreve crónicas para o Sapo. Já escreveu três livros, compilando os textos mais populares. Na televisão, faz parelha com Ricardo Cardoso no programa Falta de Chá da SIC Radical, que já vai na segunda temporada. De todos os projectos que tem em mãos, a primeira paixão permanece a mais forte: “Aquilo que me dá mais prazer é a escrita, seja para sketches ou stand-up. Na rádio, é um projecto muito recente. Ainda estou a aprender.”

“A polémica também me ajudou a crescer e a ganhar visibilidade”

Conforme ganhava popularidade nas redes sociais, as críticas às piadas multiplicavam-se. Guilherme Duarte é conhecido por responder aos insultos e, inclusivamente, seleccionar os mais engraçados para mostrar nos espectáculos ao vivo, na rubrica Coninhas Gonna Conate. Mas não esconde que, mesmo estando habituado, não deixa de se sentir perplexo com alguns dos comentários que lê nas redes sociais. “Há coisas em que sei que vou ofender muita gente, temas sensíveis, mas há assuntos em que fico surpreendido”, revela. “Ao fazer uma piada com o crossfit, não estou à espera que algum pessoal que o pratique ache que deva morrer. Podem não gostar da piada, mas ficar legitimamente ofendidos com aquilo…”

​O humorista defende que, com o surgimento das redes sociais, houve uma hipersensibilização da sociedade. Estará, então, o humor a travar uma batalha com o politicamente correcto? “Sim, está, mas acho que é uma coisa boa! Desde que não vá para o lado da censura e das páginas bloqueadas. O facto de achar que o mundo está mais fechado força-me a esticar os limites. Estou aqui para lutar contra isso. De certa forma, a polémica também me ajudou a crescer e ganhar visibilidade. Acho que a cena do politicamente correcto é benéfico para os humoristas”, atesta.

Os textos de opinião que escreve no blogue são a sua imagem de marca. Mas admite, porém, que nem sempre consegue perceber quando é que o Guilherme Duarte humorista dá lugar ao cidadão: “Ninguém sabe. Nem eu. Há textos que são deliberadamente de opinião, nos quais nem coloco comédia. Alguns, a maioria, já têm algum humor pelo meio. Não me importo de dar uma opinião contrária à minha se achar que isso tem muita piada. Desafia-me a fazer de advogado do diabo. Se estiver a falar de religião posso ‘cascar’ na Igreja ou nos ateus que acham que todos os religiosos são burros. Daí muita gente interpretar mal alguns textos e ficar surpreendida.”

Herman Enciclopédia e Gato Fedorento foram as principais fontes de inspiração nacionais. Além-fronteiras, as principais referências no mundo da comédia são George Carlin e Ricky Gervais. O americano Louis C.K  — “apesar dos escândalos sexuais”, faz questão de frisar — também entra na lista de humoristas de eleição.

Uma das coisas das quais se sente orgulhoso está relacionada com a versatilidade que imprime nas actuações e textos. “Gosto de ir aos vários espectros do humor. Existem pessoas que me associam ao humor negro porque, de vez em quando, vêem uma piada minha relacionada com um assunto mais sensível. Conto histórias da minha vida, falo muito sobre a actualidade (…), mas também sobre mim e as minhas inseguranças. Posso falar das coisas mais importantes do mundo, mas também sobre algo mundano como ir à casa de banho”, responde o humorista.

“Nunca mais existirá um Herman ou um Ricardo Araújo Pereira”

Nos últimos anos, são vários os nomes que, tal como Guilherme Duarte, têm rejuvenescido o humor nacional: Diogo Batáguas, Pedro Teixeira da Mota — que já foi entrevistado pelo P3 — e muitos outros jovens humoristas apontam a um público-alvo concentrado nas redes sociais. O antigo informático defende que a variedade contraria o monopólio que alguns artistas possuíam no passado, expressando satisfação pela maior liberdade de escolha do público nos canais digitais. “Acho que há mais público para a comédia, mas nunca mais vai voltar a existir um Raul Solnado, um Herman José ou um Ricardo Araújo Pereira, esses ‘monstros’ que têm milhões de espectadores. A televisão já não tem esse poder e, na Internet, o público está fragmentado. Ninguém consegue monopolizar o mercado e o público. Até porque é difícil aparecerem gajos com a qualidade deles, que aliaram esse talento ao timing certo.”

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Humorista fará 11 espectáculos nesta digressão ADRIANO MIRANDA

Apesar da concentração de novos talentos, Guilherme Duarte garante que é mais fácil para um humorista encontrar o seu nicho — e ir ao encontro do seu público-alvo — com a transposição do humor para o mundo digital. “Acho que é mais fácil conseguires marcar o teu território porque agora é o público que te escolhe. É difícil começar, sim. Se calhar, se tivesse aparecido dois ou três anos mais tarde, não estaria aqui. Surgi num momento em que estava a nascer uma nova geração de humoristas. Actualmente, se tens visibilidade, tens mérito.”

Só de Passagem percorre Portugal (mas não chega aos Açores)

O segundo espectáculo de stand-up a solo de Guilherme Duarte já está em andamento. E, apesar de algumas semelhanças com o anterior, assegura que as piadas do espectáculo são inteiramente originais, salvo raras excepções. 

“Quero que seja um upgrade em relação ao outro. E, sendo uma versão melhorada, quero que não seja completamente diferente. A introdução vai ser uma coisa que nunca ninguém fez, meio interactiva, meio diferente. Algo que nem sei se vai resultar. Espero que o pessoal valorize o trabalho que está envolvido. Basicamente vai ser o público a decidir o decorrer da apresentação, uma cena ao estilo do Black Mirror: Bandersnatch [filme onde o espectador tem influência na progressão do enredo].” 

As já famosas one liners [piadas curtas] e a rubrica Coninhas Gonna Conate também farão parte do espectáculo que, nas palavras do próprio, será “mais introspectivo” do que o primeiro.