Opinião

O antes e o depois do erro

O erro é uma inevitabilidade à espreita de uma oportunidade. Não se trata de perceber se vai acontecer, mas antes quando e com que frequência.

Poucos futebolistas se terão sentido momentaneamente tão pequenos como Mark Flekker naquela tarde soalheira de Fevereiro de 2018. O erro faz parte da alta competição, é certo, mas aquele erro concreto foi tão bizarro que correu mundo à velocidade das redes sociais. Sim, refiro-me àquela decisão extemporânea do guarda-redes de ir beber água no exacto momento em que o adversário se encaminhava para a sua baliza, num jogo (o Duisburgo-Ingolstadt) da segunda Liga alemã. Uma falha que pôs o resultado em risco, mas não a confiança do e no jogador.

O erro é uma inevitabilidade à espreita de uma oportunidade. Não se trata de perceber se vai acontecer, mas antes quando e com que frequência. E preparar terreno para que aconteça o máximo de vezes em “ambiente controlado”. À luz da opinião pública, a sua gravidade é habitualmente medida em função das consequências, por mais que essa não passe de uma avaliação superficial e de vistas curtas. Para o treinador, o entendimento tem forçosamente de ser outro. 

Antes do mais importa perceber as circunstâncias. Como surgiu, se foi provocado por um mau comportamento (posicionamento, por exemplo) ou por uma imperfeição no gesto técnico, se foi fruto de uma ideia de jogo ainda a gatinhar ou já na idade adulta, se foi induzido pelo adversário, se decorreu de uma diminuição repentina dos níveis de concentração - ou se foram, até, vários destes factores combinados.

Depois, é preciso compreender como é que o atleta reage ao erro, porque cada um tem mecanismos (inatos ou trabalhados) particulares para encarar a frustração pessoal e ritmos de recuperação diferentes. Nesse sentido, caberá sempre ao treinador-que-amiúde-veste-a-pele-de-psicólogo avaliar se deve reforçar a confiança no jogador voltando a entregar-lhe a titularidade no encontro seguinte ou se deve, ao invés, resguardá-lo de uma pressão acrescida e poupá-lo no imediato até que restabeleça os índices anímicos.

Seja qual for a estratégia adoptada, a verdade é que não há fórmulas únicas e infalíveis. O modo como John Terry ultrapassou o falhanço da grande penalidade na final da Liga dos Campeões de 2008 nada tem que ver com a forma como Lorius Karius reagiu, numa partida de idêntica importância, às duas fífias cometidas com a camisola do Liverpool diante do Real Madrid na edição 2017-18. Assim como não terá relação com o processo mental que Miroslav Djukic utilizou para superar o penálti mal-sucedido que privou o Deportivo da Corunha do título espanhol, em Maio de 1994.

Se é, porém, possível identificar um comportamento recomendável (que terá de partir dos colegas e, acima de tudo, do treinador), ele passa pela assunção colectiva do erro, pela diluição da responsabilidade no todo que é a equipa. Algo que Jürgen Klopp interpretou correctamente instantes depois de ter perdido o título europeu e uma lógica que, numa outra escala, Bruno Lage também corporizou no final do Benfica-Belenenses SAD. “Foram erros colectivos, nossos, e primeiramente do treinador”, esclareceu, referindo-se às falhas protagonizadas por Vlachodimos e Rúben Dias, que travaram um triunfo provável dos “encarnados”.

Para sustentar esta visão, o treinador do Benfica debruçou-se sobre a operacionalização da sua ideia de jogo e, em concreto, sobre a saída de bola. “Precisamos de muito treino, para que este tipo de erros aconteça no treino e para nós consolidarmos a nossa forma de jogar”, acrescentou. Não será precipitado inferir destas palavras que, salvo alguma surpresa, os jogadores em causa continuarão a ser primeiras escolhas.

É justamente esta margem de erro concedida aos atletas que inflaciona as possibilidades de sucesso a prazo, pelo simples facto de não inibir comportamentos futuros que vão ao encontro da ideia de jogo preconizada. Porque a alternativa é levar o jogador a proteger-se em demasia e a baixar os limites do risco (e, por arrasto, de agressividade com bola) da equipa para níveis de conforto pessoal. 

A partir daqui, cada um lidará com o insucesso momentâneo à sua maneira, como já aconteceu com o antigo guarda-redes Shaka Hislop, que durante anos representou o Newcastle e o West Ham na Premier League. “O problema de cometer este tipo de erros em grandes palcos é que nada pode compensá-los até estarmos de volta e fazermos uma grande exibição.”

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