Cindy Crawford revela em Lisboa como se sobrevive num mundo centrado na juventude

A supermodelo norte-americana esteve em Lisboa, pela primeira vez, para inaugurar a nova boutique da Omega, uma marca da qual é embaixadora há mais de duas décadas.

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Stephane Mahe/Reuters

Como uma das modelos mais celebradas dos anos 1980 e 1990, Cindy Crawford já passeou por vários pontos do mundo. Mas nunca visitara Lisboa, onde esteve pela primeira vez, esta semana, para cortar a fita na inauguração da primeira boutique da Omega, na Avenida da Liberdade. “Ouvi tantas coisas sobre esta cidade”, confessa durante uma entrevista conjunta com vários meios de comunicação, que começou com um encontro com Cláudia Vieira, a cara da marca relojoeira em Portugal.

Um dos temas em foco foi a idade. A top model norte-americana fez 53 anos há um mês. “Chegar aos 50 anos não foi algo que desejei”, começa por admitir, comentando que “o mundo no qual vivemos é muito centrado na juventude”, especialmente na indústria da moda.

Crawford aponta para as redes sociais como um factor positivo na forma como as pessoas são representadas no espaço público. “Podes ser a tua própria publicista. Mesmo se outras pessoas escreverem coisas, tens a oportunidade de mostrar quem és”, comenta. “Não tem só a ver com a idade. Sabemos, há bastante tempo, que não há apenas uma ideia do que a beleza é. Por causa das redes sociais, as mulheres reais, de diferentes formas, diferentes idades, estão a dizer 'hey, e nós? Queremos ser representadas!’”

Até porque uma parte significativa dos consumidores está mais interessada em rever-se em pessoas como elas. “Não querem necessariamente comprar produtos de cuidado de pele a uma pessoa de 16 anos — à minha filha, [Kaia Gerber, actualmente uma das modelos mais populares no mundo]. Se tens 16 anos, a tua pele está óptima, a não ser que tenhas uma borbulha. Mesmo para mim, tenho mais interesse [em ver] uma mulher que seja dez anos mais velha do que eu, e que acho que está óptima, quero saber o que está a fazer, porque já passou por isto”, justifica.

Olhando para trás, a modelo não tem arrependimentos em relação aos trabalhos que escolheu, nem mesmo os da Playboy, sublinhando como positivo “sempre que uma mulher pode fazer decisões por si própria”.

A indústria de ontem e de hoje

A onda do #MeToo chegou também à indústria da moda, onde as denúncias de assédio sexual de diferentes manequins levaram, por exemplo, a Condé Nast (grupo editorial de revistas como a Vogue e a GQ) a suspender a colaboração com Mario Testino, Bruce Weber e Terry Richardson. A Vogue decidiu, entretanto, deixar de trabalhar com modelos menores de idade.

“Sinceramente, nunca tive uma má experiência com um fotógrafo ou nos bastidores. Talvez tenha sido só sortuda. A Kaia também nunca teve”, declara Crawford. Contudo, reconhece que o número de pessoas e a segurança nos bastidores da moda é diferente. “Posso dizer que hoje há muito mais pessoas nos bastidores — por causa das redes sociais. Há mais pessoas a tentar ter conteúdo. Talvez esse espaço sagrado dos bastidores estivesse a ser mais violado por pessoas [estranhas] a passar. E é verdade que, por causa disso, há mais protecção nos bastidores. Não é aceitável que qualquer pessoa entre pela sala enquanto estás a mudar de roupa”, acrescenta.

Entre a nostalgia instalada dos anos 1990 e o mediatismo à volta da filha — que se lançou nas passerelles internacionais em Setembro de 2017 e conta hoje com 4,2 milhões de seguidores no Instagram —, Cindy Crawford tem andado atarefada. Nos últimos dois anos, por exemplo, figurou nas capas das revistas InStyle (num editorial à volta da Versace), Pop, Vogue Espanha e Porter.

“O acto de trabalhar como modelo é o mesmo: estás a desfilar na passerelle ou estás a posar em frente à câmara”, aponta. Porém são as redes sociais, mais uma vez, que marcam a diferença. “As pessoas olham para os teus seguidores e terás ou não um trabalho com base nos teus seguidores.”

O outro filho que tem com o empresário Rande Gerber, Presley Walker Gerber, também é modelo. A família de quatro já apareceu inclusive numa campanha da Omega, em 2017 — sendo que os filhos passaram a ser também porta-vozes da marca relojoeira. Crawford é actualmente a embaixadora que há mais tempo (cerca de duas décadas) trabalha com a marca. “Estou casada com a Omega há mais tempo do que estou com o meu marido”, brinca. 

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A família de modelos na campanha da Omega Peter Lindbergh/Omega

A supermodelo planeou a viagem de modo a ter dois dias livres, antes e depois do evento, para passear pela cidade. Até ao momento, tinha passado pelo Castelo de São Jorge, provado pastéis de Belém e jantado no restaurante Sea Me. “Tudo tem sido fantástico. Quando o tempo está soalheiro adoro todas as cidades”, conclui.