Entrevista

“Todos, em qualquer lugar, almejam à felicidade e ao bem-estar”

Alejandro Adler é director da rede das Nações Unidas para a ciência do bem-estar e desenvolvimento de políticas sustentáveis.

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Alejandro Adler fotografado para o site argentino "Otras Voces en Educacion" DR

De origem mexicana, Alejandro Adler começou e fez toda a sua carreira na Universidade da Pensilvânia, nos EUA, onde estudou com o pai da Psicologia Positiva, Martin Seligman. A sua pesquisa centra-se no bem-estar, na educação e em políticas públicas. Veio até Lisboa participar no encontro internacional H20 que, à semelhança do G20, reúne vários países mas que, neste caso, estão apostados em trabalhar na felicidade dos seus cidadãos.

O investigador é director da rede das Nações Unidas para a ciência do bem-estar e desenvolvimento de políticas sustentáveis, ou seja, trata-se de um grupo de especialistas das mais variadas áreas e nacionalidades que quer agora abrir as suas portas a políticos e a outros interessados, revela na sua intervenção. 

​Neste encontro falou ainda sobre a sua experiência no Butão, onde implementou um programa para ensinar a felicidade em 18 escolas. Orgulha-se dos resultados e de haver 12 países que já se mostraram interessados em fazer um projecto semelhante, que começa na formação dos docentes e prossegue numa mudança de paradigma na relação professor/aluno. “O tema da felicidade está a crescer exponencialmente, já está nas estatísticas da OCDE”, aponta.

Ao PÚBLICO pergunta se quer que dialoguemos em espanhol. “Só sei portinhol”, ri. Optamos pelo inglês para falar sobre como os países estão apostados em políticas de promoção da felicidade e do bem-estar.

PÚBLICO: Começou na psicologia positiva. Como é que fez a transição para o bem-estar?
Alejandro Adler: A ciência para o bem-estar inclui a psicologia positiva, mas também a neurociência, a economia, políticas públicas, gestão, etc., e como podemos usá-las todas para influenciar a tomada de decisões em diferentes sectores, incluindo a educação, saúde, infra-estruturas, alimentação, etc.. A ideia é que essas políticas públicas cumpram os objectivos para a sustentabilidade, previstos para 2030. Já vimos que os países com sistemas mais sustentáveis são os que têm maiores taxas de felicidade e bem-estar. 

A maioria dos países está disponíveis para fazer essas mudanças, preocupando-se mais com o bem-estar dos seus cidadãos do que com questões económicas?
Cada vez mais países estão a questionar-se sobre qual será o objectivo do crescimento económico senão for o da felicidade e do bem-estar e que estes dois factores podem contribuir para o desenvolvimento. Portanto começam a ter a felicidade e o bem-estar como um objectivo político, começam a medi-los e, mais importante, a delinear medidas políticas específicas para promover a felicidade e o bem-estar. 

É uma nova área que os países estão a descobrir?
Felizmente, não é algo completamente novo, mas ainda não são muitos os países que estão a adoptar esta ideia. Já são alguns os que estão despertos e que se querem juntar em coligações. A OCDE está a co-liderar iniciativas neste sentido.

Portugal, que é um dos países que assinou a declaração da Coligação Global para a Felicidade, é um bom exemplo?
Sim. Porque é um dos seis membros fundadores da coligação – esta trabalha de uma forma muito próxima com o Conselho Mundial para a Felicidade e Bem-estar –, e é um pioneiro em mostrar o seu exemplo de liderança, mas também nas políticas que promovem a paz. Por exemplo, Portugal tem um dos mais baixos índices de violência em geral, tem políticas na área da educação e saúde que promovem o bem-estar em diferentes domínios.

Conhece o caso concreto português ou leu essa informação em relatórios? Já tinha estado no país?
É a segunda vez que estou em Portugal. Adoro Portugal e sei do seu compromisso político, sei dos resultados, mas não sei o que se passa no dia-a-dia, quais as políticas que foram implementadas e a sua avaliação. Isso devem ser os cidadãos a pedir contas ao Governo, para saber se o que diz é o que faz. Mas sei que o país fez um compromisso internacional de implementar políticas que promovam a felicidade e o bem-estar. 

Quão diferente é a forma como os países do Ocidente olham para o que é o bem-estar, comparativamente ao resto do mundo?
Há diferenças significativas, assim como semelhanças. As diferenças têm sobretudo a ver com a riqueza e o crescimento económico, assim como no que se refere às políticas sociais e de inclusão de pessoas de diferentes contextos. Os países da América do Norte e da Europa tendem a ser mais progressistas, economicamente são maiores, mas têm problemas comuns ao resto do mundo como a cada vez maior desigualdade entre os ricos e os pobres. Mas em comum, todos, em qualquer lugar, almejam à felicidade e ao bem-estar a nível individual e social. Mais do que nos focarmos nas diferenças, devemos procurar o que há em comum e o que pode funcionar em cada país, adaptando-o ao contexto local e cultural. 

Quais são as áreas em que é preciso intervir?
Na educação, na saúde, no urbanismo e planeamento das cidades, etc. Todos queremos uma vida mais saudável, realizada, digna, satisfatória. E, como consequência, os governos têm de criar políticas que possibilitem às pessoas prosperarem.